Os apoios abertos de Bolsonaro nas eleições 2020. E seus efeitos

O 'Nexo' entrevistou dois cientistas políticos para entender como endosso explícito do presidente pode afetar a disputa municipal

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Primeiro, Jair Bolsonaro disse que não apoiaria ninguém na campanha municipal de 2020. Depois fez acenos a alguns nomes. Agora, a duas semanas do primeiro turno, marcado para 15 de novembro, o presidente da República dá apoio aberto a candidatos aliados.

Na quinta-feira (29), em transmissão ao vivo na internet, Bolsonaro pediu votos para cinco nomes que disputam prefeituras pelo país. O presidente afirmou que não pode fazer campanha presencialmente nos municípios por falta de tempo e estrutura, mas colocou à disposição seu capital político para ajudá-los nas disputas locais.

Apoiados

Russomanno em São Paulo

“Celso Russomanno é minha pedida para São Paulo. Quem não escolheu ainda, [se] puder escolhê-lo, a gente agradece aí”, disse Bolsonaro na live. O candidato do Republicanos começou a campanha liderando pesquisas, mas vem perdendo fôlego e acabou superado numericamente pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta reeleição. Logo atrás vem Guilherme Boulos (PSOL) em viés de alta. Russomanno usou bastante a imagem de Bolsonaro nos primeiros momentos da propaganda de rádio e TV. No fim de outubro, passou a dosar a associação com o presidente, reduzindo as citações à parceria.

Crivella no Rio

"Fico com o Crivella. Mas que não tenha muita polêmica, se você não quiser votar nele, fique tranquilo, não vamos criar polêmica, não vamos brigar entre nós por causa disso”, afirmou Bolsonaro na live. Prefeito do Rio em busca da reeleição pelo Republicanos, Marcelo Crivella ocupa numericamente a segunda colocação. É seguido por Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT). Quem lidera a corrida carioca é o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM). Crivella vem usando a imagem de Bolsonaro na campanha. Na sexta-feira (30), o presidente gravou vídeos em seu apoio.

Bruno Egler em Belo Horizonte

"Dizem que está decidido em Belo Horizonte, porque tem um candidato com mais de 60%. Mas tem o Bruno Engler, que conheço há quatros anos, jovem”, disse Bolsonaro na live. O “candidato com mais de 60%” citado pelo presidente é o atual prefeito Alexandre Kalil (PSD), candidato à reeleição. Candidato pelo PRTB. Bruno Egler nem cheogu à casa dos dois dígitos nas pesquisas, assim como os outros concorrentes. A vitória de Kalil é vista como uma das mais prováveis no primeiro turno nas disputas das capitais brasileiras.

Coronel Menezes Em Manaus

“Sou suspeito para falar dele. Foi meu colega na Academia dos Agulhas Negras [unidade de formação de combatentes do Exército] (...) Coronel Menezes é uma boa ideia para Manaus”, disse Bolsonaro na live. Diversos candidatos pleiteavam o apoio presidencial na capital amazonense. No fim, Coronel Menezes (Patriota), que disputa sua primeira eleição, ficou com esse apoio. O candidato vai mal nas pesquisas, na quinta colocação, sem atingir dois dígitos em intenção de voto.

Ivan Sartori em Santos

“Ele [Sartori] deu decisões positivas e favoráveis aos policiais militares no caso do Carandiru [desembargador do Tribunal de Justiça votou pela inocência dos policiais militares que participaram do massacre do Carandiru, em 1992, vitimando 111 detentos]. Tem coragem e determinação. É uma opção, e estou pedindo voto nele para quem não se decidiu ainda”, disse Bolsonaro na live. Na cidade do litoral paulista, Ivan Sartori (PSD), desembargador aposentado, aparece com chances de ir ao segundo turno em uma disputa liderada até aqui por Rogério Santos (PSDB).

O apoio de Bolsonaro sob análise

O Nexo conversou com dois cientistas políticos para entender qual o impacto do apoio explícito de Bolsonaro a determinados candidatos na reta final da campanha eleitoral. São eles:

  • Josué Medeiros, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • André Kaysel, professor de ciência política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Qual é a lógica do apoio de Bolsonaro a esses candidatos específicos?

Josué Medeiros A lógica do Bolsonaro não é majoritária, não visa alcançar a maioria do eleitorado, como sempre foi com os presidentes de 1989 para cá. Sua lógica é amarrar até 2022 um eleitorado de direita mais conservador que não se vincula a nenhum partido.

Com isso, ele mantém de 20% a 30% dos votos, o que em tese o coloca no segundo turno. Assim, esse apoio que ele dá aos candidatos não tem como objetivo levá-los ao segundo turno. Se conseguir, melhor ainda. Mas o que importa é fazer essa amarração.

O caso de Belo Horizonte é exemplar. Kalil vai ganhar com tranquilidade no primeiro turno. Mesmo sabendo disso, o Bolsonaro manifesta apoio a Egler. Se ele consegue um impulso final e chega a 10%, é uma grande vitória do presidente.

Já com relação ao Crivella e Russmono, ambos estão caindo nas pesquisas mesmo usando a imagem do presidente desde o começo. A diferença é que agora o Bolsonaro explicitou que os apoia. Sua declaração fornece matéria prima para uma ação de redes típica do bolsonarismo.

Se, depois desse apoio explícito, eles subirem nas pesquisas, mesmo que pouco, isso vai para a conta do Bolsonaro. Se eles fracassam, analiticamente podemos até concluir que foi uma derrota também do presidente. Mas, na prática, isso não vai afetar sua lógica de governar para os 30%, nem sua relação com o congresso. Ele consegue se desvincular das candidaturas fracassadas operando dessa maneira, por transmissões na internet e declarações desencontradas, sem se vincular a ninguém via estrutura partidária ou alianças formais. E se elas dão certo, ele se aproveita.

André Kaysel Bolsonaro parecia não estar preocupado com a eleição municipal, mas agora mudou de atitude. Isso tem a ver com a consolidação de alguns conflitos e alianças que vão ganhando peso localmente e podem crescer, como é o caso da candidatura de Bruno Covas apoiada por DEM e MDB. Covas está se consolidando e Russomanno está em queda. Bolsonaro está respondendo a um conflito que o próprio governo dele promove em alguns momentos, como é o caso da relação dele com João Doria [governador de São Paulo, político eleito com discurso bolsonarista que depois virou desafeto do presidente].

Creio também que Bolsonaro faz um cálculo pensando nas eleições de 2022. Inicialmente, esses candidatos estavam de olho no eleitorado bolsonarista. Agora, me parece haver uma reciprocidade por parte do presidente em cooptar o eleitorado desses candidatos e fortalecer sua posição na extrema direita, ainda que algumas disputas já estejam consolidadas, como é o caso de Belo Horizonte. Todas essas atitudes de Bolsonaro, que em um primeiro momento parecem erráticas, têm um único propósito: consolidar um projeto de reeleição nos próximos dois anos.

Qual é o peso do apoio do presidente a eles? Isso pode impulsioná-los nas pesquisas ou atrapalhá-los?

Josué Medeiros Acredito que agora a grande questão é se a estrutura bolsonarista mais subterrânea, de redes, disparos de Whatsapp e capilarização nas periferias, subúrbios e cidades médias que funcionou muito bem em 2018 ainda está operando. Essa será a medida do peso do apoio de Bolsonaro a eles.

Na eleição de 2018, o caso [Wilson] Witzel [governador afastado do Rio de Janeiro] foi o mais emblemático, mas não foi o único. Foram dezenas, talvez centenas de candidaturas legislativas do PSL impulsionadas no final de semana da eleição. Candidaturas majoritárias menos, mas também ocorreu. O próprio Bolsonaro fez uma operação de guerra para levar [a disputa presidencial] no primeiro turno e quase deu certo. De lá para cá, algumas investigações do Supremo afetaram essa estrutura. A briga no PSL também [Bolsonaro deixou o partido após disputas com dirigentes].

O próprio desgaste de ser governo, a proximidade com o centrão [grupo parlamentar do Congresso associado ao fisiologismo] e, de novo, o fracasso do Witzel [apoiado pela família Bolsonaro, mas posteriormente transformado em adversário], atrapalham esse tipo de operação porque enfraquecem a ideia de “novidade” na aposta do presidente. Contudo, algo daquela estrutura ainda opera e isso é perceptível nas várias crises que envolveram o presidente durante a pandemia, com os ataques aos ministros demitidos, por exemplo.

Para Crivella e Russomanno, o apoio explícito de Bolsonaro, com o pronunciamento em uma transmissão que é assistida por seus apoiadores, é fundamental. Se essa manifestação escancarada do presidente fizer com que esses candidatos saltem dos atuais 15/20% para 25%, será uma grande vitória de Bolsonaro, mesmo que eles venham a ser derrotados no segundo turno, o que é o mais provável. Se não ocorrer, Bolsonaro sairá derrotado, mas isso impactará pouco ou quase nada as suas estratégias de governo até 2022.

André Kaysel Tenho dúvida se esse apoio do Bolsonaro vai, de fato, ter algum efeito prático. Ainda que exceções aconteçam, eleições municipais tendem a ser menos nacionalizadas, sobretudo em uma disputa com os problemas que os municípios enfrentam no contexto da crise econômica e sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus. E também porque Bolsonaro estava ausente da disputa até pouco tempo.

Então, o impacto desse apoio direto é uma incógnita. Seu impacto depende também da região em que o candidato disputa a eleição. O presidente é mal avaliado na maioria das capitais.

Os candidatos podem tentar um fator surpresa junto ao eleitorado na reta final da campanha ao aproveitar o apoio explícito do presidente. Essa não é uma lógica nova na forma dele atuar e já aconteceu em 2018.

Candidatos podem utilizar a imagem de Bolsonaro, e o próprio eleitorado do presidente pode se interessar por esses nomes. Mas nós vivemos um contexto diferente daquele ocorrido em 2018, quando essa estratégia deu certo. Isso significa que esse efeito de última hora pode não se reproduzir novamente.

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