Trump com covid-19: como isso interfere na corrida eleitoral

Presidente americano e primeira-dama anunciam diagnóstico positivo há apenas 32 dias da disputa contra o democrata Joe Biden

    O presidente dos EUA, Donald Trump, publicou uma mensagem em seu perfil no Twitter na manhã de sexta-feira (2) informando que ele e a esposa, a primeira-dama, Melania Trump, testaram positivo para o vírus da covid-19. A informação foi confirmada pelo médico da Casa Branca, Mark Meadows.

    “Nós começaremos nossa quarentena e nosso processo de recuperação imediatamente”, disse o presidente, que preenche pelo menos três fatores de risco: a idade, o sobrepeso e o sedentarismo.

    Trump tem 74 anos. Suas biografias são repletas de relatos de má alimentação e a mídia americana coleciona reportagens nas quais médicos expressam preocupação por aspectos de sua saúde, como colesterol alto, tremedeiras em público e saídas fora da agenda para fazer check-ups. Apesar disso, o presidente americano reluta em usar máscara, promove eventos de campanha que violam regras de distanciamento social e faz pouco caso da pandemia.

    80%

    é o percentual de pessoas acima dos 65 anos entre os mortos pela covid-19 nos EUA

    7,2 milhões

    era o número de pessoas diagnosticadas com a covid-19 nos EUA até 2 de outubro

    207 mil

    era o número de pessoas mortas nos EUA pela covid-19 até 2 de outubro

    Trump seguirá trabalhando na Casa Branca sem interrupção, de acordo com seus médicos. Após o diagnóstico, ele disse que estava se sentindo bem.

    O anúncio da contaminação foi feito 32 dias antes da eleição presidencial, que está marcada para 3 de novembro. Trump aparece sete pontos percentuais atrás do rival democrata Joe Biden na média das pesquisas nacionais e tem pela frente dois debates: em Miami, no dia 15 de outubro, e em Nashville, no dia 22 de outubro. Em ambos, sua presença se tornou incerta.

    Desdém pelo risco da doença

    Ao noticiar a infecção do presidente, a imprensa americana lembrou das diversas declarações que Trump deu até então, minimizando os riscos da pandemia. “O resultado do teste vem depois de o presidente ter passado meses subestimando a severidade da doença que já matou mais de 207 mil pessoas nos EUA”, noticiou o The New York Times. O jornal notou ainda que, na véspera do anúncio, Trump havia dito que “o fim da pandemia está perto”.

    No primeiro debate da série de 2020, Trump chegou a caçoar de Biden por ele usar máscara – uma recomendação médica universal para conter a propagação do vírus.

    Diante das câmeras de TV, em Cleveland, no debate de terça-feira (29), o presidente americano puxou uma máscara do próprio paletó, dizendo que a usa apenas quando necessário. “Eu não uso máscara como ele. Toda vez que você vê ele, está de máscara”, disse a respeito de Biden.

    36%

    é o índice de aprovação à gestão da pandemia do governo Trump, de acordo com pesquisa do Instituto Gallup de agosto de 2020

    Nos últimos meses, o presidente americano anunciou que a pandemia “vai desaparecer” mesmo sem ter evidências científicas que sustentem a afirmação. Em entrevista ao Nexo, na terça-feira (29), o professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, Arthur Caplan, disse que não há nenhum sinal de que o vírus esteja passando por mutações que o tornem mais fraco. Mesmo uma imunidade coletiva contra a covid-19 é incerta e não há previsão de que ela venha a ocorrer num futuro próximo.

    Contrariando todas as regras de distanciamento social, Trump promoveu grandes comícios de campanha, com aglomeração de milhares de apoiadores. Em agosto, quando ele aceitou a nomeação como candidato do Partido Republicano, mais de mil apoiadores se reuniram na Casa Branca.

    Dúvidas sobre a campanha

    Após o diagnóstico positivo, Trump desmarcou uma viagem que faria à Flórida na sexta-feira (2) para participar de um comício de campanha. Os eventos seguintes, em Wisconsin no sábado e em Arizona no domingo, também foram cancelados.

    A campanha de Biden tem interesse em manter a pandemia em primeiro plano do debate político, pois a gestão da crise é vista como um ponto fraco do adversário – os EUA são o país com o maior número de pessoas contaminadas e mortas no mundo.

    Trump evita o tema da covid-19 e prefere realçar os feitos de seu governo em outras áreas. Na esteira dos protestos antirracistas, ele também passou a colocar a segurança pública no centro do debate, promovendo uma agenda linha dura. Agora, o diagnóstico positivo torna mais difícil fazer com que o assunto seja ignorado.

    Da mesma maneira, a defesa entusiasmada da reabertura do comércio e das escolas será colocada sob questão pela campanha democrata. Trump vinha acusando governadores ligados ao partido adversário de retardar a reabertura econômica para prejudicar seu governo e sua campanha eleitoral.

    No Twitter, o rival Joe Biden fez votos de pronta recuperação ao casal presidencial. “Continuaremos a rezar pela saúde e a segurança do presidente e de sua família”, disse o democrata.

    Trump não é o primeiro nem o único líder mundial a se contaminar. Governantes de Brasil, Bolívia, Guatemala, Honduras e do Reino Unido também foram infectados em algum momento. Todos passam bem.

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