Como Trump redobra a aposta em ataques após a alta hospitalar

A menos de um mês da eleição e em desvantagem nas pesquisas, presidente americano reforça estilo negacionista e agressivo depois da internação para tratar a covid-19

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    O presidente dos EUA, Donald Trump, retomou o padrão de negacionismo da covid-19, de desconfiança sobre o sistema eleitoral e de ataques a seus adversários democratas após a alta hospitalar de segunda-feira (5).

    A retomada do tom agressivo, assim como os questionamentos às evidências científicas e aos pilares do sistema democrático americano ocorrem a 27 dias das eleições presidenciais, marcadas para 3 de novembro.

    Após sair do hospital e retomar a campanha, o republicano tenta reverter uma desvantagem em relação ao candidato democrata Joe Biden, que vem crescendo nos últimos dias. A média das principais pesquisas de intenção de votos nos EUA davam a Biden, na quarta-feira (7), uma liderança por nove pontos percentuais sobre Trump.

    Os candidatos a vice – Kamala Harris, pelo Partido Democrata, e Mike Pence, pelo Partido Republicano – participam na quarta-feira (7) de debate em Salt Lake City, no estado de Utah.

    O presidente americano foi diagnosticado com a covid-19 na quinta-feira (1º). Ele repetiu o exame e divulgou o diagnóstico na manhã do dia seguinte, sexta-feira (2), dando entrada no hospital militar Walter Reed, nos arredores da capital, Washington, no sábado (3), onde permaneceu durante o fim de semana.

    Durante o período de internação, adotou um tom mais ameno que o habitual. Num dos vídeos, divulgado em seu primeiro dia de internação, Trump apareceu sem maquiagem e com o penteado menos produzido que o habitual, sem gravata e com os ombros curvados, para agradecer pelas manifestações de apoio, vindas inclusive de seus adversários políticos.

    Após voltar à Casa Branca, na segunda-feira (5), o presidente americano divulgou um vídeo em tom triunfal, no qual apareceu tirando a máscara do rosto, na sacada da residência oficial, e prestando continência militar ao horizonte. Em seguida, retomou as postagens no Twitter, sua principal ferramenta de comunicação com o eleitorado, numa frequência maior que o usual, com mensagens em série, em letras garrafais e tom agressivo.

    Palavras gentis durante a internação

    No vídeo gravado ainda no hospital, no início da internação, Trump disse que derrotaria “esse coronavírus, ou seja lá como você chame isso”, esquivando-se da polêmica sobre o “vírus chinês”, como ele mesmo vinha chamando a doença até então, numa atitude permanentemente antagonista em relação ao país que foi o primeiro epicentro da doença.

    Apenas uma semana antes de gravar esse vídeo no hospital Walter Reed e de ter sido diagnosticado com a doença, Trump havia discursado na 75ª Assembleia-Geral das Nações Unidas – num depoimento gravado em vídeo, como os demais líderes mundiais – no qual tinha atacado a China e o presidente chinês, Xi Jinping, pelo “vírus da China”.

    Além do recuo sobre a polêmica do “vírus chinês”, o presidente americano também agradeceu neste mesmo vídeo gravado no hospital pelas manifestações suprapartidárias de apoio e condolências que recebeu desde que teve conhecimento do diagnóstico.

    Uma dessas mensagens veio de Biden – hoje, seu maior adversário. Em mensagem nas redes sociais, o candidato democrata havia mandado votos de estima e melhora ao presidente dos EUA e à primeira-dama, Melania Trump, que também havia testado positivo, embora com menos sintomas que o marido. “Estaremos orando por sua saúde e pela segurança do presidente e de sua família”, escreveu Biden.

    Além do candidato democrata, o ex-presidente Barack Obama (2009 a 2017), publicou mensagem de solidariedade a Trump: “obviamente estamos no meio de uma enorme batalha política agora, e embora haja muita coisa em jogo, temos de nos lembrar de que somos todos americanos. Somo todos seres humanos e queremos que todos tenham saúde, não importa a que partido pertençam”.

    O clima de confraternização suprapartidária foi correspondido por Trump naquele momento: “estou muito agradecido por todo apoio que tenho recebido, como eu vi pela televisão, como li. Estou grato por tudo o que foi dito pelo povo americano, por quase todo o espectro político em consenso. É uma coisa bonita de se ver. Estou muito grato por isso e não esquecerei. Prometo”.

    Série de ataques

    Porém, o clima mudou após a alta hospitalar. A aparente trégua teve fim tão logo Trump retomou à Casa Branca, onde assumiu a virulência de costume com tenacidade ainda maior.

    Ataques aos adversários

    Trump começou na noite de terça-feira (6) a replicar em seu perfil dezenas de postagens de personalidades influentes da extrema direita americana. Essas postagens acusam Obama, Biden e a ex-secretária de Estado americano (2009 a 2013) e candidata democrata derrotada por Trump nas eleições presidenciais de 2016, Hillary Clinton, de terem movido o sistema de inteligência dos EUA para prejudicar Trump, acusando-o falsamente de conluio com a Rússia.

    A história é antiga e remete ao vazamento de e-mails de Hillary quando ela ainda era secretária de Estado. Trump ressuscitou o rumor para jogar sobre os adversários democratas a acusação da qual ele mesmo foi vítima – de agir em conluio com agentes russos para turvar a democracia americana.

    Apesar da enxurrada de posts de Trump sobre o assunto, a imprensa americana e internacional não repercutiu o tema. O foco da cobertura permaneceu na pandemia, que já matou mais de 200 mil pessoas nos EUA, e na doença da qual Trump, mesmo com alta hospitalar, ainda não se livrou completamente, dados os riscos de complicação pelo próprio vírus, assim como pelo coquetel de drogas que ele vem tomando em decorrência da infecção.

    Trump insiste em dizer que vai participar do próximo debate presidencial, o que poderia violar as regras de quarentena às quais pessoas contaminadas pelo vírus precisam se submeter. Biden, por sua vez, diz que só participará do evento se especialistas em saúde derem garantia de que é seguro.

    Ataques à ciência

    Após a alta hospitalar, Trump disse ter “aprendido muito sobre o coronavírus”, mas manteve o tom negacionista ao tratar da gravidade da pandemia.

    “Não tenha medo”, disse o presidente sobre o vírus que já matou mais de 1 milhão de pessoas em 190 países. O presidente, que tem 74 anos, sobrepeso, problemas de pressão e é sedentário, disse no vídeo de segunda-feira (5), que passou a se sentir “melhor do que 20 anos atrás”, após ter contraído a doença e de ter recebido alta do hospital, ainda tomando um coquetel potente, formado por esteróides e antivirais.

    “Eu sei que [a covid-19] é perigosa, mas é preciso voltar ao trabalho”, disse ainda Trump, sem máscara no rosto. “Eu sei que há um risco, mas é ok”, afirmou, recomendando que as pessoas “saiam lá fora e não se deixem dominar pelo medo”.

    No dia seguinte, terça-feira (6), o presidente dos EUA publicou uma mensagem em sua conta no Twitter na qual afirmou de forma errônea que a covid-19 não é mais ameaçadora do que a gripe normal. “Muitas pessoas, todos os anos, às vezes mais de 100 mil, morrem por causa da gripe”, escreveu Trump, quando na verdade, morrem anualmente entre 22 mil e 64 mil pessoas por gripe normal nos EUA, contra mais de 200 mil vítimas fatais por covid-19. O post do presidente foi removido da rede social, por violar as regras.

    Ataques ao voto por correio

    A terceira frente de ataques – depois dos adversários democratas e da ciência – foi o sistema eleitoral americano, mais precisamente o voto por correio.

    O tema é fundamental para Trump porque se espera que um número maior de eleitores façam uso do voto à distância este ano, por conta do temor de contaminação pela covid-19 nos locais de votação. Como o voto não é obrigatório nos EUA, o engajamento dos eleitores no processo eleitoral depende do entusiasmo que cada partido consegue incutir em suas bases.

    As regras sobre voto por correio varia nos diferentes estados. Esse tipo de voto a distância está mais presente em estados nos quais Biden pode ter uma vantagem maior que Trump. Daí o interesse do republicano em questionar as cédulas desses locais em que ele é preterido pelo rival democrata.

    O voto por correio é legal nos EUA, e não há denúncias substanciais de fraude que afetem a lisura do processo como um todo. As fraudes registradas representam entre 0,00004% e 0,0009% do total de votos, de acordo com um estudo feito em 2017 pelo centro de estudos americano sobre democracia Brennan Center.

    Trump foca nas suspeitas sobre casos individuais para difundir a incredulidade sobre todo o sistema. Entre os muitos posts sobre o tema desde que teve a alta hospitalar, um deles, publicado na manhã de quarta-feira (7), afirma sem apresentar evidências que a eleição presidencial de 2020 “será a mais corrupta da história americana”.

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