Como a Europa lida com o repique da pandemia de covid-19

Diante de segunda onda, chefes de Estado e de governo optam por regionalizar quarentenas, mas encontram resistência de políticos locais

A Europa vive no mês de outubro o maior repique dos casos de covid-19 desde o início da pandemia, no mês de março. Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Espanha estão entre os países que voltaram a aplicar medidas restritivas para tentar conter a segunda onda da doença.

Desta vez, no entanto, não foram impostos confinamentos nacionais, chamados em inglês de “lockdown”. A estratégia agora é regionalizar as medidas, de acordo com os índices locais de transmissão do vírus, evitando a pressão sobre a economia nacional como um todo e contendo o desgaste social provocado por políticas de exceção em larga escala.

Na França, a estratégia foi descrita pelo presidente Emmanuel Macron como “convivência com o vírus”, uma vez que não existe nenhuma previsão confiável sobre o prazo para a descoberta de uma vacina. Na Itália, a expressão “convivência com o vírus” foi usada pelo ministro da Saúde, Roberto Speranza. O mesmo ocorre no Reino Unido e na Alemanha.

“É claro que há os que dizem que nós deveríamos voltar a um confinamento nacional completo, fechando escolas e o comércio, mandando as pessoas, mais uma vez, ficarem em casa, como fizemos em março, alternando nossas vidas e nossa sociedade. Eu não acredito que esse seja o rumo correto”, disse na segunda-feira (12) o premiê britânico, Boris Johnson, em discurso no Parlamento.

O discurso de Johnson resume a abordagem europeia para a segunda onda – monitorar, testar, detectar e isolar as fontes de contaminação, usando para isso uma estratégia regionalizada.

Se em março as medidas radicais buscaram e lograram um “esmagamento da curva” de transmissão do vírus a qualquer custo, agora, ao contrário, a aposta é na adoção de medidas mais calibradas.

A Europa registrou um total de 4,3 milhões de casos da covid-19 até 14 de outubro. Os cinco países mais afetados, em números absolutos, eram, nesta ordem: Espanha, França, Reino Unido, Itália e Alemanha. Em relação ao número total de mortos – mais de 197 mil até a mesma data – a ordem, decrescente, era: Reino Unido, Itália, Espanha, França e Bélgica.

Recordes de contaminação e morte

“Devo dizer que a situação continua a ser séria”, advertiu a chanceler alemã, Angela Merkel, depois que as 5.132 infeções e 43 mortes registradas no país na terça-feira (13) quebraram o recorde diário que havia sido registrado em abril, no início da crise.

No dia seguinte, quarta-feira (14), foi a vez da Croácia bater seu próprio recorde, com o registro de 748 novos casos da doença em 24 horas. O recorde anterior, de apenas uma semana antes, era de 542 novos casos no intervalo de um dia. Bares de Berlim estão fechando às 23h e as reuniões com mais de cinco pessoas estão proibidas na cidade.

Situação semelhante foi registrada no Reino Unido. “Os números de casos foram quadruplicados nas últimas três semanas. Há mais pessoas internadas em hospitais pela covid-19 agora do que quando entramos em confinamento no dia 23 de março”, disse Johnson em seu discurso ao Parlamento, na segunda-feira (12).

Na França, Macron dará uma entrevista de 45 minutos sobre o novo momento da crise sanitária francesa às emissoras TF1 e France 2, na noite desta quarta-feira (14), à medida que o país volta a impor medidas sanitárias de contenção da crise. Citando fontes anônimas do governo francês, o jornal Le Monde disse que a prioridade é “evitar um confinamento geral” a qualquer custo. Mais de 3.500 novos casos vêm sendo detectados por dia desde o início de outubro. O número é mais de três vezes superior ao registrado em setembro.

Na Itália, as autoridades dizem que os números de novos casos diários poderiam chegar a 16 mil até o fim de novembro, mas o ritmo de crescimento atual pode acabar antecipando essa previsão. Se a velocidade do crescimento atual se mantiver, os hospitais podem colapsar em dois meses, de acordo com previsão feita ao jornal britânico The Guardian pelo presidente do conselho de medicina local, Carlo Palermo.

Na Espanha, o número de infectados na primeira semana de outubro (12.211) foi o dobro do registrado na primeira semana de setembro. A região da Catalunha prevê a partir de sexta-feira (16) o fechamento de bares, hotéis e restaurantes, mas as autoridades descartam um novo confinamento nacional.

Além do crescimento no número de contaminados, cresce também o número de mortos. A França, por exemplo, registrou 5,7 mortos pela covid-19 na média móvel de sete dias em 24 de julho. Na segunda-feira (12), esse número foi para 81,1. A Alemanha, que na média móvel de sete dias registrou 2,9 mortos em 9 de setembro, viu esse número subir para 16,4 na segunda-feira (16). Movimento semelhante ocorreu em toda a região.

“Embora o aumento da testagem contribua para um aumento geral na detecção de novos casos, esta não é a única razão para o crescimento dos casos da covid-19 [na Europa]”, alertou o Centro Europeu para o Controle e a Prevenção de Doenças. De acordo com o órgão, que é subordinado à União Europeia, os casos “crescem também por causas ligadas ao relaxamento das medidas de distanciamento social e outras atitudes de prevenção”.

Divisões internas inesperadas

A decisão de regionalizar as medidas já provoca atritos com políticos locais. Muitos prefeitos e governadores reclamam de carregar um peso desproporcional na crise.

No Reino Unido, onde Johnson anunciou a implementação de uma escala de três níveis de gravidade, cidades classificadas como de risco “muito alto” protestaram. “É inaceitável”, resumiu Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester.

Junto com Burnham, um grupo de prefeitos de cidades do norte do Reino Unido advertiu o premiê britânico de que toda a zona vai mergulhar num período difícil durante o inverno se as medidas restritivas forem levadas a cabo.

O primeiro-ministro respondeu prometendo o anúncio de compensações financeiras a essas cidades nas quais bares e restaurantes forem fechados. Mas o jornal britânico The Independent diz que os dois lados estão longe de um acordo.

Situação semelhante ocorre na Alemanha. Merkel se reuniu na quarta-feira (14) com governadores das 16 regiões do país. O governo central quer impor restrições de deslocamento entre as diferentes zonas alemãs, em função do nível de contaminação, mas representantes da Renânia do Norte-Vestfália se opuseram.

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