Como a pandemia mudou o perfil de renda dos brasileiros

Mais pobres conseguem melhora temporária com auxílio emergencial e quem já ganhava mais de dois salários mínimos foi prejudicado, segundo estudo do FGV Social

    A população pertencente à chamada classe C atingiu recorde em meio à pandemia do novo coronavírus. É o que mostra o estudo “Covid, classes econômicas e o caminho do meio”, publicado pelo FGV Social (Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas) na sexta-feira (9).

    A pesquisa, coordenada pelo economista Marcelo Neri, baseia-se nos dados da Pnad Anual e da Pnad-Covid, divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ela contempla não apenas a renda do trabalho, mas a renda domiciliar per capita como um todo, incluindo benefícios sociais.

    O perfil de renda dos brasileiros

    O estudo separa a população brasileira em três classes de renda, baseadas no salário mínimo, que está em R$ 1.045 em 2020:

    • Abaixo do valor equivalente a meio salário mínimo (R$ 522,50 em 2020)
    • Entre os valores equivalentes a meio salário mínimo e dois salários mínimos (R$ 2.090 em 2020)
    • Acima do valor equivalente a dois salários mínimos (mais de R$ 2.090)

    A classe C seria justamente o agrupamento do meio, que ganha entre meio e dois salários mínimos. Em agosto de 2020, 133,45 milhões de pessoas pertenciam a esse grupo – o maior número da série histórica iniciada em 2012. O crescimento em relação ao dado anual de 2019 foi de cerca de 19% – ou 21,5 milhões de pessoas.

    ‘CLASSE C’ EM ALTA

    Variação da população nas classes de renda no Brasil. Aumento da classe intermediária e queda nas outras duas em 2020

    O aumento da faixa intermediária de renda foi inflado pelas duas pontas: tanto via redução da população mais pobre como pela redução da população de renda maior que dois salários mínimos.

    A população da faixa mais pobre de renda, aliás, teve queda recorde. Na comparação entre o dado de agosto de 2020 e o dado anual de 2019, 15 milhões de pessoas saíram dessa classe.

    Segundo o estudo do FGV Social, o ritmo de queda na pobreza é muito superior a outros momentos de “boom social” no Brasil – isso em meio a uma das maiores crises da história do país.

    O que está por trás dos movimentos

    A pesquisa do FGV Social aponta diferentes fatores como responsáveis pelos movimentos observados. O principal é o auxílio emergencial, articulado pelo Congresso Nacional, que se tornou a mais importante medida do poder público para amparo da população economicamente atingida pela pandemia. O auxílio alcançou diretamente 67 milhões de brasileiros.

    Portanto, a redução acelerada da pobreza em meio a uma das piores crises enfrentadas na história do país – que, a princípio, parece paradoxal – é reflexo de uma medida temporária, que deve ser encerrada a partir da virada para o ano de 2021. O movimento é, a princípio, circunstancial – ocorre porque pessoas de renda muito baixa foram beneficiadas por uma política emergencial e passaram para a faixa intermediária, que ficou inflada.

    Como o estudo abrange dados de agosto, ele ainda não capta os efeitos da redução do valor do benefício pago aos trabalhadores informais e autônomos de baixa renda. A parcela mensal de R$ 600 foi paga entre abril e agosto. De setembro a dezembro caiu para R$ 300. Depois o auxílio emergencial acaba.

    O texto também cita as mudanças no mercado de trabalho brasileiro. Não apenas o nível de emprego caiu, como muitos trabalhadores formais tiveram o contrato alterado, com jornada e salário reduzidos. Isso ajudou a reduzir a população na faixa de maior renda, que foi de quase 33 milhões em 2019 para 28,1 milhões em agosto de 2020.

    As diferenças regionais

    As mudanças nas classes de renda ocorreram de forma heterogênea no Brasil. As regiões Nordeste e Norte foram onde houve maior queda da população da faixa mais pobre – e subsequente aumento da classe intermediária. O impacto maior nessas duas regiões se deve ao maior alcance do auxílio emergencial.

    MAIORES VARIAÇÕES NO NORTE E NORDESTE

    Variação da população em cada classe de renda, por região. Maiores quedas na classe mais baixa vieram no Norte e Nordeste. Maiores aumentos da classe intermediária também.

    No Nordeste, o contingente que recebe menos de meio salário mínimo caiu em 30% na comparação entre agosto de 2020 e o dado anual de 2019. Os estados brasileiros com maior queda foram Rondônia, Tocantins e Pernambuco, onde a população da faixa mais pobre caiu em torno de 35%. Apenas um estado registrou aumento proporcional da população mais pobre: o Rio Grande do Sul.

    Já o maior aumento proporcional na classe intermediária ocorreu no Maranhão e em Alagoas, estados que em 2019 registraram as menores rendas médias mensais.

    Projeções para pobreza e desigualdade no Brasil

    O fim do auxílio emergencial não irá apenas devolver milhões de pessoas à pobreza (com renda média mensal abaixo de meio salário mínimo). De acordo com o estudo do FGV Social, a virada do ano também revelará as “cicatrizes trabalhistas de natureza mais permanente abertas pela crise”.

    Economistas apontam o choque no mercado de trabalho como uma dessas cicatrizes que demorarão a ser superadas. A taxa de desemprego bateu recorde no trimestre entre maio e julho de 2020, segundo dados do IBGE. Mas a taxa de 13,8%, por si só, não conta a história inteira. Ela não contempla todas as mais de 12,5 milhões de pessoas que perderam trabalho desde o início da crise, uma vez que nem todas elas voltaram a procurar emprego – o que as levaria ao status técnico de desempregadas.

    Um outro efeito profundo da pandemia relacionado ao mercado de trabalho foi abordado em outro estudo do FGV Social publicado em setembro. A pesquisa mostrou como a desigualdade de renda do trabalho – que conta apenas remuneração do trabalho e não abarca benefícios sociais como o auxílio emergencial – também atingiu nível recorde no segundo semestre de 2020.

    Segundo o estudo, isso aponta para uma piora da desigualdade no Brasil no momento em que o auxílio emergencial e seu “efeito anestesia” forem retirados. Com milhões de volta à pobreza e com um mercado de trabalho que dificilmente conseguirá absorver todas as pessoas que voltarem a procurar emprego, a situação social pode piorar ainda mais.

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