Como a ciência tenta entender o papel dos ‘supertransmissores’

Estudos apontam que alguns indivíduos e situações resultam em um nível desproporcional de contágio. Especialistas defendem uma maior compreensão da dispersão do vírus como forma de controlá-lo

    Cientistas ainda tentam esclarecer muitas questões sobre o comportamento do novo coronavírus e a maneira como a covid-19 se dissemina. Entre elas está o fato de que certos indivíduos e eventos demonstram ter um papel decisivo no espalhamento da doença, agindo como 'supertransmissores'.

    É uma lógica que remete ao princípio estatístico de Pareto, segundo o qual 80% das consequências advêm de apenas 20% das causas. Um estudo feito em Hong Kong em setembro de 2020 encontrou exatamente essa relação na transmissão da covid-19 dentro do território. Com testagem e rastreamento amplos, descobriu-se que 19% dos casos haviam sido responsáveis por 80% da transmissão na região chinesa. Enquanto isso, 69% dos casos não chegaram a contaminar uma única pessoa.

    Num estudo realizado na Índia, 71% dos indivíduos observados nunca passaram o vírus para ninguém. Publicada em 30 de setembro na revista Science, a pesquisa é considerada a maior do tipo e indica que uma minoria de pessoas está por trás da disseminação para milhares de outros. Os pesquisadores testaram 600 mil indianos que tiveram contato com 85 mil infectados por covid-19 nos estados de Tamil Nadu e Andhra Pradesh.

    Em relação a eventos, a curta história da covid-19 é repleta de episódios em que aglomerações de pessoas se tornaram focos de transmissão da doença, com uma dinâmica em que poucos indivíduos ou mesmo uma única pessoa passou o vírus para muitas outras.

    No exemplo mais extremo, na Coreia do Sul, cerca de 1.600 casos de covid-19 tiveram como origem o contato com uma única mulher, dentro de uma comunidade evangélica. Estima-se que ela tenha resultado em mais de 5 mil casos, direta e indiretamente.

    Nos Estados Unidos, um ensaio de coral com uma pessoa infectada resultou em pelo menos 32 contaminados e outros 20 casos suspeitos, no estado de Washington, em março. Um enterro na Georgia levou à contaminação de cerca de 100 pessoas em fevereiro. O evento é citado pelo Centro de Controle de Doenças dos EUA como tendo tido um “papel notável no início da propagação da covid-19 no país”.

    Outra forma de pensar a disseminação

    Estudos demonstram que boa parte do percurso da covid-19 não acontece de pessoa a pessoa, de maneira linear, mas sim de uma pessoa para outras dez – ou mais – de uma vez, em um momento específico.

    Para muitos estudiosos, uma estratégia eficiente para frear o avanço do coronavírus é dedicar esforços para o monitoramento de aglomerados específicos, como um evento ou comunidade – uma festa, encontro religioso ou reunião. Esse controle poderia ser responsável por controlar boa parte do contágio em um local.

    É o que fez, por exemplo, o governo do Japão, com uma estratégia focada em evitar que aglomerados com casos de covid-19 acabassem propagando a doença. Dessa forma, o país conseguiu segurar o avanço do coronavírus, mesmo com um baixo índice de testagem.

    A cadeia de transmissão não se sustenta sem uma cadeia de aglomerados ou um mega-aglomerado, afirmou Nitoshi Oshitani, membro da força-tarefa de combate à covid-19 do Ministério da Saúde do Japão, em entrevista à revista The Atlantic.

    Segundo Oshitani, o governo optou por tolerar um certo grau de transmissão localizada, mas conseguiu cortar a transmissão em maior escala. “Se podemos prevenir aglomerados onde uma pessoa infecta muitas, a maioria das cadeias de transmissões acaba morrendo”, afirmou.

    Para identificar esses tipos de aglomerados, o governo japonês publicou listas informativas sobre situações sociais típicas que potencialmente podem se transformar em focos de transmissão. Entre os elementos a se evitar estão espaços fechados e com pouca ventilação, aglomerações de muitas pessoas no mesmo ambiente e situações em que os indivíduos falam ou conversam com muita proximidade.

    A atenção ao número K

    Alguns especialistas defendem que o foco no número de reprodução (R) em análises a respeito da situação da covid em um determinado lugar pode não ser a melhor métrica de avaliação.

    Nessa medição, o número que acompanha a letra R indica a quantidade média de pessoas que um indivíduo contamina. Sem distanciamento social, cada pessoa geralmente infecta três outras, índice que seria representado por R3. Quando o R é menor que um, a leitura é de que o vírus está sob controle, pois a cadeia de transmissão é reduzida com o tempo.

    No entanto, se uma grande parte das pessoas não infecta outras, o uso de uma taxa que indica a média de transmissão pode não ser tão útil. “O padrão consistente é que o número mais comum seja zero”, declarou o pesquisador James Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, à revista Science. É por isso que diversos cientistas têm usado a medida simbolizada pela letra K, que descreve o fator de dispersão de uma doença. Um K baixo indica que a transmissão teve origem em um grupo pequeno de pessoas.

    Um número K baixo pode ser observado em epidemias de outros tipos de coronavírus. Em um artigo de 2005, foi estimado que a Sars (Síndrome respiratória aguda grave), teve um K de 0,16. Já a Mers (Síndrome respiratória do Oriente Médio) teve seu K calculado em 0,25. Estimativas para a K da covid-19 variam, indo de 0,1 a índices mais altos que aqueles da Sars e da Mers.

    Por que um indivíduo espalha mais

    Além de condições que podem propiciar o contágio de um indivíduo para muitos, a ciência ainda investiga por que algumas pessoas parecem ter uma capacidade maior de transmissão que outras. Ainda não há conclusões, mas especula-se que a razão pode estar relacionada a uma carga viral maior ou uma propensão a liberar mais vírus que a média.

    “Alguns pacientes têm, sim, maior quantidade de vírus em vias aéreas. Instintivamente, eu diria que essa maior quantidade está totalmente relacionada a sintomas em vias aéreas, gotículas, secreção nasal, tosse”, disse ao Nexo a infectologista Fernanda Maffei.

    Para além dessa possibilidade, a especialista cita uma explicação que pode ser genética. De acordo com Maffei, um estudo publicado recentemente no New England Journal of Medicine fornece, na sua visão, a melhor explicação para o fato de que algumas pessoas têm uma “maior habitação da covid”.

    Segundo o estudo, certos indivíduos que apresentam uma expressão maior de células dendríticas (do sistema imune) relacionadas à atuação destrutiva da covid-19 sofreram incidência maior de lesão pulmonar. Para a infectologista, isso indicaria que o espalhamento está mais relacionado com a propensão de certas pessoas de pegar a doença, e não de transmitir.

    “Uma teoria aponta que o vírus reagiria de forma diferente em organismos de determinadas pessoas — talvez, por ter imunidade melhor, algumas consigam conter a reprodução viral. Quem tem essa carga maior poderia também oferecer maior risco de contágio quando entra em contato com outras pessoas”, afirmou Rodrigo Araújo, professor de microbiologia da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e pesquisador de pós-doutorado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em entrevista ao UOL em julho de 2020.

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