Qual o peso da declaração do papa sobre união gay

Francisco defende direito à união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas não toca em dogma da Igreja sobre homossexualidade

    O papa Francisco defendeu que casais homossexuais não sejam julgados, não sofram discriminação e tenham direito a manter uniões reconhecidas como tal pelo direito civil. O líder máximo da Igreja Católica Romana não tocou, no entanto, no dogma (regra imutável) que considera pecado as relações homoafetivas.

    “Pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deveria ser descartado ou ser transformado em miserável por conta disso", disse o papa, acrescentando: “O que temos de criar é uma lei de união civil. Assim, [os casais homossexuais] ficam legalmente protegidos. Posiciono-me por isso.”

    A declaração do papa foi revelada na quarta-feira (21), na estreia do documentário “Francesco”, do diretor americano Evgeny Afineevsky no Festival de Cinema de Roma, na Itália.

    Esta não foi a primeira declaração de Francisco sobre o tema. Em 2013, em conversa com jornalistas dentro do avião que o levava de volta a Roma, após visita ao Brasil, o papa também tocou na questão da homossexualidade. “Se uma pessoa é gay e busca Deus de boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse a figura que, na fé católica, é considerada autoridade infalível.

    Num setor onde as regras fundamentais permanecem inalteradas há dois mil anos, as declarações de Francisco são tratadas não apenas como um sinal de abertura, mas como um giro radical.

    Mais simbólico do que prático

    Seu posicionamento, no entanto, tem importância prática relativa num mundo em que os adeptos da fé católica encolhem, enquanto o número de países que celebram o casamento gay não para de crescer.

    No Brasil, por exemplo, os evangélicos devem superar os católicos em percentual da população até 2022, com base na projeção dos números do IBGE. O país reconhece o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo desde 2011, por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, e desde 2013, por resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

    Casamentos entre pessoas do mesmo sexo também são reconhecidos nos EUA e na maioria dos países da Europa, mas esse status ainda é tratado como ilegal em pelo menos 70 países do mundo. Na Arábia Saudita, relações homoafetivas são passíveis de pena de morte. No Quênia, leva à pena de prisão.

    A declaração do papa em favor da união civil entre homossexuais chega 19 anos depois de a Holanda ter celebrado o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo no mundo. Ainda que tardio, o giro traz consigo um peso histórico capaz de influenciar pelo menos 1,3 bilhão de católicos, o que corresponde a 18% da população mundial.

    Metade desses fiéis está no continente americano – e, dentre esses, metade está na América Latina. A África concentra 17,6% dos católicos do mundo, e é, junto com a Ásia, a região do mundo em que as relações homoafetivas são menos aceitas.

    Reações do setor conservador

    Desde que iniciou seu pontificado, em março de 2013, Francisco coleciona declarações e atos que são classificados como renovadores na Igreja.

    Esse comportamento renovador fica ainda mais realçado quando comparado à linha assumida por seu antecessor, o alemão Joseph Ratzinger, ou Bento 16, que diverge de Francisco em muitos pontos, incluindo a questão das relações entre pessoas do mesmo sexo.

    Em maio, a publicação de uma biografia autorizada de Ratzinger – que mantém o cargo honorífico de papa emérito desde sua renúncia em fevereiro de 2013 – mostrou que ele considera a defesa de temas como a união homoafetiva, o aborto e a fertilização in vitro como adorações ao “anticristo”.

    No dogma católico, a relação entre pessoas do mesmo sexo é pecado. Porém, passagens bíblicas também condenam a discriminação dos pecadores. A postura de Francisco – que fala em acolher sem discriminar, mas não chega a abençoar os gays – sinaliza um intento de encontrar espaço teológico para atualizar posturas milenares de uma igreja que encolhe.

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