5 dilemas que a pandemia impõe à medicina num futuro próximo

Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade de Nova York, fala sobre preocupações com a covid-19 que vão além da busca por uma vacina

    A pandemia da covid-19 ultrapassou na segunda-feira (29) a barreira de 1 milhão de mortos em todo o mundo. Sem uma vacina à vista, apesar de pesquisas promissoras, cresce a preocupação dos cientistas da área médica com a dificuldade de controle de um vírus persistente, que não dá mostras de estar enfraquecendo.

    Um dos especialistas que vêm se debruçando sobre os desafios impostos pela pandemia é Arthur Caplan, professor de bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York. Na terça-feira (29), ele concedeu uma entrevista coletiva com jornalistas de várias partes do mundo, à convite do Departamento de Estado americano.

    Caplan se propôs a falar sobre “os dilemas que tiram o sono” de cientistas envolvidos em pesquisas relacionadas à pandemia. Na entrevista, ele fez um exercício especulativo sobre o futuro, numa tentativa de adiantar questões que devem ganhar relevância muito em breve. Abaixo, o Nexo lista os principais pontos apresentados por ele.

    As prioridades para a vacinação

    A expectativa pela descoberta de uma vacina – ou mais de uma – já abre um debate sobre os critérios de acesso à substância. “Os países que desenvolverem a vacina aplicarão, primeiro, em seus habitantes. Foi feito muito investimento e as pessoas querem ver retorno. Elas sentem que têm obrigações com suas próprias famílias, comunidades e países, antes de ajudar os outros”, diz Caplan.

    Embora considere isso natural, ele diz que antes de se pensar numa distribuição geral em algum país “é preciso garantir vacinas para o pessoal médico, para o pessoal que trabalha com o transporte de vacinas, para cuidadores de idosos, para pesquisadores, pessoal de lavanderia dos hospitais, de faxina”. Para Caplan, esse deveria ser considerado um grupo prioritário no mundo todo.

    Caplan lembra ainda que o sistema prisional é um grande “incubador de doenças, como no caso da tuberculose”. O setor deve ser olhado com atenção, mesmo que as pessoas possam ter uma visão desfavorável a respeito da prioridade de vacinação desse público.

    A perspectiva de um passaporte de imunidade

    O cientista acredita que, em pouco tempo, haverá empresas privadas exigindo a certificação de imunidade de seus empregados e de candidatos a vagas, seja por vacinação ou por ter anticorpos para o vírus, por contaminação prévia.

    Ele também diz que o setor de transporte – aviação comercial e cruzeiros marítimos, especialmente –, além da área de turismo e hotelaria, pode começar a selecionar seus clientes em função da imunidade.

    Essa exigência de uma espécie de passaporte vacinal já é feita pelos governos em casos de deslocamento internacional, como acontece com a febre amarela, por exemplo. A novidade, que impõe questões importantes na área de bioética, seria o avanço das empresas privadas nesse setor.

    “Acho que as pessoas andarão com certificados de vacinação no celular. Isso deve trazer questões interessantes sobre o direito de proteção de dados médicos”, prevê Caplan.

    O inverno no Hemisfério Norte

    A primeira onda da pandemia atingiu a Europa e os EUA no início de 2020. A França, por exemplo, iniciou lockdown em 17 em março, no fim do inverno passado, quando as temperaturas já estavam subindo. Agora, passados seis meses, os países da região terão, de dezembro a março, seu primeiro inverno completo com a covid-19.

    Caplan diz que a queda das temperaturas deve aumentar a concentração de pessoas em locais fechados, seja para fins de entretenimento ou de trabalho, o que facilita a transmissão do vírus.

    Países europeus, além dos EUA, do Japão, da Coreia e da Rússia podem ver a curva de contaminação subir mais aceleradamente. Em vários desses países, a explosão no número de novos casos já acontece, embora o número de mortos permaneça estável. Em outros, como Israel, a segunda onda é uma realidade, e o país teve de decretar novo lockdown nacional de três semanas, a partir de 17 de setembro.

    O perigo da gripe normal

    Todas as atenções estão voltadas para a covid-19, mas a gripe comum – que mata todos os anos entre 24 mil e 62 mil pessoas só nos EUA – segue seu curso, mesmo que desperte muito menos preocupação.

    Caplan diz que pode haver uma “maior incidência da gripe normal” em 2020 e 2021, pois “com o medo de contaminação pelo coronavírus, muitas pessoas estão colocando a vacinação contra a gripe comum no rodapé de suas prioridades”.

    A boa notícia, por outro lado, é que existe a possibilidade de que o uso de máscaras contra a covid-19 derrube essa previsão. Como ambas variáveis da doença se propagam da mesma forma, as políticas de contenção de uma delas pode servir para a outra.

    A desconfiança na ciência

    O debate político-ideológico polarizado sobre a pandemia fez com que um grande número de pessoas passasse a tratar a medicina não apenas com prudência – o que pode ser saudável –, mas com um nível de cinismo e desconfiança que pode ser nocivo, diz Caplan.

    Ele considera que isso é especialmente perceptível no que diz respeito ao uso de máscaras, ao distanciamento social e até mesmo ao interesse em tomar uma vacina quando e se ela vier a ser descoberta.

    “Há uma falta de confiança nos especialistas. Sinto que a política entrou muito na ciência. Há políticos dizendo que as pessoas deveriam se expor ao vírus para buscar uma imunidade de rebanho. Há embates em várias partes do mundo”, lamenta Caplan, prevendo consequências negativas desse movimento não apenas em relação à covid-19, mas também no controle de possíveis pandemias futuras.

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