O que deve mudar no Outubro Rosa em meio à pandemia

Para evitar aglomerações, campanha de conscientização do câncer de mama deve contar com mais ações digitais em 2020. Realização de exames e tratamento foi prejudicada na crise sanitária

“Quanto antes melhor” é o slogan da campanha Outubro Rosa de 2020 da SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia). Neste ano, devido à pandemia de covid-19, a iniciativa ocorrerá de forma inteiramente online.

Segundo a SBM, o intuito é conscientizar as pessoas sobre a importância de adotar o quanto antes um estilo de vida saudável, com a prática de atividades físicas e alimentação adequada, a fim de evitar o desenvolvimento de doenças – entre elas, o câncer de mama.

De acordo com a entidade, esse cuidado é especialmente importante no momento atual, quando exames de rotina, rastreamento e tratamento foram prejudicados e ainda estão sendo retomados nas cidades brasileiras por conta da pandemia. Nesse cenário, deixar de identificar um tumor em estágio inicial pode resultar em diagnóstico tardio, o que reduz as chances de tratamento efetivo.

“A pandemia gera uma sensação de insegurança e muitas mulheres deixaram de ir ao consultório para fazer seus exames de rotina por não se sentirem seguras. Isso é natural, mas é preciso retomar o rastreamento o quanto antes para evitar casos avançados no futuro”, afirmou Vilmar Marques, presidente da SBM.

Em abril e maio foi registrada uma queda de 75% no movimento de centros hospitalares de oncologia (públicos e privados), em comparação com o mesmo período de 2019, indicam dados da SBM. Em abril, 70% dos procedimentos para retirada de tumores malignos em geral deixaram de ser realizados, apontam dados da SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica). Segundo reportagem da BBC Brasil, há casos de mulheres que não conseguiram acesso a exames e cirurgias na pandemia e de mulheres que preferiram esperar para buscar atendimento, por vontade própria, por medo do coronavírus.

“A SBM recomenda que nas regiões onde o pico da doença diminuiu, os casos estão estabilizados e existe certa flexibilização, as mulheres retomem seus exames, desde que seguindo as medidas de segurança. [...] Já nas regiões com alta incidência da pandemia, o mais correto é que as mulheres não consideradas urgentes, assintomáticas ou que fazem controle por alterações benignas aguardem o momento de pico passar. No entanto, no caso da mulher suspeitar de um nódulo palpável, ela não deve postergar e buscar atendimento imediatamente para fazer o diagnóstico”, diz a nota.

Câncer de mama é uma doença causada pela multiplicação desordenada de células da mama, formando um tumor. Há vários tipos de câncer de mama e, por isso, a doença pode evoluir de diferentes formas.

É o segundo tipo mais frequente em todas as regiões brasileiras (o primeiro é o câncer de pele não melanoma). De acordo com a estimativa de incidência do Instituto Nacional de Câncer, do Ministério da Saúde, divulgada em fevereiro, o Brasil deve registrar 66.280 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2020-2022.

285.165

é o número de mortos por câncer de mama entre 1980 e 2014 no Brasil

66.280

é o número estimado de novos casos de câncer de mama para 2020, segundo o Inca

29,7%

dos novos casos de câncer a cada ano no Brasil são de mama

O que é a campanha Outubro Rosa

Iniciado nos Estados Unidos na década de 1990, o movimento Outubro Rosa promove uma intensa campanha de prevenção contra o câncer de mama. No Brasil, entidades realizam campanhas de conscientização, debates e mutirões ofertando exames gratuitos anualmente, em ambulatórios, hospitais, universidades, carretas, estações itinerantes e até estádios de futebol.

A fim de evitar aglomerações neste ano, muitas ações de entidades e empresas devem se concentrar no formato digital. As iniciativas incluem lives, ações para arrecadar fundos e oferta online de produtos como máscaras pink ou personalizadas com a logomarca do Flamengo. O clube, aliás, também fez uma camisa especial para o Outubro Rosa de 2019, em parceria com a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama.

No dia 1º de outubro, a Fundação Laço Rosa vai iluminar o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, para marcar o início da campanha. Artistas como Ana Furtado, Adriane Galisteu e Maria Rita participam da live #DoarSalva. “O câncer não vai esperar a covid-19 passar e os números agora são mais alarmantes. Mais do que nunca. É necessário e urgente que todos ajudem a salvar vidas”, afirmou Marcelle Medeiros, presidente da fundação, referindo-se à necessidade de doações para organizações de combate ao câncer de mama.

Fenômeno de marketing digital, o Outubro Rosa anualmente engaja empresas de diversos segmentos, de marcas de lingerie a companhias aéreas e apps, com ações simbólicas (o uso de tons dessa cor), descontos e eventos. Já campanhas de entidades focam mais nas informações sobre as características do câncer, os fatores de risco (hereditários, hormonais e de estilo de vida) e a importância do diagnóstico precoce.

Instâncias federal, estaduais e municipais costumam participar da campanha. Até a noite de 30 de setembro, entretanto, nem o Inca nem o Ministério da Saúde divulgaram materiais da campanha de 2020 nos seus sites oficiais.

Nos últimos anos, a demora para o diagnóstico de câncer de mama aumentou, indica um estudo feito pelo Observatório de Oncologia, em parceria com o Instituto Avon, divulgado em setembro. Em 2014, uma mulher levava 28 dias, em média, entre a primeira consulta com um especialista no SUS (Sistema Único de Saúde) e o diagnóstico. Em 2018, o tempo subiu para 45 dias. Em 2019, o governo federal sancionou a lei nº 13.896, que busca garantir o diagnóstico de câncer no prazo de 30 dias após a solicitação médica.

Quais as controvérsias sobre a mamografia

Há controvérsias, porém, sobre quando devem se iniciar os exames periódicos, principalmente para mulheres que não têm histórico familiar, sinais ou sintomas suspeitos.

A Sociedade Brasileira de Mastologia, por exemplo, recomenda mamografias anuais para mulheres a partir de 40 anos, assim como o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

O Ministério da Saúde, por sua vez, recomenda que a mamografia de rastreamento (realizada quando não há sinais nem sintomas suspeitos) seja feita por mulheres de 50 a 69 anos, a cada dois anos.

A mamografia é uma radiografia das mamas feita por um equipamento de raios-X capaz de identificar alterações suspeitas de câncer antes do surgimento dos sintomas, ou seja, antes que seja possível sentir ao toque qualquer alteração nas mamas. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, há riscos e benefícios nesses exames.

De acordo com um estudo feito pelo Grupo Latino-Americano de Oncologia Cooperativa e pelo Grupo Brasileiro de Estudos do Câncer de Mama, 43% de 2.950 mulheres diagnosticadas entre 2016 e 2018 tinham menos de 50 anos no momento do diagnóstico. Entre as mulheres de menos de 40, 36,9% descobriram que estavam no estágio 3 da doença (considerado avançado).

Ouvido pela reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o médico Arn Migowski, chefe da Divisão de Detecção Precoce do Instituto Nacional de Câncer, considerou a amostra pequena, representando menos de 2% dos casos de câncer de mama no país. “Mamografia é um exame de acurácia ruim para mulher jovem por causa da maior densidade da mama. Isso aumenta os resultados errados e acaba irradiando muito a mulher desnecessariamente”, afirmou.

Benefícios

  • Detectar o câncer em estágio inicial e permitir um tratamento menos agressivo;
  • Reduzir a chance de morte por câncer de mama, em função do tratamento precoce.

Riscos

  • Obter resultados incorretos (falso positivo), o que gera ansiedade e pode levar a biópsias desnecessárias;
  • Detectar câncer existente, mas resultado normal (falso negativo);
  • Ser diagnosticada e submetida a tratamento, com cirurgia, quimioterapia e/ou radioterapia, de um tipo de câncer de crescimento lento, que não traria riscos à vida.

“Para os gestores do Sistema Único de Saúde é importante que a campanha [Outubro Rosa] não fique em torno da realização da mamografia”, disse o instituto federal em anos anteriores. Segundo o órgão, cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com a adoção de hábitos saudáveis.

Até a publicação deste texto, não foram identificados informes de mutirões de grande escala para mamografias neste mês. Iniciativas reduzidas foram divulgadas em Fortaleza e Porto Alegre.

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