Por que o Prêmio Nobel de Literatura costuma surpreender

Vencedora de 2020, a poeta americana Louise Glück não estava entre os favoritos das casas de apostas nem era citada como concorrente por especialistas. Processo de escolha é sigiloso e turva análises prévias

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    A Academia Sueca anunciou nesta quinta-feira (8) que a poeta americana Louise Glück foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura 2020.

    Glück, 77 anos, é a 16ª mulher a ser laureada na categoria e sua obra ainda é inédita no Brasil. Ela vai receber um prêmio de 10 milhões de coroas suecas, o equivalente a cerca de R$ 6,3 milhões.

    No anúncio, um porta-voz da Academia Sueca afirmou que a poeta foi escolhida “por sua brilhante voz poética que com uma beleza repleta de austeridade faz com que a existência individual seja universal”.

    A cerimônia de entrega será realizada no dia 10 de dezembro – seguindo a tradição do prêmio. Dada a pandemia do novo coronavírus, em 2020, o evento será realizado digitalmente.

    A vencedora de 2020

    A nova-iorquina Louise Glück nasceu em 1943, descendente de judeus húngaros que imigraram para os Estados Unidos décadas antes.

    A poeta começou a escrever ainda criança, por influência de seus pais, que lhe ensinavam os grandes mitos gregos e outras histórias da tradição oral europeias.

    Iniciou sua carreira no final da década de 1968 e, até 2020, publicou 18 livros, entre coletâneas de poemas e de artigos sobre o ato da criação poética. Mortes, traumas, rejeições e recomeços são alguns dos temas recorrentes da obra de Louise Glück.

    Com a vitória da poeta, vieram as críticas. As mais recorrentes apontam o fato de que, nos últimos 10 anos, o Nobel premiou cinco autores que escrevem em língua inglesa. “Tão inexplicável quanto triste”, afirmou o escritor espanhol Jorge Carrión no Twitter. “Eu gostaria que a equipe do Nobel rastreasse a literatura mundial. Descobririam autores excelentes”, disse.

    O anúncio da laureada chegou como uma surpresa, já que a autora estava longe do radar de críticos, jornalistas da área e casas de apostas.

    Quais eram as expectativas

    A franco-caribenha Maryse Condé, a russa Liudimila Ulitskaia e a canadense Margaret Atwood eram as três favoritas para a honraria nas casas de apostas, acompanhadas do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e do japonês Haruki Murakami – figurinha carimbada nas especulações anuais do prêmio.

    As expectativas eram de que uma mulher não-europeia seria laureada. Pesava na avaliação a repercussão do prêmio ao austríaco Peter Handke em 2019, que gerou controvérsias. Nos anos 1990, ele havia declarado apoio ao líder iugoslavo Slobodan Milosevic, que posteriormente foi julgado por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional pela sua atuação nos conflitos daquela década nos Bálcãs. Um veredito não foi dado porque ele morreu durante os trâmites.

    Como a premiação a Handke não foi bem aceita, as expectativas para 2020 apontavam que a Academia Sueca premiaria um autor com perfil totalmente diferente do dele.

    O funcionamento das casas de apostas

    A Ladbrokes, a Nicer Odds e a Bet 365 são as principais casas de apostas quando o assunto é Nobel.

    As três têm origem britânica e permitem que qualquer um arrisque o nome do possível vencedor – basta fazer um cadastro rápido.

    Há apostadores que se dedicam anualmente a tentar descobrir quem será o laureado. É o caso de Magnus Puke, que por anos trabalhou como curador da lista de favoritos da Ladbrokes.

    Em 2011, Puke foi entrevistado pela Bloomberg e explicou um pouco de seu método, que envolve “criar contatos com pessoas da comunidade literária, ficar de olho em fóruns de escritores e se atentar às discussões das redes sociais.

    Naquele ano, Ngũgĩ wa Thiong’o aparecia no topo de diversas listas de favoritos, mas Puke cravou que aquela não seria a vez de laurear um autor africano. Acertou: o vencedor foi o sueco Tomas Tranströmer.

    Apesar de curadores como Puke trabalharem com análise de tendências, o fato é que apostar no vencedor do Nobel está longe de ser uma ciência exata. Por isso, acertar o nome do laureado é exceção.

    O japonês Haruki Murakami, por exemplo, é um nome que ano após ano aparece nas listas de favoritos e é esnobado categoricamente. A zebra eterna chegou a se tornar uma piada interna entre os fãs do escritor e mostra que quando se trata do Nobel, tudo pode acontecer.

    Em 2016, Murakami liderava os favoritos, junto com o americano Philip Roth, o sírio Adonis, o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e a americana Joyce Carol Oates.

    No fim das contas, nenhum deles foi laureado, e a honraria foi para o músico Bob Dylan, cujas composições marcaram gerações. A vitória de Dylan também levantou discussões, que debatiam se letras de músicas poderiam ser consideradas literatura.

    Mas não são apenas as previsões frustradas que marcam as casas de apostas. Em 2014, o francês Patrick Modiano aparecia nas listas de favoritos e de fato foi o vencedor. O mesmo aconteceu no ano anterior, quando a canadense Alice Munro também eram apontada como uma das principais concorrentes ao Nobel e saiu vitoriosa.

    O escândalo do vazamento

    O mercado de apostas no Nobel de Literatura é tão rentável e movimentado que até mesmo esquemas de corrupção já foram descobertos.

    Em abril de 2018, foi revelado que o fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, casado com a poeta sueca Katarina Frostenson, parte da Academia Sueca até 2019, vazava informações para as casas de apostas – não se sabe quais nomes nem em que anos eles foram vazados. Também surgiram acusações de estupro e assédio sexual contra Arnault.

    Ele negou todas as afirmações, mas ainda sim foi condenado a dois anos e seis meses de prisão pelos casos de estupro.

    Dado o escândalo, a Academia Sueca não anunciou um laureado em 2018, anunciando a vitória da polonesa Olga Tokarczuk apenas em 2019.

    Como o vencedor é escolhido

    O processo de escolha do vencedor do Nobel de Literatura começa no mês de setembro do ano anterior ao anúncio.

    Como primeiro passo, a Academia Sueca envia convites para centenas de autores, editoras e organizações literárias do mundo, que devem apontar nomes para entrar no páreo pelo prêmio.

    Ao fim de janeiro, é encerrado o prazo para que os convidados que se interessarem enviem as obras à Academia. Em abril, são escolhidos de 15 a 20 possíveis laureados.

    Em maio, a Academia Sueca determina os cinco finalistas. Entre junho e agosto, os membros do comitê organizador do prêmio leem as obras dos finalistas e tomam a decisão final em setembro.

    O anúncio é sempre feito em outubro, com a entrega dos prêmios sendo realizada em dezembro.

    A surpresa no nome vencedor costuma vir porque, apesar dos especialistas e casas de aposta analisarem tendências, todo o processo é altamente sigiloso e os nomes dos outros finalistas são publicizados apenas 50 anos depois do anúncio do laureado, quando a Academia Sueca divulga as atas de suas reuniões.

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