O efeito da pandemia na saúde mental de adolescentes

Jovens podem sentir mais intensamente as restrições do período de isolamento social. Manter sono regulado e dialogar com familiares sobre emoções estão entre as ações que ajudam a mitigar sofrimento

    A pandemia de covid-19 pode produzir efeitos negativos na saúde mental de pessoas de todas as idades. Para os adolescentes, no entanto, o impacto das restrições e privações do período de isolamento social tende a ser ainda maior em relação a outros grupos.

    Para eles, circunstâncias como o fechamento das escolas, o confinamento com a família e a impossibilidade de encontrar amigos e colegas são as principais fontes dessas dificuldades e causam um impacto emocional específico em função das necessidades próprias ao bem-estar e ao desenvolvimento nessa fase da vida.

    Assim como a pandemia representa um hiato no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado de crianças, também “atrasa” experiências importantes para a formação emocional, sexual e social dos adolescentes.

    Embora ainda não haja uma estimativa precisa do aumento, profissionais de saúde e pesquisadores da área sinalizam que os casos de depressão, ansiedade e suicídio nessa faixa etária tem crescido durante a pandemia.

    Especialistas no tema avaliam que a carga se intensifica em relação aos jovens que já lidavam com transtornos mentais e outros problemas de saúde, que enfrentam condições socioeconômicas desfavoráveis e conflitos familiares.

    Como estão os adolescentes na pandemia

    Estudos indicam que a pressão emocional sobre os jovens vem crescendo desde o início da pandemia.

    Segundo uma pesquisa realizada pela YoungMinds, organização do Reino Unido voltada à saúde mental de crianças e jovens, 81% dos jovens viram sua saúde mental piorar (um pouco ou muito) durante a pandemia.

    Participaram cerca de dois mil jovens ingleses que já haviam buscado algum tipo de apoio psicológico na vida – 79% dos respondentes tinham entre 13 e 19 anos, e o restante de 20 a 25 anos.

    No Brasil, a pesquisa nacional “Educação não presencial na perspectiva dos alunos e famílias” vem acompanhando mais de mil crianças e jovens do ensino público por meio de entrevistas feitas por telefone com seus pais e responsáveis durante a pandemia. Ela é feita pelo instituto Datafolha, em parceria com a Fundação Lemann, o Itaú Social e a Imaginable Futures.

    Em sua terceira fase, que coletou dados em julho, a pesquisa detectou um aumento na porcentagem de jovens que sentem falta de motivação, dificuldade de manter rotina, além de tristeza, ansiedade e irritação em relação a maio, quando foi conduzida a primeira etapa da pesquisa.

    Outras pesquisas nacionais ainda em andamento tentam dar a dimensão do impacto da pandemia entre os jovens. É o caso da ConVid Adolescentes, realizada pela Fiocruz em parceria com a UFMG e a Unicamp, que pretende verificar como a pandemia de covid-19 está afetando a vida dos adolescentes de 12 a 17 anos.

    Há também o estudo Jovens na Pandemia, do Instituto de Psiquiatria da USP, que busca monitorar a saúde mental de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos no país. Ambos ainda estão abertos à participação das famílias e podem ser respondidos pela internet.

    Por que adolescentes podem sentir mais

    Há razões hormonais e psíquicas para a maneira como a experiência do isolamento social afeta os adolescentes, afirmou ao Nexo Sabine Pompeia, professora do Departamento de Psicobiologia da Unifesp.

    Entre os fatores que os tornam mais vulneráveis, segundo ela, está o fato de que eles são mais sensível ao estresse, apresentando uma resposta mais exacerbada a ele em relação aos adultos. Uma situação de estresse, ainda mais quando prolongada, pode desencadear um desequilíbrio mental mais sério no caso deles.

    Outro aspecto é que, devido a alterações hormonais e no funcionamento cerebral que ocorrem nesta fase, adolescentes já estão mais sujeitos ao surgimento de condições psiquiátricas como depressão, esquizofrenia e abuso de substâncias. “E, quando os transtornos começam nesta fase, tendem a ser mais graves ao longo da vida. Por isso é tão importante protegê-los quanto a isso, embora seja algo difícil neste momento”, disse a professora.

    O que fazer para mitigar a situação

    Para a professora da Unifesp Sabine Pompeia, as medidas tomadas para aliviar o problema dependem muito da situação socioeconômica dos jovens e das famílias.

    Ela aponta alguns cuidados básicos que contribuem para uma melhora do bem-estar e da condição mental dos adolescentes: manter o sono regulado, encontrar uma maneira de fazer exercícios, ter alguma exposição direta à luz solar diariamente e seguir uma rotina são ações que parecem banais mas têm um efeito importante sobre o humor e a capacidade de concentração.

    Do ponto de vista da relação com os pais ou da família que vive com os adolescentes, compreensão, paciência, diálogo sobre as emoções sentidas (por ambas as partes) são importantes.

    “De forma geral, eles devem reconhecer os sinais de estresse dos filhos, validar o sofrimento e transmitir acolhimento e segurança”, disse ao jornal Estado de S. Paulo Guilherme Polanczyk, professor do Departamento de Psiquiatria da USP que está a frente do estudo Jovens na Pandemia.

    Quando não for possível atenuar atenuar os efeitos sentidos pelos jovens, especialistas enfatizam a importância da identificação precoce dos sintomas de transtornos mentais – como irritabilidade, insônia, tristeza e agitação – pela família e o acesso a tratamentos adequados.

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