O que Trump tomou e o que não tomou para tratar a covid

Presidente americano dispensa cloroquina e, apesar de garantir que está bem, recorre a coquetel usado apenas em pacientes em estado grave

    O presidente dos EUA, Donald Trump, garante que está bem de saúde, mas o coquetel de drogas tomado por ele sugere o contrário. Desde que tornou pública sua contaminação pelo vírus da covid-19, na sexta-feira (2), Trump ingeriu remédios que são usados apenas em casos graves da doença, e dispensou outros, que eram promovidos até então como verdadeiros elixires, mesmo sem eficácia comprovada.

    A droga mais forte dada ao presidente americano nesse período foi a dexametasona. Em junho, quando esse esteróide começou a ser usado em casos da covid-19, o diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, alertou: “é excepcionalmente importante que esse medicamento seja reservado para casos severos” da doença. O médico da Casa Branca, Sean Conley, garante que Trump não tem um quadro severo. Ainda assim, prescreveu o remédio ao presidente.

    Cloroquina e desinfetante ficaram de fora do coquetel presidencial

    Outro medicamento usado por Trump foi o remdesivir, antiviral empregado originalmente no combate à epidemia do ebola na África, entre 2013 e 2016, mas recomendado agora de maneira emergencial nos casos da covid-19. Ele também tomou um coquetel de cópias sintéticas de anticorpos humanos conhecido como Regeneron, ou pela sigla REGN-COV2.

    Além disso, a Casa Branca reconheceu que o presidente recebeu suplementação de oxigênio em duas ocasiões, apesar de ter negado inicialmente essa informação, e confirmou que Trump teve febre alta, embora ela tenha cedido após a internação.

    O presidente americano faz parte do grupo de risco, por ser idoso (74 anos), ter sobrepeso, manter uma alimentação desequilibrada e ser sedentário. O jornal americano The Wall Street Journal revelou que Trump teve conhecimento de seu diagnóstico na quinta-feira (1º), por meio de um teste rápido, mas optou por esperar a confirmação do diagnóstico, por um novo exame, antes de tornar a informação pública, no dia seguinte.

    7,4 milhões

    Era o número de pessoas diagnosticadas com covid-19 nos EUA até 5 de outubro

    209 mil

    Era o número de pessoas mortas pela covid-19 nos EUA até a mesma data

    Por outro lado, Trump dispensou o uso da hidroxicloroquina – droga usada normalmente no combate ao paludismo e a doenças autoimunes, como o lúpus, mas sem eficiência comprovada contra a covid-19.

    Apesar da falta de embasamento científico, a hidroxicloroquina foi promovida por Trump e entusiasticamente propagandeada pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que recebeu em junho doação de 2 milhões de doses do produto, enviado pelos EUA. Agora, o medicamento foi dado como inútil pela Casa Branca.

    Por fim, Trump não tomou nenhuma injeção de desinfetante doméstico para “limpar os pulmões”, como ele mesmo havia sugerido ao restante da população, em abril. “Deve ter alguma forma de injetar isso”, chegou a dizer o presidente americano à época, em pronunciamento oficial.

    Passados seis meses, ao ser confrontado pelo rival democrata Joe Biden sobre essa declaração, no debate de 29 de setembro, em Cleveland, Ohio, Trump disse que tinha sido “sarcástico”. Apesar disso, os serviços de emergência de Nova York registraram aumento de 30% nas chamadas por pessoas que ingeriram o produto depois de terem ouvido o presidente naquela época.

    Preocupação com a campanha eleitoral

    No domingo (4), para mostrar boa disposição, Trump passou de carro acenando a apoiadores, na frente do Hospital Militar Walter Reed, onde está internado.

    O gesto foi celebrado por seus eleitores como sinal de recuperação, mas recebeu críticas por expor membros da guarda presidencial ao risco de contaminação. O presidente americano circulou dentro de um carro fechado com seus agentes de segurança. Todos usavam máscaras, mas, mesmo assim, serão postos em quarentena.

    Os médicos dizem que Trump está bem de saúde, mas o procedimento adotado sugere o contrário. Conley, a autoridade sanitária mais importante na Casa Branca, afirma que os procedimentos mais sérios – como o uso da dexametasona – foram apenas uma forma de precaução, e o presidente pode voltar para casa já nesta segunda-feira (5).

    Para especialistas como Esther Choo, professora de emergência médica na Universidade de Ciência e Saúde de Portland, no entanto, o caso parece ser “muito mais do que apenas ‘excesso de precaução’” com o presidente.

    Assim como Choo, outros especialistas ouvidos pelo jornal americano The New York Times expressaram desconfiança com o diagnóstico otimista. “Ele está mais doente do que admite ou estão usando um tratamento agressivo porque ele é o presidente dos EUA, de uma maneira que poderia ser inclusive danosa para ele?”, questionou o médico Thomas McGinn, que trabalha no Northwell Health, a maior unidade de saúde do estado de Nova York.

    Após ouvir os médicos, a reportagem do New York Times levantou três hipóteses para o caminho adotado no tratamento do presidente dos EUA:

    A primeira hipótese é a de que Trump está mais doente do que a Casa Branca admite. Neste caso, a informação verdadeira é escondida para não vulnerabilizar a imagem do presidente

    A segunda hipótese é a de que o presidente dos EUA está recebendo cuidados excessivos por causa de sua importância política para o país. Mesmo não estando tão mal, o tratamento mais agressivo é usado como forma de precaução

    A terceira hipótese é a de que o próprio presidente americano esteja decidindo o que tomar por conta própria, no que os médicos apelidam de “síndrome de VIP”, da sigla “pessoa muito importante”, em inglês.

    As implicações políticas da doença

    Mesmo debilitado, Trump continua sendo o presidente em exercício dos EUA. Além da importância do cargo em si, ele disputa a reeleição com o rival democrata Joe Biden, em votação marcada para 3 de novembro, e aparece com uma desvantagem de mais de oito pontos percentuais na média das pesquisas de opinião. A menos de um mês da votação, não há consenso entre os analistas se a contaminação do presidente o favorece ou desfavorece na disputa.

    Na segunda-feira (5), depois de um breve período de silêncio no Twitter, Trump voltou com força total às postagens: no intervalo de uma hora, 19 textos foram publicados na conta presidencial, em letras garrafais e com pontos de exclamação.

    Sua participação no primeiro debate presidencial, em 29 de setembro, em Cleveland, Ohio, teve repercussão majoritariamente negativa. Para 60% dos americanos, Biden venceu a contenda, marcada por ofensas mútuas e atropelos.

    O calendário oficial prevê ainda dois debates entre Biden e Trump, mas não é certo que eles aconteçam. O próximo será em Miami, Flórida, em 15 de outubro. O seguinte, em Nashville, Tennessee, em 22 de outubro.

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