As dificuldades de mulheres e asiáticos com máscaras cirúrgicas

Estudo mostra que proteção usada por profissionais de saúde é menos adaptável à forma do rosto desses grupos, o que diminui sua eficácia

    O uso de EPIs (equipamentos de proteção individual) é imprescindível para garantir a segurança dos profissionais de saúde durante a pandemia do novo coronavírus.

    Entre esses equipamentos, as máscaras de proteção respiratória e respiradores usados por médicos e enfermeiros cumprem o papel de reter gotículas e filtrar o ar, minimizando o risco de contágio pelo vírus mesmo a uma curta distância de um paciente infectado.

    Os dois tipos de equipamento são voltados para o uso médico-hospitalar e precisam atender a normas técnicas e sanitárias. A diferença é o nível de proteção: os respiradores como N95 e N99 garantem uma vedação maior em relação às máscaras cirúrgicas, porque, além de gotículas, filtram também aerossóis (partículas menores que permanecem suspensas no ar) que contêm o vírus.

    O problema é que esses equipamentos não se adaptam ao rosto de todas as pessoas igualmente. Um estudo publicado em 15 de setembro no jornal científico Anaesthesia, ligado à Associação de Anestesistas do Reino Unido e Irlanda (AAGBI, na sigla em inglês), indica que a taxa de ajuste adequado de máscaras cirúrgicas e respiradores é menor no rosto de pessoas do sexo feminino e asiáticos.

    Ao lado da falta de fornecimento de EPIs por instituições de saúde aos profissionais durante a pandemia, o uso de equipamentos de proteção facial cujo ajuste não foi devidamente verificado antes da exposição é apontado como uma das possíveis causas de infecção dos profissionais de saúde.

    Assinado por pesquisadores da Universidade da Austrália Ocidental, o estudo é uma revisão de artigos científicos publicados de 1980 a 2020 a respeito de máscaras de proteção respiratória e respiradores, como é o caso do Sars-Cov-2 (nome do novo coronavírus). Seu objetivo foi avaliar a importância dos testes de verificação da vedação desses equipamentos para garantir a proteção dos profissionais de saúde.

    Os métodos para avaliar o ajuste

    Dois tipos de teste de ajuste das máscaras e respiradores usados por profissionais de saúde são levados em conta pelo estudo e podem aumentar a eficácia dos equipamentos de proteção.

    O primeiro, apontado como mais importante, é um protocolo de experimentos qualitativos e quantitativos com os equipamentos que deveriam ser realizados por instituições de saúde para definir o modelo mais adequado para os indivíduos da equipe médica. Vários países têm recomendações ou mesmo leis para a realização regular desse tipo de teste.

    O estudo reconhece que, durante uma pandemia, outros fatores como o preço e a disponibilidade dos equipamentos acabam se sobrepondo à questão primordial do ajuste.

    O segundo tipo, também necessário mas não capaz de substituir o primeiro, são as formas de checagem que o próprio profissional de saúde deve adotar ao colocar o equipamento, buscando regulá-lo melhor no rosto ou trocar por outro mais adequado se houver possibilidade.

    Uma das técnicas para verificar a vedação da máscara é colocar as duas mãos (devidamente higienizadas) sobre o equipamento e expirar rapidamente – se não houver vazamento, a pessoa sentirá um aumento de pressão dentro da máscara ou respirador.

    Os fatores que influenciam no ajuste

    O estudo afirma que o tamanho e a forma da máscara ou respirador em relação às dimensões do rosto de quem a utiliza são fundamentais para a qualidade do ajuste do equipamento, ou seja, para a ausência de vazamento de ar. A vedação total previne que o profissional se infecte com o vírus.

    Com relação à N95, por exemplo, experimentos realizados nos EUA para certificar sua vedação apresentaram uma sub-representação de mulheres e pessoas asiáticas, o que pode explicar o fato do equipamento não se adequar tão bem ao rosto de pessoas esses grupos.

    Uma pesquisa citada pelo estudo aponta que as máscaras se ajustam corretamente em 95% dos homens versus 85% das mulheres. Outra indica que a proteção se adaptava a 90% de pessoas caucasianas, contra 84% de pessoas de origem asiática. Mais baixa ainda foi a taxa de ajuste encontrada para as mulheres asiáticas, de 60%.

    Outros fatores como idade, peso e características fisionômicas individuais também podem influir no encaixe da máscara no rosto.

    Produtos voltados para o ‘homem padrão’

    uma série de exemplos de produtos que “discriminam” mulheres e pessoas de etnias não brancas por terem sido em geral projetados por homens caucasianos e testados nesse mesmo grupo.

    O problema passou a ser mais discutido em anos recentes e vai dos cintos de segurança a medicamentos, que podem ter eficácia menor em mulheres por terem sido pensados para homens, por exemplo.

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