Por que a Johnson & Johnson parou o teste de sua vacina

Laboratório suspende ensaios clínicos em fase adiantada após detectar problemas de saúde em um dos 60 mil pacientes recrutados

O laboratório farmacêutico Johnson & Johnson anunciou na segunda-feira (12) a paralisação de todos os testes clínicos com o experimento de sua vacina contra a covid-19.

A decisão foi tomada pelo próprio laboratório após a detecção de uma “doença inexplicável com um dos participantes do estudo”. A empresa não explicou se o paciente estava recebendo a droga ou placebo. Também não foi informada a identidade do paciente e o problema de saúde detectado nele. O caso será revisto por um comitê independente e não há prazo para a retomada dos testes clínicos.

A paralisação dos estudos da Johnson & Johnson ocorreu pouco mais de um mês depois de outro grande laboratório, o AstraZeneca, ter suspendido seus testes pelo mesmo motivo – a detecção de problemas de saúde em uma das pessoas que participavam do experimento.

A mesma AstraZeneca, que trabalha em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, já havia tomado decisão semelhante anteriormente, em abril. No caso mais recente, de setembro, os experimentos foram retomados em várias partes do mundo após o prazo de uma semana. Nos EUA, no entanto, eles permaneciam paralisados até o momento da publicação deste texto, em 13 de outubro.

Problemas como esses são esperados na fase 3 dos testes, em que tanto a vacina da Johnson & Johnson quanto a da AstraZeneca se encontram. A fase 3 é caracterizada por estudos clínicos de larga escala, nos quais um número grande de pacientes, em vários países do mundo, recebem tratamento com a droga, em caráter experimental.

A detecção de reações adversas é esperada nessa fase em que é testada a eficácia do imunizante e são estabelecidos os padrões de segurança antes da comercialização em escala global de uma vacina.

Quais as particularidades desta vacina

A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que “existem atualmente mais de cem candidatas a vacina contra a covid-19 em desenvolvimento no mundo, muitas delas em fase de testes em humanos”.

A vacina desenvolvida pela Johnson & Johnson está entre as onze que se encontram na fase 3 de testes, até terça-feira (13). Entre essas, é a única que funcionaria com dose única. Ela é também uma das seis admitidas para testagem nos EUA, cujo governo prometeu pagar US$ 1 bilhão por 100 milhões de doses se a substância for aprovada em todas as fases de teste.

60 mil

é o número de pacientes que participam da fase 3 do experimento com a vacina da Johnson e Johnson

A fase 3 do experimento da Johnson & Johnson teve início em setembro e inclui a administração da droga em 60 mil pacientes espalhados por EUA, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e África do Sul.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diz que 7.000 pessoas estão participando do experimento da Johnson & Johnson no Brasil. A droga, que tem o nome técnico de Ad26.COV2.S, foi a quarta a receber autorização para testes clínicos no Brasil.

Promessas políticas

Embora os cientistas não façam promessas sobre as vacinas, políticos em várias partes do mundo fazem. Mesmo sem ter certeza, eles chegam a prometer datas em que as vacinas estariam disponíveis.

O presidente dos EUA, Donald Trump, por exemplo – que disputa a reeleição em 3 de novembro – disse em setembro que todos os cidadãos de seu país terão acesso a uma vacina contra a covid-19 antes de abril de 2021. Antes, havia dito que isso poderia ocorrer ainda antes da eleição.

No Brasil, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que os 46 milhões de habitantes do estado serão vacinados contra a covid-19 até fevereiro de 2021. O Instituto Butantan participa do desenvolvimento de uma vacina juntamente com o laboratório chinês Sinovac. Os testes estão na fase 3, mas não há uma data anunciada para a aprovação, que está sujeita a percalços como os vividos pela Johnson & Johnson e a AstraZeneca.

O Ministério da Saúde, por sua vez, fez uma parceria com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford e encomendou 100 milhões de doses da vacina desenvolvida por elas. O titular da pasta, Eduardo Pazuello, disse que o imunizante deve estar disponível em janeiro de 2021.

Na Rússia, o presidente Vladimir Putin anunciou em agosto a disponibilização em larga escala da vacina Sputnik-V quando a droga ainda não havia concluído a fase 3 dos testes.

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