Salas distantes, retorno incerto: 3 professores falam sobre 2020

Neste 15 de outubro atípico, o ‘Nexo’ conversou com profissionais que dão aula nos ensinos fundamental, médio e superior sobre as dificuldades e os aprendizados de um ano marcado pela pandemia

A pandemia impôs uma série de novas dinâmicas e aprendizados à atuação dos professores, que vivem um 15 de outubro como nenhum outro. A necessidade de se adaptar às ferramentas de ensino remoto e digital, a falta de convívio e de troca com colegas e alunos, e a sobrecarga de tarefas são algumas das questões trazidas pela nova realidade.

Foram mudanças substanciais e repentinas em uma categoria profissional que soma mais de 2,5 milhões de pessoas no Brasil, de acordo com levantamento do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) de 2017.

A crise sanitária também produz uma gama de impactos nos alunos que só serão entendidos pelos educadores com o tempo. São efeitos que vão da qualidade da aprendizagem às lacunas criadas pela falta do espaço de socialização fornecido pela escola.

O sistema de aulas virtuais evidenciou as desigualdades presentes entre a população de estudantes. Frequentadores das redes particular e pública em diversas cidades têm realidades de aula muito distintas. Acesso reduzido à internet, falta de equipamentos adequados e contextos familiares problemáticos acabaram afetando o aproveitamento de muitos estudantes de escolas estaduais e municipais pelo país.

Faltam dados que ajudem a mapear a situação como um todo. Em agosto, o MEC (Ministério da Educação) admitiu que não sabia qual era o alcance do ensino remoto no país. Em resposta a um requerimento da comissão da Câmara dos Deputados que acompanha a pasta, o ministério declarou que “não dispõe de informações acerca do número de alunos da rede pública de ensino do país que estão tendo teleaulas e aulas online até o momento”.

Um estudo de 2019 mostrou que quase 40% dos alunos de escolas públicas não têm computador ou tablet em casa. Em São Paulo, dados de maio de 2020 indicavam que menos da metade dos estudantes da rede estadual haviam acessado o aplicativo lançado pelo governo para o ensino online.

Na outra ponta, uma pesquisa do portal Nova Escola, realizada na segunda quinzena de maio, revelou que menos de um terço dos professores (32%) considerou a experiência das aulas online na pandemia como positiva.

A incerteza da retomada

Por todo o país, redes municipais, estaduais e particulares retomaram ou planejam retomar ainda em 2020 as aulas presenciais, ainda que de modo gradual. Em 17 estados já há autorização para que as escolas recomecem as aulas presenciais, incluindo Amazonas, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

A volta das atividades nas escolas conta com forte oposição de pais e professores. Uma pesquisa do Datafolha de agosto apontou que, para 79% dos entrevistados, a volta às aulas irá agravar a pandemia. Em setembro, sindicatos de diversas regiões do país ameaçaram entrar em greve contra a reabertura.

Para este 15 de outubro, o Nexo ouviu três professores de diferentes níveis do ensino para saber sobre suas experiências durante a pandemia.

“Faltou comunicação com a comunidade e entendimento da realidade das famílias”

Luan Aiuá (Ensino Fundamental)

professor na rede pública municipal de São Paulo (SP)

“Falando da minha realidade, e mesmo defendendo o EAD (ensino a distância) nesse momento atípico, não foi uma experiência positiva em geral. Tanto para os alunos quanto para os professores. Primeiro, porque a implementação do EAD na rede pública foi muito mal estruturada, beneficiando apenas as empresas que trabalham nessa área, eu acredito. Obviamente, foi um plano de contingência, então não tinha como correr às mil maravilhas. Porém, teria sido possível preparar melhor o terreno, fazer cursos de aperfeiçoamento com os professores com as ferramentas e linguagens online antes de começarem as aulas. Analisar a situação socioeconômica dos alunos e alunas para perceber quais dificuldades teriam que ser enfrentadas ou sanadas.

A pandemia e o ensino a distância escancararam a profunda desigualdade existente no Brasil. Meus alunos, que são todos da periferia, na zona norte de São Paulo, não têm, em sua maioria, acesso estável à internet. Com exceção de meia dúzia de alunos, as atividades e contato com estudantes foram nulas para mim e para vários colegas, em diversas escolas. O material distribuído pela prefeitura, o Trilhas de Aprendizagem, não é suficiente para o aprendizado, sendo que muitas crianças e adolescentes ou não receberam ou receberam com atraso, depois do início das aulas. Na minha unidade, tentamos buscar outras formas de acolhimento, desenvolvendo aulas em vídeo sobre temas escolhidos pelos estudantes ou sugeridos pelos professores, mas houve pouca adesão dos alunos.

Acho que faltou comunicação com a comunidade e um entendimento da realidade das famílias, muitas das quais se viram em situação financeira delicada e não conseguiram lidar com a educação de seus filhos. O poder público tem falhado em diversos aspectos além da educação. Digo isso porque muitos de meus alunos moram em uma ocupação que já devia ter sido regularizada há muito tempo. Acho que também é importante destacar a situação psicológica dos professores, que tiveram que se virar com as aulas online com pouquíssimo apoio. Em especial as mães, que acabaram com uma tripla jornada de trabalho. Conheço mães que são professoras da rede pública que entraram em quadro depressivo por conta de tudo isso.

Sou contra a reabertura. Não há planejamento adequado para esse retorno. Seria mandar a população para o matadouro. Se houvesse uma preocupação pedagógica com estudantes da rede pública, no caso de São Paulo, o prefeito e o secretário de Educação teriam montado um plano de longo prazo com distribuição de materiais de prevenção ao vírus e a readequação física de escolas com estrutura problemática, como corredores estreitos e salas sem ventilação, antes de se programar qualquer tipo de reabertura. Teria também que haver uma testagem mais regular dos profissionais e estudantes, não como está sendo feita agora, às pressas. Acho que a resposta da rede de ensino público à retomada voluntária das aulas em outubro foi bem clara. Das 4 mil escolas, apenas uma decidiu retomar. E os conselhos das escolas ainda foram acusados de agir politicamente.

“O trabalho do professor não se resume à aula”

Marcela Batista (Ensino Médio)

professora de língua portuguesa em escola particular em Jacareí (SP)

“Passados seis meses, hoje estou bem mais confortável e mais adaptada às tecnologias e às plataformas. Porém, é claro que acumulamos tarefas. Agora você é RH online, você faz serviço de secretaria, você prepara, grava e posta sua aula. Estou fazendo o serviço de outros funcionários também. Por exemplo, a chamada não era uma obrigatoriedade do professor. Eu agora tenho de montar esse formulário de chamada todos os dias para as 11 salas onde dou aula.

Tenho 47 anos e, acho que se não fosse a pandemia, eu continuaria uma professora giz, lousa e saliva. Não nego inovações, mas a gente sempre esbarra em grandes problemas quando se fala em inovar. Não gosto quando fazem parecer que o professor que dá aula convencional está ultrapassado. Não é. Eu acho que o professor tem de ser visto como um intelectual. Mas a sociedade, a empresa tenta tornar nosso trabalho algo braçal. O trabalho do professor não se resume à aula, ele exige leitura, preparo, ele acontece muito fora do horário de aula e não é computado. Para mim, a pandemia veio me forçar a usar essa tecnologia e eu hoje não vejo mais como problema, mas também não vejo como a solução para a educação, como algo que melhora a educação.

No caso das [escolas] particulares, ela fez com que a educação continuasse, agora falar em melhor e pior eu acho arriscado. As escolas públicas estão agora com um atraso muito grande em relação às particulares. É importante também ressaltar o quanto os professores se mobilizaram. Eu não vi nenhuma ajuda de custo para professores no sentido de compra de equipamento, ou de melhoria na sua rede de internet ou um auxílio no gasto de energia. Os professores tiveram que se virar com o que têm, como sempre fizeram nas escolas. Acho que os professores se sentem sozinhos.

Tenho muitas dúvidas quanto à reabertura. Não vejo ela sendo levada de forma séria. Essa semana reabriram cinemas. As famílias estão viajando, indo para a praia, para a casa de campo, aglomerando entre familiares, e a escola foi deixada de lado. Para as escolas públicas, o governo não viabilizou nada eficaz. Aquelas aulas mostradas na televisão foram algo pro-forma, não foram pensadas com educadores, não tiveram uma gestão. A volta é um grande risco principalmente para professores e funcionários. Quem conhece criança e adolescentes sabe que é impossível manter o distanciamento, crianças com máscara, evitar o contato físico nas brincadeiras, nas áreas comuns.

“Há um ambiente colaborativo interessante”

Cláudio Manoel Duarte (Ensino Superior)

professor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano)

“Eu já tinha passado por essa experiência de aulas remotas, mas não de maneira emergencial, com programas mais reduzidos de aulas, carga horária dividida entre assíncronas e síncronas (respectivamente, aulas gravadas e em tempo real) e sim dentro dos padrões de ensino a distância, em graduação e pós-graduação (com temporalidades mais longas e um planejamento menos nervoso). Creio que um dos principais problemas sejam as dificuldades de acesso, principalmente por parte dos estudantes, que nem sempre têm as condições ideais de tecnologias (muitos deles sem nem mesmo um computador, sem internet e até sem smartphone com dados suficientes). Então estamos lidando com dificuldades de acesso mesmo. Há um plano de distribuição de dados do governo, mas ele se tornou lentíssimo pela falta de atitudes que acompanhassem as urgências, além das burocracias, que já são de natureza lerda. Todos fomos pegos de surpresa.

Outros problemas foram de ordem didática e pedagógica. Professores, principalmente, técnicos e estudantes que nunca haviam acessado as plataformas de ensino-aprendizagem remotas tiveram que correr e ainda estão correndo para aprender o básico. Desde entender as plataformas eleitas até produzir os conteúdos multimídia. O bom é que estamos aprendendo, a pulso, e isso fica como mais uma ferramenta para uso futuro, ampliando nosso repertório de cultura técnica. Outra coisa boa é a criação de parcerias entre professores. Eu participo de duas disciplinas que divido com mais três professores, onde podemos fazer trocas de mais conhecimentos, na chamada sala invertida, inclusive com uma participação mais interativa de estudantes nessas trocas de experiências. Há um ambiente colaborativo interessante, sim.

Não acho uma boa ideia retomar as aulas presenciais. Escolas são espaços de muita circulação e convívio diário intenso. E quem frequenta a escola retorna para suas casas, também diariamente. O quadro ainda é muito complicado e sem perspectivas de melhora. Efetivamente, não há vacina. Apesar da redução das hospitalizações e mortes, ainda persiste a pandemia. Mais que isso, ela retorna para lugares que tiveram um controle maior que o nosso – como tem ficado óbvio com a segunda onda agora na Europa e já em alguns estados brasileiros. Estamos meio amarrados, sem saída, e de imediato com a tarefa de estarmos alerta e aguardando um melhor sinal por parte dos cientistas e agentes da saúde.

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