Como a pandemia pressiona a saúde e a economia da Argentina

País apostou em confinamentos precoces e rigorosos, segurou o espalhamento da covid-19 por um tempo, mas agora vê aumento de casos e mortes. Crise econômica acelera o aumento da pobreza

Quando o governo da Argentina impôs a seus cidadãos sua primeira quarentena nacional “absolutamente inflexível”, no dia 20 de março, o país contabilizava apenas três mortes pela covid-19. Passados pouco mais de seis meses, com a liberação de uma série de atividades, esse número ultrapassa 20 mil.

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era o número absoluto de mortos pela covid-19 na Argentina em 6 de outubro de 2020, de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde)

A quarentena adotada na Argentina foi uma das mais severas e longas do mundo. Enquanto governos de países vizinhos, como o Brasil, emitiam diretrizes contraditórias e regras confusas para conter o surto, o argentino optou por uma forma centralizada, vertical e radical de barrar a circulação do vírus e tentar o esmagamento da curva. Quando criticado, o presidente Alberto Fernández reagiu dizendo: “Não estou obcecado com a quarentena, estou obcecado com a saúde dos argentinos.”

Entre o início do primeiro confinamento nacional, em 20 de março, e o fim dos períodos especiais de lockdown em parte do país, em 10 de maio, a Argentina tinha 360 mortos. A Grande Buenos Aires, região mais afetada pelo vírus, continuaria em quarentena rígida até 30 de agosto. Os moradores da capital e arredores até apelidaram a quarentena de “quareterna”, porque não acabava nunca.

Atila Iamarino, divulgador científico e doutor em virologia pela USP, com pós-doutorado pela Universidade de Yale, nos EUA, chamou atenção em postagem em sua conta no Twitter, na terça-feira (6), para o fato de o número de casos e mortes ter começado a crescer de forma acentuada a partir da flexibilização do lockdown, da retomada de aulas presenciais e da reabertura de restaurantes.

Comparação com o entorno

Em números absolutos de mortes pela covid-19, a Argentina ocupa em outubro a segunda colocação entre os países do Cone Sul. Ela, no entanto, vem muito atrás do Brasil – os argentinos somam 125 mil mortos a menos que os brasileiros.

Números totais

Gráfico mostra número total de mortos pela covid-19 até 6 de outubro de 2020 nos países do Cone Sul

Quando o número de mortos pela covid-19 é dividido por grupo de 1 milhão de habitantes, a Argentina passa a ocupar o terceiro lugar na região, bem atrás do Brasil e do Chile, mas também muito à frente do Paraguai e do Uruguai.

Números proporcionais

Gráfico mostra mortes por milhão durante a pandemia na América do Sul

O confinamento é apenas um entre muitos fatores a influenciar os números. Outros elementos, como concentração populacional em áreas saturadas, idade média da população, além do acesso a estruturas hospitalares adequada e da adoção de estratégias de testagem e isolamento de doentes também afetam o impacto do vírus.

O impacto em uma economia já avariada

A economia argentina foi bastante afetada pela pandemia, assim como em outros países. A taxa de pobreza cresceu mais de 5 pontos percentuais entre o segundo semestre de 2019 e o primeiro semestre de 2020. O número de indigentes cresceu 2,5 pontos percentuais no mesmo período.

O país passou a ter 4,7 milhões de indigentes durante a pandemia do novo coronavírus. O número de pobres chegou a 18,5 milhões, o que corresponde a 40,9% da população.

A crise econômica, que já se arrastava há anos, acelerou na pandemia. Os dados de pobreza, que vinham crescendo desde 2018, apontam para um cenário ainda mais sombrio no futuro.

“Nosso cenário base prevê que a pobreza continue subindo pelo menos até o fim do ano [de 2020]. Esperamos que metade da população argentina possa estar vivendo na pobreza até o fim do ano”

Rosendo Plana

membro da consultoria financeira argentina Orlando J. Ferreres & Asociados, em declaração ao jornal brasileiro Valor Econômico, publicada no dia 1º de outubro de 2020

Na segunda-feira (5), o ministro argentino da Educação, Nicolás Trotta, disse que “não é preciso que haja vacina para voltar às aulas”, num sinal de que o governo está disposto a tentar o que ele mesmo chamou de “pequenas aberturas”.

Já o secretário da Saúde de Buenos Aires, Nicolás Kreplak, fez um contraponto mais precavido: “Não dá para abrir de qualquer jeito. Cada país do mundo que abriu muito teve que voltar, especialmente na área educacional. Outros países voltaram atrás, tendo menos casos que os nossos.”

As declarações de Trotta e Kreplak mostram como o país ainda busca uma maneira de retomar as aulas presenciais, aumentar a circulação e dinamizar a economia, sem pagar o preço que países da Europa, como a França e a Espanha, estão pagando em outubro, com o aumento de casos e a retomada de medidas restritivas; ou ainda como aconteceu em Israel, onde o governo impôs, em 17 de setembro, um novo confinamento nacional de três semanas.

Em todo esse período de emergência sanitária, o governo argentino enfrentou pressão das ruas. Um dos momentos mais tensos ocorreu em 17 de agosto, no feriado nacional da independência, quando milhares de pessoas protestaram contra as restrições de circulação, que já somavam então cinco meses ininterruptos na Grande Buenos Aires.

Muitos saíram nas janelas para bater panelas. Além do enfado com o confinamento, os argentinos também protestaram contra uma reforma judicial pretendida pelo Executivo e contra os casos de corrupção que há anos se arrastam na Justiça envolvendo a vice de Fernández, Cristina Kirchner.

A resposta de Fernández

O presidente argentino vem apelando para o espírito de unidade nacional durante a pandemia. Ele pede a seus opositores políticos uma trégua nesse período excepcional. “Nós conseguimos garantir que nenhum argentino afetado pelo vírus ficasse objetivamente sem a atenção sanitária merecida”, disse Fernández, realçando os investimentos estatais, mais do que as perdas na economia.

De acordo com a Casa Rosada, sede do Executivo argentino, “mais de 10 bilhões de pesos (aproximadamente R$ 722 milhões) foram investidos diretamente no combate à pandemia em todo o país, além da construção de 60 hospitais e a ampliação de 3 mil leitos”.

Entre os países do Cone Sul, a Argentina tem o terceiro maior gasto per capita com saúde. O país fica atrás de Uruguai e Chile, nesta ordem, mas também fica à frente de Brasil e Paraguai, de acordo com dados do Banco Mundial.

Outubro marcou o décimo mês de governo Fernández. Mais da metade do mandato foi tomado pela pandemia. O aniversário de dez meses foi assinalado pela divulgação de pesquisas que mostram seu nível de aprovação ao redor de 55%.

A esquerda, que o apoia, comemora, dizendo que Fernández é um dos presidentes mais bem avaliados da América Latina, no momento em que todos os líderes da região estão igualmente submetidos à pressão da pandemia. Já a direita compara a popularidade atual do presidente com índices melhores obtidos por ele mesmo antes da quarentena, e destaca o crescimento dos índices de pobreza para afirmar que Fernández está sendo desidratado com a crise.

Avaliações sobre a ação sanitária argentina

Segundo Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Opas (Organização Panamericana da Saúde), “a Argentina tomou boas medidas”. “Foi dos primeiros países a implementar quarentenas e tomou medidas em benefício da população sem bandeiras de tipo político, convocando todos os governadores, a sociedade civil e as entidades de classe para assessorar”, disse ao Nexo.

Ele ressaltou que “o mais difícil para o país foi a criação de um bom sistema de rastreamento de contatos”. “O país está fazendo o possível e não temos dúvidas de que a curva [de mortes e contágios] será aplainada”, afirmou.

O médico Ricardo Parolin Schnekenberg, doutorando do Departamento de Neurociência da Universidade Oxford e membro da Equipe de Resposta do Imperial College de Londres, disse ao Nexo que o achatamento da curva a partir dos lockdowns permite a um país “ganhar tempo para melhorar seu sistema de saúde, treinar equipes, e desenvolver a rede de testagem e de rastreio de contatos”. “Se isso não for feito, eventualmente a transmissão irá aumentar”, afirmou.

De acordo com ele, “o que os países europeus estão vendo agora é que mesmo com tudo isso ainda é bastante difícil controlar a transmissão quando a mobilidade retorna a níveis semelhantes ao pré-lockdown”.

O maior benefício da estratégia argentina, segundo Schnekenberg, foi “ganhar tempo para que novos tratamentos e técnicas sejam estudados e aperfeiçoados”. “Um exemplo prático é a dexametasona, um corticoide baratíssimo que agora sabemos que reduz em 1/3 as mortes por covid-19 grave. Podemos imaginar que possivelmente 1/3 dos que morreram antes da publicação desse estudo poderiam ser salvos atualmente”, disse.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia um gráfico de mortes por milhão no qual não constavam vírgulas de casas decimais. O gráfico em questão foi substituído às 12:17 de 27 de outubro de 2020 por uma versão com números inteiros arredondados.

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