Por que o real sofreu tanta desvalorização em 2020

Taxa de câmbio subiu 40% nos primeiros nove meses do ano no Brasil – mais do que em outros países emergentes. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender esse movimento

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O dólar atingiu seus maiores patamares nominais da história no Brasil em 2020. O pico veio em meados de maio, quando a cotação da moeda americana chegou próxima a R$ 5,90.

O DÓLAR EM 2020

Cotação do dólar no Brasil em 2020. Começou o ano em R$ 4, teve o pico em quase R$ 6 em maio. Depois caiu e voltou a subir em agosto.

Mesmo que nos meses seguintes a taxa de câmbio tenha permanecido em níveis mais baixos, o preço do dólar em reais ainda assim acumulou uma alta de mais de 40% entre o começo do ano e o começo de outubro.

A comparação internacional

É esperado que em momentos de incerteza e crise os investidores tirem seu dinheiro de países considerados mais arriscados – geralmente, países em desenvolvimento – e invistam em ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano ou ouro.

É uma forma de buscar minimizar perdas. Portanto, não surpreende o real ter se desvalorizado em meio à pandemia. Mas mesmo na comparação com outros países emergentes e com moedas semelhantes, o real se desvalorizou mais em relação ao dólar.

O gráfico abaixo mostra como a cotação do dólar variou nos primeiros nove meses de 2020 em diferentes lugares do mundo. Países emergentes como Turquia, Argentina, Rússia, África do Sul e México também viram suas moedas desvalorizarem frente ao dólar, mas muito menos do que o real.

No Brasil, o dólar no final de setembro estava 40% mais caro em relação ao real do que na virada do ano. O país que chega mais próximo disso é a Turquia, onde o dólar ficou 30% mais caro na comparação com a lira turca.

REAL NO TOPO DA DESVALORIZAÇÃO

Variação da cotação do dólar entre janeiro e setembro de 2020. Comparação entre diferentes países: Brasil teve maior variação, seguido de Turquia, Argentina, Rússia, África do Sul e México

Como era de se esperar, economias mais desenvolvidas – como Japão, Coreia do Sul e a zona do euro – tiveram pouca variação ou até ganharam valor frente ao dólar.

Duas análises sobre a desvalorização do real

O Nexo conversou com economistas sobre o que está por trás dos movimentos da moeda brasileira:

  • Juliana Inhasz, professora de economia do Insper
  • Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

O que fez o real ter uma desvalorização tão grande em 2020 mesmo considerando a comparação internacional? Que aspectos da economia brasileira explicam essa diferença?

Juliana Inhasz A questão central é o fato de que temos uma economia que hoje não consegue resolver o problema fiscal. Tem uma percepção muito clara do resto do mundo de que o Brasil tem um problema fiscal sério, que não consegue controlar. Também temos questões políticas que têm atrapalhado bastante a aprovação de reformas, a falta de consenso entre quem legisla a favor das reformas. A situação fiscal muito difícil faz com que o sinal para o resto do mundo seja muito negativo. E isso faz com que as expectativas piorem bastante e os investimentos não cheguem. Expulsamos um tanto do capital que poderia vir para o Brasil.

Junto desse cenário, também acontece uma falta de perspectiva frente ao crescimento econômico brasileiro. Se não conseguimos colocar o lado fiscal em ordem, as pessoas não confiam que o Brasil vai crescer, o investimento não vem e isso faz com que, de fato, não cresçamos – o que piora ainda mais as perspectivas de um crescimento econômico.

E mais: a escolha que fizemos para tentar crescer foi baseada em estímulos monetários – dado também que o lado fiscal está difícil. Essa política monetária é baseada em aumento da liquidez, aumentando a quantidade de moeda em circulação e reduzindo juros. Tem uma questão, óbvio, de incerteza global, mas, sem dúvidas, há a percepção de que os juros aqui são muito baixos, considerando o cenário doméstico. Juros é uma medida de risco e, hoje, o Brasil é um país que tem risco elevado. Ele paga muito pouco [prêmio de risco], dado o risco elevado e o crescimento baixo. Isso acaba afugentando o capital – ninguém vai querer colocar o dinheiro aqui se a perspectiva de crescimento é ruim e o risco é alto dado que a dívida pública hoje é muito alta.

E o último ponto são as questões ambientais e a percepção de que o Brasil se preocupa muito pouco com a sustentabilidade ambiental da economia. Isso também faz com que muitas empresas não queiram vir para o Brasil, porque enxergam que as políticas aqui não são ecologicamente sustentáveis. É difícil dizer qual é o ponto que influencia mais (ou menos), mas esses quatro pontos ajudam a explicar por que o dólar não só não entra no Brasil, como parte do que está aqui dentro sai, o que pressiona a taxa de câmbio.

Pedro Rossi Os determinantes principais são externos. Há uma superestimação dos fatores domésticos. Muitos economistas dizem que a situação política e, particularmente, a questão fiscal, são determinantes desse movimento. A questão fiscal gera ruído de curto prazo, principalmente. Mas o movimento geral [de desvalorização] ocorre também em outras moedas com características semelhantes ao real.

Tem a questão do real ter se desvalorizado mais que as outras moedas. Mas o real sempre se desvaloriza mais que as outras moedas e sempre se valoriza mais nos momentos de boom. O real foi de R$ 4 por dólar para R$ 5,90 em maio, o que representou uma desvalorização de quase 50%. Depois do pico de maio, até o piso de junho, houve uma valorização de cerca de 20%. Ou seja, o real se valorizou mais que as outras moedas também entre maio e junho. E ninguém atribui essa valorização a uma melhora no quadro fiscal; só atribuem o lado da desvalorização. O real é uma montanha russa. Sobe e desce mais do que as outras [moedas]. É um fenômeno que não acontece só agora. Não é porque o real desvalorizou mais que outras moedas que é o fiscal que explica.

O real é uma moeda mais volátil que as outras. Sempre valoriza e desvaloriza mais do que as outras. Aí entra uma discussão muito complexa. Tenho uma tese do por quê isso acontece. No fundo, o Brasil tem um mercado de câmbio extremamente aberto para operações especulativas – principalmente o mercado de derivativos [ativos financeiros cujos preços são baseados em outros ativos ou em relação a um período futuro], que é muito líquido.

E o Brasil sempre teve, historicamente, uma taxa de juros acima das outras – o que continua, quando olhamos para as taxas longas. O Brasil também teve uma redução de juros [Selic] maior que outros países, o que pode também explicar por que a moeda brasileira tende a estar num patamar mais desvalorizado que outras.

Há perspectivas de que o real se valorize? Que trajetória devemos esperar para o câmbio no final de 2020 e em 2021?

Juliana Inhasz Muito provavelmente vamos ter dificuldade para que essa valorização aconteça, pelo menos até o fim de 2020. Primeiro porque as questões fiscais não estão na iminência de serem resolvidas – há impasses que impedem que reformas substanciais sejam aprovadas. Então a dificuldade fiscal vai persistir por esse resto de ano.

Além disso, a economia brasileira certamente decresce neste ano, com uma perspectiva de crescer muito pouco no ano que vem. Então as perspectivas de crescimento ainda são muito ruins. Isso cria no mercado uma desconfiança muito grande de que o Brasil andou dando passos para trás e que vai demorar para a gente ser o que éramos. As expectativas frente ao crescimento econômico brasileiro e a solidez da economia brasileira não andam boas. Difícil acreditar que vamos ter condição de ter uma valorização em 2020.

Para 2021 existe sim a possibilidade disso melhorar, porque aparentemente algumas reformas podem começar a sair. O governo tem se articulado para conseguir base de apoio para passar a reforma tributária; para pensar mais a fundo a reforma administrativa. Mas é óbvio que também dependemos do que acontece no resto do mundo. Não adianta o Brasil voltar a crescer um pouco mais e conseguir aprovar políticas se, proporcionalmente, ele continuar muito atrás dos outros. Se todo mundo deslanchar e o Brasil crescer muito menos que os outros países, pode continuar sendo visto com bastante desconfiança. Precisamos recuperar uma credibilidade que perdemos. Isso só vai acontecer se conseguirmos passar reformas sólidas e que tragam essa perspectiva de crescimento de longo prazo.

Pedro Rossi Um economista dificilmente vai dizer perspectivas para o câmbio, porque a chance de errar é muito grande. A trajetória da moeda brasileira depende desse cenário externo e da incerteza que envolve esse cenário. Acredito que, no médio prazo, esse cenário vai pedir algum aumento de taxa de juros nos países emergentes e no Brasil em particular – por conta dessa incerteza global e por conta dos países emergentes terem reduzido muito suas taxas de juros. Da mesma forma digo que o câmbio não está associado ao fiscal, a taxa de juros também não; não é o teto de gastos que fez baixar a taxa de juros.

E não é o aumento da dívida que vai fazer aumentar a taxa de juros, apesar de, no debate público, as pessoas atribuírem um eventual futuro aumento da taxa de juros ao risco fiscal. Mas é um fenômeno que acontece também lá fora. A dívida aumentou muito de 2015 para cá e a taxa de juros só caiu. Essa relação também muitas vezes é enganosa e serve a determinado tipo de orientação no debate público.

O cenário externo é muito complexo. Uma eventual recuperação mais forte dos países centrais provavelmente vai forçar aumento na taxa de juros nos países emergentes, inclusive no Brasil. E também, a depender da continuidade dos estímulos monetários, isso pode gerar efeitos diferentes sobre a taxa de câmbio, inclusive de valorização. Mas o que posso prever é muita volatilidade da moeda brasileira, que continua muito exposta aos ciclos internacionais.

Ter uma taxa de câmbio alta é algo positivo ou negativo para o país? Por que?

Juliana Inhasz Depende para quem. A taxa de câmbio é uma taxa de troca. Já estivemos em momentos em que a taxa de câmbio alta não era tão ruim para o Brasil porque produzíamos muito daquilo que consumíamos. Hoje, essa taxa alta é vista com desconforto porque dependemos muito do que vem de fora para satisfazer as necessidades da população.

Nossa indústria sofreu muito, diminuiu muito nos últimos anos. Nossa dependência de bens importados é muito alta. E a indústria que ainda existe depende de insumos importados. Nossas cadeias produtivas são interligadas com o mercado externo e quando a taxa de câmbio sobe, essas mercadorias que vêm de fora chegam aqui muito caras, o que piora o poder de compra da população. O grande problema hoje da taxa de câmbio muito alta é que ela não só prejudica quem quer viajar, mas principalmente esse consumidor que está na base da nossa sociedade, que tem uma renda pequena e consome boa parte dela. Quando a taxa de câmbio sobe, o preço do produto que ele consome aqui também sobe. A taxa de câmbio mais alta age infelizmente no sentido de passar um custo social muito elevado a essa população de renda mais baixa.

Agora, tem um benefício para um lado da economia. O Brasil é um país agroexportador. Quando a taxa de câmbio sobe, a soja brasileira é vendida lá fora a um preço maior em reais. Nos beneficiamos, por um lado, pelo aumento do preço daquilo que vendemos para fora. Mas por outro lado, pagamos o preço de produtos importados mais caros.

Pedro Rossi Temos que separar o que é patamar e o que é movimento. A desvalorização cambial, no curto prazo, tem efeitos ambíguos. Porque no curto prazo há rigidez, há contratos – a desvalorização cambial pode significar custo para as empresas. E pode haver inflação para a população. Isso se resolve no médio-longo prazo.

Mas o mais importante do patamar da taxa de câmbio é que ele tenha uma previsibilidade e que ele permita o desenvolvimento de determinados setores produtivos importantes. E que ele não seja atrelado a um ciclo internacional que está sistematicamente percorrendo uma montanha russa. Essa montanha russa prejudica o investimento produtivo no Brasil, porque com a flutuação muito grande da taxa de câmbio, o investidor não consegue ter parâmetros para calcular expectativas de lucro, o custo dos insumos, o preço do produto.

Por exemplo, a pandemia mostrou que temos que ter algum grau de desenvolvimento de setores industriais que fornecem ao SUS, que são fundamentais para diminuir nossa vulnerabilidade diante de situações como a atual. Mas esses setores são extremamente vulneráveis a essa flutuação cambial. Essa cadeia industrial do complexo da saúde pode dar ao Brasil muita autonomia e geração de emprego e renda com efeitos multiplicadores. Temos que pensar a taxa de câmbio nesse contexto: ela é um instrumento de desenvolvimento, não é só um preço de mercado. E o caso brasileiro é complicado porque ela virou um preço extremamente instável e grudado com o ciclo de liquidez internacional. Isso gera uma forma nova de vulnerabilidade que é o impacto do ciclo internacional nos preços domésticos.

É muito difícil especular sobre o patamar da taxa de câmbio, em particular em um cenário como este, em que temos uma volatilidade muito grande e isso prejudica o funcionamento da economia brasileira.

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