A Ponte da Amizade reaberta. E as relações entre Brasil e Paraguai

País vizinho levanta restrições na fronteira depois de quase 7 meses de precaução e críticas com a gestão da pandemia do lado brasileiro

A Ponte da Amizade, que liga Brasil e Paraguai, foi reaberta na quinta-feira (15) após quase sete meses de fechamento por causa da covid-19. A abertura atende à demanda dos comerciantes locais, que reclamavam do prejuízo acumulado nos seis meses em que o trânsito entre os dois países esteve restrito.

Num primeiro momento, a reabertura permitirá que veículos particulares e caminhões de carga transitem em horário reduzido – das 5h às 14h – entre as cidades fronteiriças de Ciudad del Este, no Paraguai, e Foz do Iguaçu, no Brasil. Em 1º de novembro, será autorizada a passagem de pedestres.

A Ponte da Amizade é o principal ponto de passagem entre os dois países. Por ela, costumavam transitar diariamente mais de 40 mil veículos e 100 mil pedestres.

A reaproximação comercial entre os dois países vem acontecendo desde 16 de setembro, com o estabelecimento de seis Centros Logísticos de Comércio Fronteiriço em pontos diferentes de ligação com os estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul. Neles, as pessoas podiam entrar, comprar e sair, sem permanecer no país.

Num segundo estágio, cuja data não foi especificada, outros pontos de passagem, como a ligação entre a cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero e a cidade brasileira de Ponta Porã, pouco mais de 400 km ao norte da Ponte da Amizade, também serão reabertos paulatinamente, seguindo regras de segurança sanitária.

A retomada das conexões viárias entre os dois países deve dinamizar não apenas o comércio local entre as cidades fronteiriças, como também a balança comercial entre os dois países. De acordo com o Itamaraty, “o Brasil é, tradicionalmente, o principal parceiro comercial do Paraguai. Em 2018, [o Brasil] absorveu mais de 30% do total das exportações paraguaias e forneceu aproximadamente 22,5% de suas importações”.

Grande parte desse volume diz respeito à transação da energia elétrica produzida pela usina binacional de Itaipu, mas a cesta do comércio binacional é formada ainda por outros produtos, agrícolas e industrializados.

O fechamento da fronteira levou comerciantes à falência e deixou 64 mil desempregados só em Ciudad del Este. Nos últimos meses, os protestos se multiplicaram. Muitos desafiaram a proibição de manter as portas fechadas, mas a atitude de pouco adiantou diante da falta de consumidores.

Paraguai é mais frágil, mas se protege mais

O Paraguai tem menos casos de covid-19 que o Brasil. Sua estrutura de saúde é mais frágil e suas medidas restritivas foram mais rigorosas. O fechamento do contato entre os dois países atendeu sobretudo às preocupações das autoridades paraguaias, não brasileiras.

Até quinta-feira (15), data de reabertura da Ponte da Amizade, o país vizinho contabilizava 1.108 mortos pela covid-19 e pouco mais de 51 mil casos registrados da doença. O Brasil tinha, até a mesma data, mais de 150 mil mortos e 5 milhões de contaminados, de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O número de mortos no Brasil é mais de cem vezes maior que o do Paraguai. Mas essa discrepância não se reflete no esforço financeiro dos países. Enquanto o país vizinho investe anualmente pouco mais de US$ 381 per capita com saúde, o Brasil investe pouco mais de US$ 928, de acordo com dados de 2017 do Banco Mundial. Ou seja, o investimento brasileiro é mais de duas vezes superior ao do Paraguai.

Paraguai reclamou do Brasil

Em abril, o ministro do Interior do Paraguai, Euclides Acevedo, reclamou da forma como o governo brasileiro estava administrando a pandemia. “No Brasil, demoraram mais tempo para adotar medidas sanitárias. Em Pedro Juan Caballero [do lado paraguaio da fronteira] faz mais de três semanas que fecharam as escolas e universidades. Em Ponta Porã [na Mato Grosso do Sul], há uma semana as escolas estavam funcionando. As medidas sanitárias não estavam sincronizadas. Somente agora isso está acontecendo e provavelmente seja tarde em alguns casos”, disse o ministro paraguaio à época.

O fechamento das passagens fronteiriças foi uma forma de proteger a população paraguaia dos casos que não paravam de crescer no Brasil, enquanto o presidente Jair Bolsonaro minimizava o risco da doença, promovia eventos com aglomeração de simpatizantes e encorajava as pessoas a manterem um ritmo de vida normal.

Bolsonaro e o presidente paraguaio, Mario Abdo, são próximos. Ambos foram eleitos com base em programas de governo de direita – no caso de Bolsonaro, de extrema direita – e os dois têm em comum o passado militar.

Nada disso impediu, no entanto, que os paraguaios tomassem medidas restritivas em relação ao Brasil. Quando questionado sobre se o governo Bolsonaro demorou demais para reagir ao problema, ainda em abril, Acevedo respondeu: “Totalmente, totalmente.”

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