O filme que expõe os bastidores do governo Trump na pandemia

Documentário ‘Totally under control’, codirigido por Alex Gibney, faz um retrato de despreparo e incompetência na condução do enfrentamento à covid-19 no país com maior número de mortos pela doença

Um documentário sobre a condução do combate à covid-19 pelo governo do presidente americano Donald Trump se propõe a mostrar os bastidores da crise sanitária no país mais afetado pela doença no mundo.

Lançado na terça-feira (13), “Totally under control” entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no enfrentamento à pandemia, incluindo políticos, especialistas de saúde e pessoas que trabalharam com o governo federal dos Estados Unidos.

O retrato do filme é desfavorável à administração Trump, como entrega a ironia do título (“totalmente sob controle”, em tradução livre). Diversos personagens fazem relatos sobre os bastidores da resposta do governo federal americano à pandemia, desenhando um quadro caracterizado por incompetência, inoperância e manobras políticas.

O filme não traz revelações inéditas, mas procura organizar as muitas informações que existem sobre o tema para que o público possa refletir. Lançado na reta final da disputa entre o atual presidente e o democrata Joe Biden, o documentário busca, segundo os realizadores, ajudar a informar eleitores indecisos na eleição presidencial americana. A votação está marcada para 3 de novembro.

Desde maio, os Estados Unidos são o líder mundial em mortos e infectados por covid-19. Até 12 de outubro, o país registrou mais de 215 mil mortes e quase 8 milhões de casos confirmados da doença, segundo dados oficiais.

Um dos diretores do filme, Alex Gibney, tem um robusto currículo de filmes investigativos, como “Enron: Os mais espertos da sala”, de 2005, sobre o escândalo da empresa de energia, “Roubamos segredos - A história do Wikileaks”, de 2013, e “Going Clear”, de 2018, sobre a cientologia.

Em “Totally under control”, Gibney se aliou às diretoras Suzanne Hillinger e Ophelia Harutyunyan. A produção foi realizada praticamente em segredo por cinco meses. Com o filme já pronto, saiu a notícia de que Trump havia contraído a covid-19, em 2 de outubro. A equipe decidiu incluir essa informação como última cena do documentário, apenas uma frase em fundo preto.

“Este é de fato um filme sobre competência, em primeiro lugar. Nenhum de nós queria que ele fosse visto como político, no sentido de democrata versus republicano. Além disso, pela minha experiência, senti que era um filme policial. Foi um crime de negligência e um crime de fraude. E esses crimes, processados no tribunal da opinião pública, têm uma grande contagem de mortos”

Alex Gibney

codiretor de ‘Totally under control’, ao Los Angeles Times

Segundo seus criadores, o filme foi realizado com o mínimo de contato físico possível. Reuniões da equipe, inclusive dos diretores, foram realizadas por videoconferências. Muitos entrevistados falaram para uma câmera que foi entregue pela produção em suas casas para que eles mesmo operassem. Entrevistas presenciais eram realizadas usando uma cortina de plástico como barreira.

Nos EUA, “Totally Under Control” pode ser visto em plataformas como Amazon Prime, iTunes e Google Play. O documentário ainda não está disponível para o público brasileiro.

Exemplos de desorganização

Um dos depoimentos do filme é de Max F. Kennedy, neto de 26 anos de Robert F. Kennedy, ex-procurador-geral dos EUA e irmão do ex-presidente John F. Kennedy. Ele fez parte de uma força-tarefa para a obtenção de lotes de máscaras organizada por Jared Kushner, conselheiro da Casa Branca e genro de Trump. No filme, Kennedy conta como se voluntariou para a empreitada, que imaginava ser orientada e organizada por funcionários graduados do governo. Em vez disso, encontrou um time composto inteiramente de estagiários usando seus e-mails pessoais para pedir ajudar a milionários apoiadores de Trump.

Há diversos profissionais falando sobre como seus avisos foram ignorados. Eva Lee, matemática que se especializou em modelos estatísticos para a área de saúde, relata que estimativas apontavam a necessidade de testar 2.000 pessoas nos EUA logo que o primeiro caso foi registrado no país, numa tentativa de entender o percurso inicial do vírus. Os testes nunca aconteceram.

Já Rick Bright, ex-diretor da Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (que atua contra epidemias), recorda o contexto em que diretrizes superiores ordenaram a ampla disseminação da hidroxicloroquina. O especialista cita uma sequência de e-mails entre autoridades de saúde e do governo, mostrada no filme, em que alguém questiona a medida, pois a hidroxicloroquina só tinha seu uso emergencial autorizado para hospitais. “Não, ela precisa ir para as farmácias (...) para todo lugar. A autorização não importa. Espalhe o medicamento agora”, foi a resposta. Bright pediu demissão do cargo.

Por outro lado, muitos políticos do Executivo e Legislativo não quiseram falar com o diretor, alguns por temer retaliação. Em entrevista ao Los Angeles Times, a codiretora Ophelia Harutyunyan contou que um governador republicano desistiu no último minuto por achar que o governo federal iria deixar de enviar equipamentos de proteção e kits de testes para seu estado se ele aparecesse no filme.

De acordo com a codiretora Suzanne Hillinger, fontes próximas ao CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA) afirmaram a ela que pessoas de agências ou departamentos do governo não iam retornar suas ligações “porque acreditam que seus telefones estão sendo grampeados. Eles não vão responder aos seus e-mails porque acreditam que seus e-mails estão sendo observados”.

A pandemia e a corrida eleitoral

Ao longo da pandemia, Trump foi bastante criticado por especialistas de saúde e opositores políticos por atitudes e declarações relacionadas à covid-19. Entre os pontos atacados estão sua postura de minimizar o vírus, sua propagação de informações falsas e sua defesa da hidroxicloroquina como tratamento, remédio que não tem comprovação científica.

No livro “Raiva”, do jornalista Bob Woodward, publicado em 15 de setembro de 2020, há uma declaração dada por Trump em fevereiro em que ele diz que sabia do nível de mortalidade do coronavírus. Mais adiante, em uma fala de março, o presidente afirma que escondeu a informação para evitar o pânico entre a população. Em público, Trump minimizou a gravidade da doença e chegou a chamar o infectologista Anthony Fauci, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, de alarmista.

Com a revelação das declarações de Trump, seu opositor na corrida presidencial, o democrata Joe Biden, acusou o presidente de mentir sabida e intencionalmente para o povo americano. Biden tem liderado as pesquisas de intenção de voto nos Estados Unidos, com vantagem de 10 pontos em média, em 13 de outubro.

Pesquisas mostram que a maioria dos americanos não vê com olhos favoráveis a resposta do governo Trump à crise sanitária. Em 13 de outubro, 56,7% desaprovam a condução de Trump contra 40,5% de pessoas que aprovam, de acordo com o site FiveThirtyEight.

Um levantamento da Reuters/Ipsos publicado no início de outubro constatou que 65% dos americanos concordam com a afirmação de que “se o presidente Trump tivesse levado o coronavírus mais a sério, ele provavelmente não teria sido infectado”.

Trump permaneceu internado por quatro dias por causa da covid-19. O presidente não recebeu hidroxicloroquina durante o tratamento, apesar de anteriormente ter defendido e tomado o remédio de forma preventiva. Ao ter alta, em 5 de outubro, o presidente americano retomou o tom negacionista. Além de aparições públicas sem máscara, disse que as pessoas não deveriam ter medo do coronavírus. O líder afirmou que se sentia “melhor do que a 20 anos atrás”.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.