Projeções para a pandemia: o risco de um ‘dezembro mortal’

Universidade americana projeta cenários para a evolução das mortes pelo novo coronavírus até o fim de 2020 em cada país

Um estudo publicado no dia 3 de setembro pela Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, nos EUA, projeta um “dezembro mortal” em 2020, capaz de elevar o número de mortos pela pandemia da covid-19 no mundo dos atuais 971 mil para até 4 milhões.

Esse crescimento corresponde à projeção do “pior cenário” possível. Esse pior cenário seria caracterizado pela manutenção do uso de máscaras nos moldes atuais – que em muitos países deixou de ser um uso disseminado ou mesmo obrigatório – e pelo relaxamento das medidas de distanciamento social, da maneira como vem acontecendo na maior parte do mundo.

O estudo projeta ainda outros dois cenários, nos quais a adoção de medidas sanitárias mais estritas poderiam amenizar esse “dezembro mortal”.

Projeções sobre a pandemia feitas por esse mesmo instituto se mostraram certeiras no passado

No melhor dos cenários, as mortes por covid-19 passariam dos atuais 971 mil para 2 milhões até o fim do ano. Para que isso acontecesse, seria necessário que o uso de máscara se tornasse “quase universal” e os governos impusessem severas regras de distanciamento social toda vez que o número de mortos chegasse a oito por milhão em seus países. A média global em 23 de setembro era de quatro por milhão. Nos EUA, na mesma data, era de 20 por milhão. No Brasil, de 21 por milhão.

Os pesquisadores apresentam ainda um terceiro cenário, classificado por eles como o “mais provável”. Nesse terceiro cenário, o número de mortes na pandemia passaria dos atuais 971 mil para 2,8 milhões até o fim de 2020. Para que isso ocorra será necessário que o uso de máscaras seja universal e “as medidas de mitigação [da transmissão do vírus] permaneçam inalteradas” – ou seja, com distanciamento social, sem abertura de praias e eventos públicos de grande concentração.

O departamento da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington responsável por essas projeções é o mesmo que produziu os modelos usados pela Casa Branca para estimar o alcance da pandemia nos EUA, com dados que se mostraram precisos.

Riscos e oportunidades

Os autores do estudo chamam a atenção para o fato de esses três cenários representarem ao mesmo tempo uma “previsão assustadora” e um “mapa da mina para aliviar a covid-19”. Tudo depende, segundo eles, das medidas que serão tomadas por governantes e indivíduos nos próximos meses.

“Estamos diante do prospecto de um dezembro mortal, especialmente na Europa, na Ásia Central e nos EUA, mas a ciência é clara e as evidências, irrefutáveis: uso de máscara, distanciamento social e limitação aos eventos sociais são atitudes vitais para prevenir a transmissão do vírus”

Christopher Murray

diretor do IHME (Instituto Para Métricas e Avaliações em Saúde, em português), da Faculdade de Medicina de Washington, em comunicado de 3 de setembro de 2020

A diferença entre o “pior cenário” e o “melhor cenário” chega a ser de 2 milhões de vidas perdidas no total acumulado desde o início da pandemia. Em todo caso, todos esses cenários mostram que haverá um aumento significativo no número de mortos em nível mundial, o que contradiz as teses mais otimistas, segundo as quais o ciclo da pandemia estaria chegando espontaneamente ao fim.

Os autores do estudo alertam para a tentação de apostar na “imunidade de rebanho”. Essa imunidade seria atingida no momento em que a maior parte da população já tivesse sido exposta ao vírus. O “pior cenário” demonstra que o preço dessa via seria o de perder 4 milhões de vidas.

Qual o cenário para o Brasil

O estudo é apresentado por seus autores como “o primeiro com projeções globais por país”. Para cada nação, foi feita uma projeção de número de mortos, considerando cada um dos três cenários – o pior, o melhor e o mais provável.

O Brasil aparece nas projeções. O país tem registrado até 23 de setembro mais de 138 mil mortos (segundo maior número do mundo, atrás apenas dos EUA) e mais de 4,5 milhões de contaminados (atrás dos EUA e da Índia, nesta ordem).

No pior cenário, o Brasil passaria a contar 177 mil mortos em vez dos 138 mil atuais, até o fim de 2020. Se isso se confirmar, o país cairá da segunda posição que ocupa atualmente para a quinta. Na projeção do estudo, Índia, EUA, Japão e Espanha – nesta ordem – teriam um número absoluto de mortos maior que o do Brasil até o fim do ano.

No melhor cenário, o total de mortos no país passaria dos atuais 138 mil para 160 mil, ficando em terceiro lugar, atrás de Índia e EUA, nesta ordem. Já no cenário mais provável, o número total de mortos seria de 174 mil mortos, novamente atrás de Índia e EUA.

Quando adotada a conta de número de mortos por cem mil, o Brasil sai do ranking dos dez países mais letais. A lista passa a ser tomada por países de menor população, como Holanda, Espanha, Ilhas Virgens (território americano no Caribe), Japão, Suécia, Romênia, Israel, Moldávia e Montenegro, além dos EUA, que mantém presença em ambas listas, tanto de mortes percentuais quanto absolutas.

Chegada do inverno preocupa

Além dos fatores ligados ao uso de máscaras e às práticas de distanciamento social, os pesquisadores chamam atenção para o perigo da chegada do inverno no Hemisfério Norte.

De acordo com eles, o vírus da covid-19 tem comportamento semelhante ao do vírus da pneumonia, no que diz respeito às baixas temperaturas.

Por isso, o fim da primavera nos países do norte (encerrada em 21 de junho), a chegada do outono iniciado na terça-feira (22) e principalmente a ocorrência das baixas temperaturas do inverno (a partir de 21 de dezembro) devem contribuir para o risco de um “dezembro mortal” que consta no pior cenário apresentado pelos pesquisadores.

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