Qual a melhor forma de combater incêndios florestais

Governo fala de ‘boi bombeiro’ e usa retardantes de chama sem regulação no Brasil. Ao ‘Nexo’, Ronaldo Viana Soares, pesquisador do FireLab da UFPR, explica práticas de enfrentamento e prevenção do fogo nos biomas brasileiros

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O Pantanal enfrenta a maior seca em 47 anos. O cenário é propício para a propagação de incêndios, que atingem a região desde julho. Em setembro, o bioma teve o maior número de focos de incêndios da história para um único mês: 6.048 registros. Até meados de outubro, 27% do território pantaneiro já havia sido consumido pelas chamas.

O avanço do fogo também bate recordes em outros biomas. Nos nove primeiros meses de 2020, a área atingida por incêndios no Brasil equivale a de todo o Reino Unido — 226.485 km². Entre os parques nacionais impactados estão, por exemplo, a Chapada Diamantina (BA), a Chapada dos Veadeiros (GO) e a Serra do Cipó (MG).

No bioma dos Pampas (RS), a área queimada até setembro de 2020 é 12 vezes o tamanho de Porto Alegre — 6.044 km². Isso corresponde ao maior valor já registrado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) desde o início da série histórica, em 2002. Na Amazônia, o número de focos de incêndio até meados de outubro é quase igual ao de todo ano de 2019 — o maior valor desde 2010.

Todos os anos, é esperado uma maior intensidade de incêndios nos meses de junho a setembro, quando o país passa por um período de seca — em 2020, essa estiagem veio mais forte. Em algumas regiões do Brasil, como no Cerrado, o fogo pode começar por fatores naturais, mas a maior parte é causada por ação humana. No Pantanal, por exemplo, perícias apontam que vários focos da crise atual foram provocados pelo homem, em atividades como queima de pasto, fogo em raízes de árvore para exploração de mel de abelha e incêndios em máquina agrícola e em veículo.

As medidas do governo federal no combate ao fogo

Em 16 de julho, a União editou um decreto que proibia queimadas controladas na Amazônia Legal e no Pantanal por 120 dias. No campo financeiro, os repasses esbarraram em impasses contábeis envolvendo os ministérios do Meio Ambiente e da Economia. Até outubro, menos da metade do valor pedido pela pasta ambiental foi liberado para o combate a incêndios.

R$ 96 milhões

foi o valor liberado, de um pedido de originalmente R$ 230 milhões

Desde setembro, a União também liberou, pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, recursos para o enfrentamento das chamas no Pantanal. O valor somado, até 17 de outubro, é de R$ 17,8 milhões. Esses montantes viabilizam o trabalho de aviões, helicópteros, viaturas e brigadistas nas áreas afetadas.

A atuação do governo federal, no entanto, é criticada por atrasos e omissões, que remontam a um cenário de enfraquecimento de órgãos ambientais. Na terça-feira (13), em audiência pública no Senado, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tentou minimizar a crise, dividindo a responsabilidade com os estados.

“Apenas 6% do Pantanal são de jurisdição da fiscalização federal. As demais partes do território são de competência estadual. Portanto, o governo federal contribui em sua parcela de jurisdição”

Ricardo Salles

ministro do Meio Ambiente, em audiência no Senado, na terça-feira (13)

Os estados que englobam o Pantanal também contribuíram com repasses e equipamentos próprios para o combate as chamas. É do ministro do Meio Ambiente, no entanto, a função de gerenciar o Sisnama (Sistema Nacional do Meio Ambiente), cuja função é de proteger, melhorar e recuperar a qualidade ambiental em todo o país.

Sua pasta também é questionada por declarações controversas a respeito do combate a incêndios. Reproduzindo uma fala da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, Salles reforçou a tese do “boi bombeiro”, segundo o qual uma maior produção de gado seria sinônimo de menos incêndios. A ideia é que ao comer matéria orgânica, o animal estaria diminuindo o material combustível para a propagação do fogo.

Segundo ambientalistas, o boi de fato ajuda a diminuir esse tipo de material no solo do Pantanal. Mas esse efeito existe pela ação de bois criados por pantaneiros, que se alimentam de forma reduzida de vegetação nativa. Com a chegada da pecuária extensiva, o processo deixa de existir porque os animais foram realocados para pastos com espécies vegetais que não são nativas.

Também apontam o fato da criação de gado bovino ter aumentado nos últimos anos em regiões como o Pantanal. Segundo o MapBiomas, entre 1999 e 2018, houve um crescimento absoluto de 38% dos animais, enquanto a cobertura vegetal do bioma caiu 10%. Ao analisar a variação anual dos rebanhos, um levantamento do site O eco mostra que não há correlação entre a criação de gado e os focos de calor ao longo dos anos.

Ao Jornal Nacional, Carlos Bocuhy, presidente da Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, diz que a ideia do “boi bombeiro” seria uma desculpa para o desmatamento.

Outra medida questionada foi a adoção de retardantes de chama para combate a incêndios. O produto foi doado à União e utilizado na Chapada dos Veadeiros, apesar de não ser regulamentado no país e de exigir que uma série de restrições sejam tomadas para evitar contaminação. O NIH (sigla em inglês para o Instituto Nacional de Saúde dos EUA), por exemplo, já alertou sobre os potenciais efeitos dos retardantes no sistema endócrino e como causa de câncer. Os riscos, no entanto, não são claros nem unanimidade para comunidade científica, que segue estudando seus efeitos.

No Brasil, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o Prevfogo (Centro do Ibama de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais) discutem o uso do produto desde 2018. A recomendação é de que ele seja usado apenas em último caso, com a suspensão por 40 dias do consumo de água, frutas e vegetais da região, além de atividades de pesca e caça.

Os fabricantes afirmam que os retardantes não são tóxicos e são biodegradáveis. Segundo Salles, o produto, ao ser diluído na água, oferece uma eficiência no combate ao fogo cinco vezes maior do que a água pura.

Vinte mil litros de retardantes estavam sendo adquiridos para uso no Pantanal pelo Ibama e pelo Ministério do Meio Ambiente, mas o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União pediram a paralisação do processo de compras na terça-feira (13). A corte analisa o caso, mediante “fundado receio de ocorrer lesão ao meio ambiente e à saúde pública”.

O combate ao fogo em análise

Para entender os meios de combate a incêndios florestais, o Nexo conversou com Ronaldo Viana Soares, professor sênior do curso de pós-graduação em engenharia florestal da UFPR (Universidade Federal do Paraná), com ênfase em temas como controle de incêndios florestais e ecologia do fogo.

Soares é também pesquisador do FireLab (Laboratório de Incêndios Florestais – UFPR) e participou da mesa inaugural da 7ª Conferência Internacional sobre incêndios florestais, ocorrida no Brasil em 2019.

Quais são as melhores ações para se preparar contra incêndios florestais, especialmente nos meses de seca?

RONALDO VIANA SOARES Em primeiro lugar, treinamento das equipes de combate para que elas estejam aptas a atuar no controle dos incêndios. Em segundo, verificar se as ferramentas, equipamentos e produtos utilizados estão prontos para qualquer emergência. E a construção e manutenção de aceiros [técnica usada para retirar matéria orgânica, criando faixas sem vegetação por onde o fogo é incapaz de se propagar] também é importante, mas eles são mais utilizados em áreas de reflorestamento.

Em unidades de conservação, não se deve fazer aceiros porque isso traria um impacto ambiental negativo. [Só se faz] dependendo da localização. É o caso do Cerrado, onde o fogo é um elemento integrante de um ecossistema que só existe porque queima periodicamente. Então, nesses locais, o que se deve fazer é um regime de queima controlada de baixa intensidade que reduza material combustível e que evite a incidência de incêndios de maior intensidade.

Há diferença no combate a incêndios localizados em biomas diferentes?

RONALDO VIANA SOARES Nenhum incêndio é igual ao outro. Depende de muitas variáveis, como o tipo de combustível e as condições meteorológicas (temperatura, umidade relativa do ar, direção e velocidade do vento, topografia da área). São tantos fatores que é impossível ter todos eles idênticos mais de uma vez. Para cada incêndio, é necessário que se faça um estudo prévio rápido. A pessoa que tem experiência nisso rapidamente já vê toda a situação e estrutura o combate. Porque é um erro você chegar e já começar a atacar diretamente, inclusive para a própria segurança dos combatentes. Tem que verificar rotas de fuga.

O fogo no Cerrado se propaga muito rapidamente, porque é um tipo de vegetação que favorece isso. É mais difícil de se combater o incêndio. Já na floresta amazônica não queima nem se jogar gasolina, porque é muito úmida. Nas áreas em que se faz a derrubada [de mata] e o material seca, aí queima. Mas mesmo com intensidades de fogo relativamente altas, ele não se propaga com muita rapidez. Então é muito mais fácil você conter a propagação desse incêndio [na Amazônia].

Quais são as melhores ações para evitar que focos de fogo localizados se alastrem?

RONALDO VIANA SOARES Uma detecção rápida desses focos de incêndios. Todo incêndio começa pequeno. Nenhum já começa grande. Quanto menor o foco, mais fácil é de se controlar e evitar que ele se propague. Se deixar a propagação livre, o fogo vai tomando cada vez mais intensidade, porque a energia gerada por ele vai secando o material [próximo], que vai se tornando mais inflamável.

Em áreas muito remotas, a única maneira de se fazer a detecção é através de focos de calor. O Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] faz essa detecção através de satélites. Mas as vezes ela é um pouco tardia, porque os satélites passam de tempos em tempos. Além disso, pode haver alarmes falsos.

Para outras áreas, as empresas de reflorestamento e grande parte das unidades de conservação têm sistemas de detecção próprios. Mas a detecção depende muito também da educação ambiental. Se uma pessoa devidamente instruída passar em uma estrada e ver um foco de incêndio, ela tem condições de comunicar ao órgão responsável pelo combate sobre esse foco de incêndio. Então, essa detecção voluntária é muito eficiente.

Quais são as melhores ações para controlar incêndios depois que o fogo já está distribuído de forma generalizada?

RONALDO VIANA SOARES Não existe no mundo tecnologia capaz de combater um incêndio de alta intensidade. Quando ele passa de certa intensidade, não tem como combater. Somente alguma mudança climática, como a chuva. Mesmo em países com uma estrutura boa de pessoal e equipamentos, como EUA, Austrália, Canadá e Portugal, existem catástrofes de grandes incêndios. Pode ter aviões, caminhões-tanque, tudo, mas não tem jeito.

Um exemplo: há alguns anos [em 1988], no Parque Nacional do Yellowstone, o mais famoso dos EUA, um incêndio queimou o parque durante mais de três meses sem conseguirem apagar. Tinha a maior estrutura já montada para combater um incêndio atuando ali, e ele só parou quando choveu.

Por isso algumas críticas feitas ao combate atual dos incêndios florestais do Pantanal são um pouco infundadas. A pessoa não sabe que depois de certa intensidade não tem o que fazer. Você tem que reduzir a possibilidade de risco [de incêndios], fazer aceiros com dimensões muito grandes. Porque se tiver vento forte, o fogo facilmente pula rios, estradas, etc.

No combate a incêndios florestais, o que deve ser responsabilidade federal e o que cabe a governos locais?

RONALDO VIANA SOARES De responsabilidade federal são todas as áreas de conservação federais. Já em outros tipos de unidade, a responsabilidade é dos governos locais. Quando há incêndios nas unidades estaduais ou mesmo em áreas de terceiros, o estado é quem atua em primeiro lugar. É claro que o governo federal, em situações mais difíceis, também vai prestar auxílio.

Têm regiões em que o treinamento das equipes [de combate a incêndios] é mais intenso. Até pela experiência passada com o fogo. O Paraná, por exemplo, sofreu o mais destrutivo incêndio até hoje havido no Brasil, em 1963, que queimou 10% da superfície do estado, matou 110 pessoas, e consumiu mais de 5.500 casas. Por isso, o Corpo de Bombeiros do Paraná foi o primeiro a instituir cursos de combate a incêndios florestais nas corporações de bombeiros. Mas em outros estados, na região Norte e Nordeste, já tem um problema um pouco mais deficiente nesse treinamento.

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