Os projetos que mapeiam a ‘diáspora científica’ do Brasil

Número de acadêmicos brasileiros que migraram para o exterior cresceu nas décadas de 2000 e 2010. Cientistas alertam para fuga de cérebros mas também realçam o papel de redes internacionais de pesquisadores

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    Ativo desde junho de 2020, o projeto Diáspora Científica do Brasilpretende fazer um levantamento estruturado e contínuo de pesquisadores que deixaram o Brasil para atuar em instituições de outros países.

    A iniciativa reúne dados para visualização no Google Maps, incluindo informações de área de atuação e atual condição dos pesquisadores – efetivos ou doutorandos, pós-doutorandos e pesquisadores visitantes. No Twitter, a iniciativa divulga perfis e produções de acadêmicos que se instalaram no exterior, como a antropóloga Débora Diniz (hoje na Universidade Brown, nos EUA), a economista Monica de Bolle (no Peterson Institute for International Economics, nos EUA), a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado (na Universidade de Bath, no Reino Unido) e o jurista Silvio Almeida (na Universidade Duke, nos EUA).

    Até 30 de setembro, a iniciativa havia mapeado mil nomes. O levantamento identificou 438 pesquisadores brasileiros ativos nos Estados Unidos, 140 no Reino Unido, 84 no Canadá, 63 na Alemanha e 36 na França – os cinco maiores destinos. Também foram mapeados cientistas na Austrália, Argentina, África do Sul e Japão, entre outros.

    No perfil do projeto no Twitter, o autor (anônimo) faz referência a outras iniciativas brasileiras na área, como a Rede Diáspora Brasil, da ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial), mais focada na inovação científica e tecnológica, e o estudo Diáspora Brasileira de Ciência, Tecnologia e Inovação nos Estados Unidos e Reino Unido, que está sendo desenvolvido por pesquisadores da Unicamp (Universidade de Campinas), sob coordenação da socióloga Ana Maria Carneiro.

    “A partir dos anos 2000 houve um crescimento da migração de brasileiros altamente qualificados para o exterior. Em 2010 havia 291.510 brasileiros altamente qualificados, considerando aqueles com nível superior, vivendo em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o que representa um aumento de 102% em relação a 2000”, diz um artigo dos pesquisadores da Unicamp, publicado no periódico acadêmico Ideias.

    O que é fuga de cérebros

    Na década de 2010, com a crise econômica e os congelamentos sucessivos em 2015, 2016 e 2017 dos orçamentos do MEC (Ministério da Educação) e do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações), pesquisadores brasileiros saíram do país em busca de oportunidades e investimentos no exterior. Foi o caso da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que migrou para os Estados Unidos, em 2016.

    “Tentei enquanto pude. Fui idealista enquanto ainda foi possível me agarrar aos fiapos que sustentavam a crença de que era viável ser cientista no Brasil. Mas já não acredito nisso – ao menos, não na área de biomédicas. [...] Competência, vontade e capacidade de inovação não nos faltam; só faltam condições”

    Suzana Herculano-Houzel

    neurocientista, em relato publicado na revista piauí

    Desde 2019, época do conturbado congelamento de verbas do governo federal, que afetou os programas de pós-graduação no país, a discussão sobre o fenômeno da “fuga de cérebros” voltou à tona com mais força.

    Expressão criada na década de 1960, o “brain drain” se refere ao êxodo de profissionais de alto nível educacional, motivados pela busca de melhores condições de trabalho no exterior. “Um hiato de investimento desincentiva o pesquisador. Sem empresas e universidades que absorvam esse profissional, ele vai embora do Brasil se tiver talento”, comentou Hernan Chaimovitch, ex-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), à rádio Jornal da USP no Ar, em março de 2019.

    “Vivemos uma realidade econômica desfavorável. Equivocadamente, em vez de aumentarmos os investimentos em ciência e tecnologia, como instrumento para superarmos a crise, os investimentos têm sido cortados. Essa diáspora de nossos talentos e lideranças é motivo de extrema preocupação, pois comprometerá o desenvolvimento e o futuro do Brasil”, escreveu Isaac Roitman, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília) e membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências), no Monitor Mercantil, em janeiro de 2020.

    Diversos motivos levam pesquisadores a deixar o país, que vão da falta de oportunidades profissionais a perseguição política e ameaças de morte, como ocorreu com os acadêmicos David Nemer, Débora Diniz e Márcia Tiburi entre 2018 e 2019. Ainda faltam, entretanto, estatísticas e dados sistematizados sobre as saídas que permitam dimensionar o fenômeno. Em outras palavras, quem são, por que foram embora e onde estão os cientistas brasileiros no exterior – daí a importância de iniciativas para mapear indivíduos e redes.

    “A ‘fuga de cérebros’ não precisa ser algo necessariamente ruim, desde que se saiba aproveitar essa valiosa rede formada. Quem mais ganha ou perde é algo que está sempre em disputa”, comentou o autor do projeto “Diáspora Científica do Brasil”, sob condição de anonimato, ao portal UOL.

    Cérebros em rede: uma visão positiva

    No artigo acadêmico Diáspora Brasileira de Ciência, Tecnologia e Inovação, os pesquisadores da Unicamp mencionam que, a partir dos anos 1990, a expressão “diáspora científica” emergiu para se referir à migração de pesquisadores brasileiros – em vez de apenas fuga de cérebros (“brain drain”), propôs-se pensar em circulação de cérebros (“brain circulation”) e rede de cérebros (“brain networking”), ou seja, na mobilidade e na mobilização de redes internacionais, compostas por cientistas e outros profissionais nos vários países.

    Diáspora científicaé o movimento de pessoal altamente qualificado de um país a outro, atraído por melhores oportunidades de trabalho ou afetados por crises econômicas ou políticas. Neste contexto, o fluxo de pesquisadores não é visto apenas como uma tendência negativa (a fuga), mas com potencial positivo para mobilizar redes internacionais que perpassem a comunidade científica do país de origem (o Brasil, no caso).

    “Na atualidade, em decorrência da globalização da economia e do desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, as distinções ou separação entre país anfitrião e país de origem já não são mais tão claras. Desse modo, o fluxo de talento humano ou a circulação de cérebros tornou-se possível porque os países estão cada vez mais interconectados, o que tem facilitado a mobilidade e a circulação de pessoas entre as nações. Essa realidade ocasionou o surgimento de carreiras sem fronteiras”, escrevem os autores.

    Nos Estados Unidos, os autores identificaram redes como Integra Brazil, Bay Brazil, Best (Brazilians in Engineering, Science and Technology), BEN (Brazilian Expert Network), Brasa (Brazilian Student Association) e SciBr (Science Brazil Foundation). No Reino Unido, a Abep-UK (Association of Brazilian Researchers and Postgraduate Students in the United Kingdom).

    Os autores propõem que, a fim de formular políticas públicas, os gestores valorizem a diáspora científica brasileira como “um instrumento importante para promover, por exemplo, a abertura da universidade brasileira ao mundo; como um elemento de prestígio para o Brasil.”

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