Qual o lugar da questão racial no debate público em 2020

Historiadora Luciana Brito e sociólogos Mário Medeiros e Matheus Gato falaram sobre o tema em mesa do ‘Festival Nexo + Nexo Políticas Pùblicas’

    A historiadora Luciana Brito e os sociólogos Mário Medeiros e Matheus Gato discutiram o tema intelectualidade negra, racismo e debate público nesta quarta-feira (14) no “Festival Nexo + Nexo Políticas Públicas: o Brasil em debate”.

    Professor na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador no grupo de estudos Afro-Cebrap, Gato refletiu sobre o aumento da cobertura da questão racial na imprensa em 2020, desde o assassinato em maio de George Floyd, nos Estados Unidos.

    Ele considera que o episódio repercutiu com intensidade no Brasil por conta da atuação do movimento negro brasileiro na ampliação do debate sobre a questão racial e da cobertura de profissionais negros na imprensa. Para ele, agora “se consolidou um espaço para que esses profissionais possam atuar nessa direção sem que seja algo extemporâneo”.

    Brito, que é professora na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e colunista do Nexo, falou sobre o chamado confinamento dos intelectuais negros, que são convidados a escrever artigos ou participar de eventos apenas quando o assunto é a questão racial. “É como se fôssemos incapazes de analisar a sociedade como um todo”, disse. Nesse contexto, “a qualidade da informação fica comprometida”, afirmou.

    A historiadora também criticou a noção de identitarismo tal como ela aparece no debate público atualmente, que segundo ela revela “cinismo e desonestidade política”. Para ela, pauta racial não pode ser tratada como questão específica ou interesse particular de alguns intelectuais num país como o Brasil, onde negros são a maioria da população e o racismo é estrutural. “[A ideia de identitarismo] é uma resposta conservadora a demandas por representatividade”, ela afirmou.

    Para Medeiros, professor na Unicamp, “não existe história da cidadania brasileira sem a presença negra”, embora por muito tempo isso tenha sido ignorado no debate público. Ele afirmou, ainda, que não é possível falar em democracia de fato no país enquanto a sociedade brasileira for racista.

    A mesa também analisou figuras públicas como Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares nomeado pelo governo de Jair Bolsonaro. Medeiros, por exemplo, considera que o presidente sequestra a pauta antirracista ao colocar pessoas negras em posições de poder, com o objetivo de minar a agenda do movimento negro, como a luta por ações afirmativas nas universidades.

    O debate foi mediado por Flavia Lima, jornalista e ombudsman da Folha de S.Paulo. Além de conduzir a conversa, ela leu perguntas do público que assistiu ao evento. A exibição ao vivo ocorreu das 17h às 18h30, no canal do Nexo no YouTube. Assista à íntegra:

    O “Festival Nexo + Nexo Políticas Públicas: o Brasil em debate” é um evento realizado pelo Nexo e o Nexo Políticas Públicas para tratar de temas importantes da agenda pública do país por meio do debate qualificado e da boa disputa de ideias. Com atividades remotas, o evento é gratuito e dura todo o mês de outubro.

    Na quinta-feira (15), às 11h, o editor-chefe do Nexo, Conrado Corsalette, faz a entrevista “Religião e sociedade”, com o teólogo Ronilso Pacheco. Às 17h, o festival realiza a mesa “O papel dos economistas no debate sobre políticas públicas” com Claudio Ferraz e Laura Carvalho, economistas e colunistas do Nexo.

    É possível conhecer o restante da programação e se inscrever no festival por meio do site do evento.

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