A taxa de desemprego bateu recorde. O que vem agora

Nível de desocupação chega a 13,8% e é a mais alta da série histórica. O ‘Nexo’ ouviu economistas sobre o que esperar do mercado de trabalho brasileiro no curto e no longo prazo

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A taxa de desemprego foi de 13,8% no trimestre entre maio e julho de 2020, segundo dados publicados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quarta-feira (30). A taxa é a mais alta na série histórica do instituto, iniciada em 2012. São 13,1 milhões de brasileiros desempregados.

DESEMPREGO RECORDE

Trajetória da taxa de desemprego no Brasil. Alta histórica em meados de 2020, um pouco acima do início de 2017

Até então, a maior taxa de desemprego havia sido de 13,7%, no primeiro trimestre de 2017. Naquele momento, o Brasil vinha de um grave período de crise, após a recessão que foi do segundo trimestre de 2014 até o final de 2016.

A taxa referente ao período de maio a julho de 2020 foi divulgada como parte da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada todos os meses. A pesquisa entrevista sempre em torno de 211 mil domicílios de todo o território nacional, levando em conta localização e classe social, e coleta informações sobre trabalho e renda, entre outros itens. O risco de contágio pelo novo coronavírus levou o IBGE a fazer mudanças em suas atividades e calendário. A coleta de dados, antes feita através de visitas às casas selecionadas, passou a ser feita por telefone a partir da segunda metade de março.

A força de trabalho na pandemia

A força de trabalho também bateu recorde negativo no trimestre entre maio e julho, ficando em 95,2 milhões de pessoas. A força de trabalho é composta por pessoas em idade de trabalhar que estão trabalhando ou procurando emprego – ou seja, as ocupadas e as desocupadas. Para o IBGE, uma pessoa desempregada – ou desocupada – é aquela que não só tem idade para trabalhar (acima de 14 anos) e não está trabalhando, como também está procurando emprego e tem disponibilidade para assumir um posto.

Muita gente perdeu o emprego nos primeiros meses de 2020. No final de 2019, havia 94,6 milhões de pessoas trabalhando no Brasil. O dado divulgado nesta quarta-feira (30) revela que no trimestre entre maio e julho do ano seguinte elas eram eram 82 milhões – uma queda de mais de 12,5 milhões de pessoas. O restante da força de trabalho, mais de 13 milhões de pessoas, corresponde ao número de desempregados no país.

A baixa força de trabalho em 2020 revela que muita gente que perdeu o emprego na crise deixou de procurar trabalho – seja por medo de contágio pelo coronavírus ou por falta de oportunidades na cidade onde mora.

FORÇA DE TRABALHO EM BAIXA

Trajetória da força de trabalho no Brasil. Crescimento a ritmo constante entre 2012 e o início de 2020, mas queda abrupta após a chegada da pandemia

Ao mesmo tempo, a subutilização também está em alta. Esse indicador contempla não só os desempregados, como também quem está trabalhando menos horas do que gostaria e quem tem vontade de trabalhar, mas não procura emprego – seja por ter perdido a esperança de encontrar uma vaga ou por ter de assumir outros compromissos, como, por exemplo, cuidar dos filhos em casa.

A subutilização é uma forma de medir quanta mão de obra está sendo “desperdiçada” pelo país. Entre maio e julho de 2020, esse indicador chegou a seu nível mais alto da série histórica. A taxa de subutilização foi de 30,1% – uma alta considerável em relação a um ano antes, quando foi de 24,6%.

Duas análises sobre o mercado de trabalho no Brasil

O Nexo conversou com economistas sobre o que estado do mercado de trabalho em meio à pandemia indica para o futuro.

  • Renan Pieri, professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas)
  • Mariana Jansen, professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica)

O que podemos esperar para a taxa de desemprego nos próximos meses?

Renan Pieri Temos observado um aumento da taxa de desemprego nos últimos meses, o que tem a ver com dois movimentos. Por um lado, temos menos vagas de trabalho do que antes. E por outro lado, temos a flexibilização da quarentena, que faz com que as pessoas comecem a sair de casa e procurar uma oportunidade no mercado de trabalho.

Esse movimento de aumento da taxa de desemprego porque as pessoas estão procurando mais trabalho deve crescer nos próximos meses. Temos ainda espaço para [aumentar] esse movimento, uma vez que ainda continuam os programas do governo de suspensão de contrato de trabalho – e isso em algum momento deve ter um fim –, e a própria evolução da doença pode levar a um quadro de maior desemprego. Há a expectativa, também, do fim do auxílio emergencial, que segurou muita gente em casa. No caso dele ser substituído por um programa que pague menos (fala-se em R$ 300, até menos que isso), isso deve levar mais gente a procurar trabalho também.

No segundo semestre do ano, [historicamente] sempre temos mais vagas de trabalho . Isso deve ficar um pouco apagado [em 2020]. Falava-se, no início da crise, que a taxa de desemprego poderia chegar em torno de 20%. Isso obviamente foi contido por uma série de medidas de política pública – auxílio emergencial, suspensão de contrato de trabalho, redução de jornada – e o próprio movimento das pessoas que saíram da força de trabalho, e ficaram em casa esperando o pior passar.

Não acho que vamos chegar em uma situação tão absurda como essa taxa de 20% porque a economia já dá sinais de melhora, mas ainda tem um espaço significativo para aumento. Não vou me arriscar a dar um número exato, porque agora é muito difícil fazer essa conta.

Mariana Jansen A taxa de desemprego está diretamente ligada à própria expectativa que temos em relação à capacidade de reação da economia como um todo. O mercado de trabalho tem uma dinâmica em que, por mais que esteja diretamente relacionado ao quanto a economia cresce, tem sempre algum nível de resiliência.

Da mesma forma como às vezes demora um pouco para vermos o tamanho da queda que temos no mercado de trabalho, a recuperação dele demora mais para ocorrer do que os grandes dados macroeconômicos, como por exemplo produção industrial e produção do setor de serviços. Num primeiro momento, a tendência é que mesmo que a gente comece a ter um lento processo de recuperação – o que ainda é questionável – o mercado de trabalho ainda apresente uma deterioração ou uma recuperação muito lenta.

Conforme começarmos a ter uma recuperação, a tendência é que parte importante das pessoas que saíram da força de trabalho – que não estão procurando emprego neste momento, inclusive por não ter perspectiva de que haja emprego – voltem para a força de trabalho. Então a tendência no curto prazo é que a taxa de desocupação cresça ainda mais. Porque essas pessoas que tinham parado de procurar emprego vão voltar a procurar. Desse ponto de vista, na recuperação econômica, a tendência no curto prazo é que a taxa de desocupação cresça, mesmo que parte dessa população que volte para a força de trabalho seja absorvida.

A questão sobre a dinâmica do mercado de trabalho é que temos uma tendência compreensível de focar muito nossa análise na própria taxa de desemprego. Por motivos óbvios, é um número que tende a chamar muito nossa atenção. O problema é que temos uma questão pouco colocada e que talvez seja tão grave ou até mais grave do que isso, que é o tamanho da subutilização da força de trabalho. Estamos falando de uma taxa de mais de 30% da força de trabalho no Brasil hoje. Nunca tivemos nada próximo disso. Desse ponto de vista, é muito difícil colocar teto.

Os números não trazem nenhuma expectativa de melhora rápida ou significativa por parte do mercado de trabalho, principalmente se levarmos em conta não só o tamanho da taxa de desocupação, mas o tamanho da força de trabalho em potencial que não está sendo utilizada na economia brasileira. Eu diria que nos próximos meses as expectativas do mercado de trabalho tendem a ser muito frágeis – para não dizer efetivamente ruins.

Quais os impactos de longo prazo de um choque tão forte no mercado de trabalho?

Renan Pieri Os impactos são bastante fortes, principalmente para os mais jovens. Os salários que uma pessoa ganha no início da carreira são uma espécie de ancoragem para quanto ela vai ganhar depois. Se você parte de uma situação de ganhar menos – que é o que deve acontecer [com os jovens] agora, com o desemprego maior –, é mais difícil para você subir na carreira depois.

E ainda entre os mais jovens temos um problema de educação. Muita gente teve que sair da escola porque não podia pagar ou simplesmente porque não tinha aula. E seja por uma razão ou por outra, esse período sem aula também vai impactar bastante na formação de capital humano e na qualidade da mão de obra no país – assim como no mundo inteiro.

Além disso, há as empresas que quebraram. Ou seja, menos vagas no mercado de trabalho. O mercado ainda está bastante oscilante em termos das perspectivas de futuro, e isso faz com que tenhamos menos investimentos de longo prazo. E com menos investimentos, há também menos opções de trabalho no futuro. O ponto é: a economia está em uma trajetória de melhora em relação ao que foi o auge da pandemia, em abril e maio. Mas essa melhora ainda não é consistente – porque não sabemos exatamente a dinâmica da doença nos próximos meses – e também não é suficiente para repor os empregos que perdemos na crise. Vamos precisar de novas reformas e outras políticas públicas para gerar esses empregos.

Mariana Jansen Temos que levar em consideração que [os choques] talvez sejam ainda mais estruturais do que a própria pandemia e seus impactos. O Brasil já vinha passando por mudanças importantes, com relação ao mercado de trabalho, principalmente a partir das reformas trabalhistas que foram feitas no governo de Michel Temer [2016 a 2018]. Tem um impacto dessas mudanças legais que ainda não havia sido plenamente absorvido pelo mercado de trabalho brasileiro.

A tendência de longo prazo é que quando voltarmos a ter uma maior geração de emprego, possivelmente grande parte desse novo emprego que será gerado são vagas já nos marcos dessas novas leis trabalhistas. Depois desse momento de maiores demissões, os novos empregos terão menos direitos trabalhistas, com maior flexibilização. O que significa dizer que trabalhadores terão condições de proteção trabalhista um pouco mais frágeis.

A tendência é que o mercado informal de trabalho volte a crescer. E mesmo quando a geração de empregos se ampliar no mercado formal, será com uma proteção trabalhista mais frágil. No longo prazo, será uma mudança do próprio perfil do emprego e de como entendemos a relação de trabalho.

Isso não tem necessariamente a ver diretamente com a pandemia. Mas a pandemia acelera esse processo por ter gerado tanto aumento na desocupação. E no momento que esses empregos voltarem a ser gerados, eles tendem a vir com esses novos perfis.

O que pode ser feito para minimizar danos no mercado de trabalho? Como avalia a desoneração da folha, que está sendo discutida em Brasília?

Renan Pieri Dar subsídio para empresas agora – tributar menos – tem dois lados. Por um lado, a situação das empresas é complicada. Por outro, se a empresa já está em uma situação em que ela não consegue vender produtos, tem uma série de dificuldades e tem um passivo de dívidas muito grande, talvez isso [desonerar a folha] não seja suficiente. Ou talvez a empresa retenha aquele ganho e não contrate.

Aqui no Brasil, o trabalho formal é custoso. Há um custo para contratação do trabalhador, mas também tem um custo de demissão muito grande. Se houver um subsídio para a empresa, talvez ela segure o emprego. Isso é uma coisa que as empresas fazem: elas seguram os trabalhadores o máximo que elas podem, até porque o custo demissional é alto. A questão da desoneração da folha é que precisamos fazer um diagnóstico: o objetivo é segurar os empregos que já estão aí ou gerar novos empregos? Para gerar novos empregos, talvez não seja a melhor política agora.

Ainda volto para a questão central: tudo que causou esse movimento é a doença, é a pandemia. E a gente observa ainda uma certa inoperância dos poderes públicos no que diz respeito a isso. Isso é o que vai atrapalhar mais a dinâmica de emprego no Brasil.

Fora isso, temos que acelerar as reformas. A reforma tributária tem que sair para simplificar a vida das empresas e dar um respiro para o país.

Mariana Jansen A própria ideia de que uma política pública de geração de emprego esteja relacionada à desoneração da folha – embora seja um elemento importante – explicita o grau de fragilidade de como se pensa a política pública com relação a emprego. No fundo, é uma resposta muito pequena a uma questão tão complexa como a geração de emprego.

Claro que tem um potencial, mas é um potencial que parte de um pressuposto bastante duvidoso – ou pelo menos questionável – de que ao reduzir o custo da força de trabalho (ao desonerar a folha) isso automaticamente seria um elemento importante para o aumento da geração de emprego.

Nos últimos anos no Brasil, essa discussão tem sido feita de uma forma mais sistemática (principalmente a partir das reformas trabalhistas do governo Temer) que é colocar a responsabilidade primordial por uma menor geração de emprego no custo do trabalho. E o que vem acontecendo no Brasil desde antes da pandemia é que reduzir o custo de trabalho não gera automaticamente emprego. A relação não é tão automatizada. Depende de uma série de outros fatores, inclusive da própria dinâmica de crescimento da economia do país. Me parece uma visão bastante limitada que se continue insistindo na concepção do custo do trabalho como elemento crucial – às vezes é até colocado como único elemento – para se pensar o estímulo público para geração de emprego.

Há uma série de outros elementos que seriam fundamentais de serem refletidos, como a capacidade do setor público de influenciar o ritmo de crescimento da economia. As expectativas dos empresários com relação às possibilidades de crescimento econômico podem ser muito mais relevantes para que gerem emprego do que o efeito específico da desoneração da folha. E também [o governo deve] pensar de forma mais ampla sobre investimento público ou fomento ao investimento privado.

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