O impacto físico e psicológico do home office na pandemia

Estudo da FGV revela baixos índices de bem-estar e saúde mental entre trabalhadores. Ministério Público do Trabalho propõe recomendações para formato

Trabalhar de casa se tornou uma realidade para cerca de 10,8% dos trabalhadores brasileiros, o que equivale a cerca de 8,3 milhões de pessoas, segundo a Pnad Covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desde o início da pandemia, no entanto, a maioria não teve nenhuma assistência de seus contratantes em relação às condições de saúde e segurança durante o home office – é o caso de 84% dos participantes de uma pesquisa realizada pela FGV (Fundação Getulio Vargas), em parceria com o IES (Institute of Employment Studies), do Reino Unido, publicada nesta sexta-feira (9).

“O ambiente doméstico não dispõe do mobiliário adequado para o trabalho, como a maioria das empresas, além de apresentar vários fatores que podem interferir com as atividades laborais que podem, potencialmente, propiciar o aparecimento, ou o agravamento, de condições como as dores musculoesqueléticas, o estresse, a ansiedade e a fadiga”

pesquisa da FGVSaúde

Coordenada por Alberto José Ogata, da FGVSaúde (Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde), a pesquisa avalia os impactos do home office para a saúde dos trabalhadores durante a pandemia de covid-19. O primeiro relatório do estudo foi publicado em agosto. O segundo e atual, em outubro.

A proposta é oferecer dados que possam auxiliar a elaboração de estratégias para manejar melhor esses impactos, por parte dos indivíduos e das corporações. O relatório considera que “o home office deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade que deve se tornar permanente”.

O que diz o estudo

A pesquisa foi feita a partir de questionário online com perguntas traduzidas e adaptadas da consultoria britânica IES, especializada em recursos humanos, e indicadores de bem-estar da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Entre os 553 participantes da pesquisa no primeiro período, de 1º de junho a 18 de julho, 68% eram mulheres; 87% passaram a trabalhar em casa devido à pandemia e 84% disseram que o empregador não realizou qualquer avaliação de saúde e segurança em sua estação de trabalho em ambiente doméstico. A maioria compartilha o espaço de trabalho com outro adulto (48%) e vive com filhos menores de 18 anos (46%).

O perfil é muito similar à segunda amostra. Entre os 653 participantes da pesquisa no segundo período, de 1º de junho a 30 de agosto, 67% eram mulheres; 88% passaram a trabalhar em casa devido à pandemia e 84% disseram que o empregador não realizou qualquer avaliação de saúde e segurança em sua estação de trabalho em ambiente doméstico. A maioria compartilha o espaço de trabalho com outro adulto (46%) e vive com filhos menores de 18 anos (47%). Além disso, 23% cuidam de outro adulto ou idoso.

Os participantes da pesquisa relataram sintomas físicos, emocionais e psicológicos que se intensificaram no home office na pandemia.

Sintomas intensificados no home office

  • dor nas costas (56% do total de participantes), no pescoço (55%) e nos ombros (50%);
  • dificuldade para dormir (55%) fadiga ocular (45%), fadiga (43%) e enxaquecas (42%);
  • preocupação com questões financeiras da família (36%);
  • sensação de ansiedade com a saúde de um membro da família (30%);
  • sensação de isolamento e solidão (11%).

Os pesquisadores aplicaram um questionário da OMS que avalia estado de humor, interesse e vitalidade, considerando a pontuação 13 (em uma escala de 0 a 25 pontos) como indicador de baixo nível de bem-estar, que requer recomendação de acompanhamento psicológico.

Na amostra estudada, 46% dos respondentes tiverem pontuação igual ou inferior a 13, isto é, índice abaixo do esperado, o que pode indicar um nível de depressão. Os autores associam o índice baixo aos sintomas físicos, como dor e fadiga. Não adianta só tratar com remédio as dores físicas causadas pelo home office, se as pessoas estão com depressão ou se sentindo mal do ponto de vista psicológico”, comentou Ogata, um dos autores do estudo, à Agência Bori.

“O trabalho em casa é uma alternativa para manter a atividade laboral, mesmo como o isolamento social, minimizando a alternativa do desemprego. No entanto, ele exige que os profissionais de saúde e segurança no trabalho elaborem estratégias para proteger o bem-estar e a saúde dos trabalhadores, evitando o agravamento de condições pré-existentes e o surgimento de outras”, diz o relatório, citando como referência as recomendações da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Em junho, a OIT publicou um documento destacando a importância do equilíbrio entre a vida pessoal, profissional e a saúde, a fim de flexibilizar a rotina para que o trabalhador não fique 24 horas por dia ligado ao emprego no regime home office.

Estratégias para melhorar condições do home office

Em setembro, o Ministério Público do Trabalho publicou uma nota técnica com 17 recomendações a empresas, sindicatos e órgãos públicos para proteger os direitos de quem está no home office durante a pandemia, considerando a manutenção do regime mesmo após a retomada de atividades presenciais.

Questões apontadas pelo estudo da FGV estão contempladas nessas recomendações, como infraestrutura para o trabalho remoto e o ajuste de escala para as necessidades familiares.

“É preciso haver uma separação do que é trabalho ou descanso. Não podemos perder de vista a preservação de saúde mental dos trabalhadores”, disse o procurador-geral do Ministério Público do Trabalho, Alberto Balazeiro, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Algumas das recomendações do Ministério Público do Trabalho

Ética e etiqueta digital

Respeitar a intimidade, a privacidade e a segurança pessoal e familiar, bem como em relação à obtenção, armazenamento e compartilhamento de dados fornecidos pelos empregados. Adotar regras para toda a equipe, com especificação de horários para atendimento virtual da demanda, assegurando os repousos e o direito à desconexão, a fim de impedir intimidação sistemática (bullying).

Contrato e jornada de trabalho

Regular a prestação de serviços em regime de teletrabalho, estipulando a duração do contrato e a infraestrutura para o trabalho remoto, bem como o reembolso de despesas. Adotar mecanismos de controle da jornada de trabalho para o uso de plataformas digitais privadas ou abertas na realização de atividade e capacitação.

Ergonomia e informação

Observar parâmetros e condições físicas para o trabalho (incluindo mobiliário e equipamentos) e organização (tarefas, tempo demandado, ritmo da atividade). Instruir trabalhadores quanto às precauções a tomar a fim de evitar doenças, físicas e mentais e acidentes de trabalho, bem como adotar medidas de segurança como intervalos e exercícios laborais.

Escala flexível e intervalos

Adequar a jornada às necessidades de trabalhadores com suas responsabilidades familiares (dependentes sob seus cuidados), de modo que a elaboração das escalas acomode as necessidades da vida familiar. Garantir pausas para repouso e alimentação, para impedir sobrecarga psíquica e muscular.

O home office na lei brasileira

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro Ives Gandra Martins Filho, do Tribunal Superior do Trabalho, avaliou que as recomendações do Ministério Público do Trabalho devem ser interpretadas em caráter de orientação, e não de norma”.

“A legislação é suficiente e qualquer coisa ia mais dificultar que ajudar empresas e trabalhadores”, afirmou Gandra, presidente do Gaet (Grupo de Altos Estudos do Trabalho), do Ministério da Economia, que analisou as regras sobre home office no início da pandemia.

A legislação, no caso, é a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), que desde a reforma trabalhista de 2017 prevê a categoria do teletrabalho. O dispositivo, no entanto, tem limitações – não inclui, por exemplo, especificações sobre temas como o controle de jornada, o que gera insegurança jurídica.

Em março, foi editada a MP 927/2020, que tratava da adoção do home office pelas empresas – entre as regras estava a exigência de equipamento e infraestrutura garantidos pelo empregador. Entretanto, a medida não foi aprovada pelo Congresso e perdeu a validade, em julho.

Atualmente há diferentes projetos de lei relacionados ao assunto à espera de discussão no Congresso. Paralelamente, o deputado Rodrigo Agostinho (PSB) montou um grupo de trabalho para a formulação de um anteprojeto, com advogados, magistrados e membros do Ministério Público do Trabalho. Segundo reportagem do portal Jota, a expectativa é que a proposta seja finalizada até 15 de dezembro.

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