A derrocada da candidatura do Novo na maior cidade do país

Escolhido por processo seletivo, Filipe Sabará colecionou polêmicas com o partido: elogiou Maluf, teve de retificar declaração de bens e agora tem nome indeferido pela Justiça Eleitoral

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Lançado pelo Novo para disputar a prefeitura de São Paulo nas eleições municipais, Filipe Sabará teve a candidatura indeferida no domingo (25) pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo).

O tribunal aceitou um pedido feito pelo próprio partido, após a desistência da economista Marina Helena em compor a chapa como vice-prefeita. Sabará pode recorrer da decisão.

Na segunda-feira (26), o candidato afirmou que ainda não definiu se vai entrar com um recurso. “Estamos avaliando a melhor decisão a ser tomada, pois sem a vice que escolhi as coisas mudam bastante de figura”, disse.

Em um vídeo publicado nas redes sociais no sábado (24), Helena afirmou que “dado os últimos acontecimentos”, não seria possível seguir com a candidatura.

A economista afirmou estar ciente dos problemas entre Sabará e o Novo, mas afirmou que ambos “compartilham o mesmo propósito de transformar a vida das pessoas através de valores liberais e do combate à corrupção”.

Como Sabará foi escolhido

Desde a sua fundação, em 2011, o Novo defende que a escolha de seus candidatos deve ser feita a partir de um processo seletivo, em uma seleção que promete “critérios técnicos”, não políticos.

Candidatos são submetidos a testes e entrevistas. A promessa é reproduzir a lógica de uma empresa privada. Nas eleições de 2020, uma consultoria externa foi contratada para ajudar na avaliação dos nomes à prefeitura lançados pela sigla.

Para pagar o trabalho da empresa, os candidatos tiveram que contribuir com valores que variam entre R$ 2.000 e R$ 4.000, a depender do tamanho da cidade. Quanto maior o município, maior a contribuição.

Na etapa final do processo, os candidatos passaram por uma entrevista com a direção nacional do Novo, quando os participantes apresentaram problemas e soluções do seu município. No total, 55 pessoas se inscreveram no processo seletivo da sigla para comandar a capital paulista.

Todo esse processo aconteceu ao longo de 2019, segundo o partido. Em novembro daquele ano, o jornal Folha de S.Paulo mostrou que Sabará havia sido o escolhido após derrotar outros postulantes.

Ele derrotou Claudio Lottenberg, empresário da área de saúde privada; Diogo da Luz, que foi candidato ao Senado pelo Novo em 2018; e Emerson Kapáz, empresário e ex-deputado federal pelo PSDB.

Sabará, que é fundador de um instituto que promove a inserção de moradores de rua no mercado de trabalho e de uma empresa de cosméticos naturais, teve a candidatura confirmada na convenção municipal do Novo no início de setembro de 2020.

Os sinais a Bolsonaro e a Maluf

Sabará iniciou sua campanha dizendo ser o candidato direita raizem São Paulo e fez acenos ao eleitorado bolsonarista durante entrevista ao jornal Folha de S.Paulo publicada no início de setembro.

Ele elogiou a atitude do presidente durante a pandemia do novo coronavírus, que foi contrário às medidas restritivas e defendeu remédios sem comprovação científica, como a cloroquina.

João Amoêdo, candidato derrotado do partido nas eleições presidenciais de 2018 e ex-presidente do Novo, vinha adotando posição diferente. Apesar de ter votado em Bolsonaro no segundo turno, Amoêdo se tornou crítico do presidente. Em entrevista à revista Istoé em julho de 2020, ele afirmou que Bolsonaro estava condenando brasileiros à morte.

O antagonismo na avaliação em relação ao governo federal é, de acordo com Sabará, motivo para que uma ala do Novo, comandada por Amoêdo, tenha feito movimentos para minar sua candidatura.

Outro ponto de desgaste entre Sabará e lideranças do Novo aconteceu em meados de setembro, quando o empresário elogiou Paulo Maluf em entrevista à rádio Jovem Pan, ao responder qual tinha sido o melhor prefeito de São Paulo.

Sabará disse que o político, mesmo tendo protagonizado seguidos escândalos de corrupção, havia feito uma boa gestão como prefeito da capital paulista, posto que ocupou na década de 1980, sob tutela dos militares, e entre 1993-97, desta vez pelo voto direto.

A declaração foi rejeitada por líderes e integrantes do Novo. Amoêdo disse em suas redes sociais que “a citação de um político corrupto como exemplo de gestão é inadmissível”.

O deputado estadual Heni Ozi Cukier (SP), também por meio de suas redes sociais, classificou Maluf como “corrupto”, “populista” e “autoritário” e disse que o Novo “repudia tanto a figura dele quanto o que ele representa”.

Após a polêmica, Sabará afirmou que havia citado Maluf por suas realizações na infraestrutura e disse que a pergunta sobre o melhor prefeito da cidade era "capciosa". Disse também que a avaliação não era condizente com o que o Novo defende.

As inconsistências do currículo

Sabará foi secretário de Assistência e Desenvolvimento Social na prefeitura de São Paulo sob gestão de João Doria (PSDB), antes de o tucano deixar o cargo para ser eleito governador do estado em 2018.

Também com o tucano, Sabará presidiu o Fundo Social ao lado da primeira-dama Bia Doria. A entidade filantrópica ajuda pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Na área acadêmica, o empresário é formado em marketing e informa ter cursos de pós-graduação na área de gestão pública pela Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), instituição de ensino privada em São Paulo.

A informação, no entanto, foi desmentida pela universidade, que disse ao jornal Estado de S.Paulo, no dia 24 de setembro, que Sabará nunca havia realizado a disciplina na faculdade.

Na ocasião, a campanha de Sabará disse que a informação sobre o suposto curso de pós-graduação não havia sido repassada pelo candidato. Já a assessoria de imprensa do Novo informou que o texto publicado no site do partido era de autoria do candidato e repassado à sigla.

A retificação milionária

Na mesma semana em que as inconsistências no currículo vieram à tona, Sabará retificou a declaração de bens feita à Justiça Eleitoral para as eleições municipais.

O documento foi enviado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 19 de setembro e retificado dois dias depois, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

No documento enviado em 19 de setembro, Sabará declarou ter pouco mais de R$ 15 mil em bens. Na retificação do documento, o patrimônio saltou para R$ 5,1 milhões.

O valor estava dividido entre ações de uma empresa de cosméticos (R$ 5 milhões), aplicações e valores em conta. Na declaração original, as ações da empresa estavam avaliadas em R$ 8.000.

Como justificativa, a assessoria de imprensa de Sabará afirmou que o erro na declaração era fruto de “um lapso” do candidato e que o documento havia sido atualizado “para constar, além da informação do seu Imposto de Renda, a avaliação de mercado de sua empresa, bem como seus investimentos atualizados”.

A suspensão. E a posterior expulsão

Após um processo interno e sigiloso, o Conselho de Ética do Novo, vinculado à direção nacional do partido, suspendeu Sabará e sua campanha em 23 de setembro. A solicitação havia sido feita por Kauan Viscardi, filiado da sigla em Santa Catarina.

Na ocasião, Sabará disse o seguinte em nota: “Estou sendo perseguido pelo João Amoêdo e por uma ala minoritária do Novo, pois ele não permite visões diferentes das dele dentro do partido. Por isso, estão arquitetando críticas infundadas para acabarem com a minha candidatura”.

Sabará, então, recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral, que aceitou o recurso do candidato em uma decisão liminar do ministro Luis Felipe Salomão. O magistrado afirmou que a suspensão da campanha era “excessivamente gravosa” e poderia produzir “dano irreparável” à candidatura de Sabará.

Em 21 de outubro, o Conselho de Ética do Novo, em comunicado enviado a todos os filiados, informou que Sabará havia sido expulso da sigla por decisão unânime.

O aviso diz que a expulsão aconteceu por causa das inconsistências no currículo do empresário e que a situação foi analisada em um processo administrativo interno. Sabará pode recorrer, segundo estatuto da sigla.

Em nota, Sabará afirmou que foi expulso do partido por elogiar o governo Bolsonaro e divergir de Amoêdo em suas posições políticas. “Defendi as boas ações do governo federal sempre que entendi que deveria”, afirmou.

Sabará também afirmou que Amoêdo “continua mandando no diretório nacional do partido e na suposta ‘Comissão de Ética’, e não respeita opiniões diversas e nem mesmo a lei”. O ex-presidente da legenda não respondeu ao candidato.

O Novo definiu que não vai substituir a candidatura de Sabará e pediu a extinção do registro de candidatura e a retirada do número da chapa das urnas eletrônicas.

Além disso, segundo a Lei Eleitoral, partidos que disputam as eleições podem substituir candidatos com registro indeferido ou cancelado até 20 dias antes do primeiro turno. Esse prazo se encerrou na segunda-feira (26).

As eleições anteriores do Novo

O partido Novo recebeu registro da Justiça Eleitoral em 2015. Foi fundado por pessoas ligadas a bancos, alguns deles altos executivos de instituições financeiras.

Em 2016, o Novo disputou sua primeira eleição, pleiteando cargos municipais. No total elegeu apenas quatro vereadores no Brasil.

Em 2018, nas eleições nacionais, o partido elegeu 8 deputados federais, 11 deputados estaduais e um governador, Romeu Zema, em Minas Gerais.

Amoêdo recebeu 3% dos votos ao disputar a presidência e terminou à frente de nomes como Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede).

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente no governo Bolsonaro, foi candidato a deputado pelo Novo. Ele acabou tendo sua filiação suspensa em 2019 por sua atuação no governo. Em maio de 2020, a Comissão de Ética da sigla decidiu expulsá-lo do partido.

No campo das ideias, o Novo defende o liberalismo econômico, com redução da participação do Estado na economia. É a favor da privatização de todas as estatais, incluindo Petrobras e o Banco do Brasil.

O partido costuma dizer que seus candidatos são livres para escolher posições no campo de direitos civis, como a questão do aborto. Amoêdo, quando foi candidato à Presidência, se disse “conservador nos costumes”.

Material de referência

As eleições municipais de 2020 estão marcadas para 15 de novembro e vão eleger prefeitos e vereadores em 5.570 municípios do Brasil. Para entender a importância desses dois cargos, a plataforma Nexo Políticas Públicas explicou quais são as atribuições do chefe do Executivo e dos membros do Legislativo na esfera municipal. Leia clicando aqui. A plataforma também compilou 10 questões sobre o meio urbano que já foram respondidas por pesquisas científicas. Leia aqui.

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