A versão de Bolsonaro na ONU para as queimadas e a pandemia

Na Assembleia Geral, presidente brasileiro ataca imprensa, cita ‘interesses escusos’ internacionais e diz que recordes de incêndios na Amazônia são fruto de queima de roçado por índios e caboclos

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursou na terça-feira (22) na 75ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Em seu discurso, o presidente brasileiro disse, sem mostrar evidências, que o país é vítima de uma campanha mundial de desinformação.

Por causa da pandemia, o discurso de Bolsonaro, assim como dos demais chefes de Estado e de governo, foi gravado e transmitido por teleconferência. A transcrição da íntegra do discurso foi publicada pela ONU logo em seguida.

Desde 1955, os presidentes brasileiros inauguram a série de discursos na Assembleia Geral. Em sua estreia, em 2019, Bolsonaro havia feito um pronunciamento fortemente ideológico, no qual atacou o socialismo e proclamou a fundação de um “novo Brasil”, sob seu governo de extrema direita.

Em 2020, o discurso se mostrou uma defesa às críticas que seu governo recebe pela gestão da pandemia e do meio ambiente, nos quais o Brasil apresenta índices alarmantes.

‘Nossa casa está queimando’, de novo

Ainda antes da fala de Bolsonaro e dos chefes de Estado e de governo, o secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, disse, no púlpito, diante de um plenário quase vazio, que “nosso planeta está queimando”, em referência aos incêndios florestais.

A frase de Guterres ecoou mensagem semelhante que havia sido lançada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, quando criticou Bolsonaro pelos incêndios na Amazônia em 2019. Originalmente, a formulação “nossa casa está queimando” foi usada pela primeira vez em 2002 pelo então presidente francês Jacques Chirac na Rio+10, encontro ambiental realizado do Rio de Janeiro em 2002.

Quais os fatos sobre as queimadas

Entre janeiro e agosto de 2020, mais de 3,4 milhões de hectares do bioma amazônico queimaram. Isso equivale a 22 vezes o tamanho da cidade de São Paulo e representa um aumento de 100% de devastação na comparação com dados de 2013, e de 84% na comparação com dados de 2018.

No Pantanal, os incêndios no ano de 2020 bateram todos os recordes de devastação desde 1998, quando o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) deu início à medição das queimadas. Desde o início do ano, foram registrados 16 mil focos de incêndio na região. O recorde anterior era de 2002, com 12.500 focos.

Qual a explicação de Bolsonaro

Em seu discurso na Assembleia Geral, o presidente brasileiro disse ser vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, movida por “instituições internacionais” que, de acordo com ele, agem junto com “associações brasileiras aproveitadoras e impatrióticas”.

Bolsonaro insinuou que essa campanha é movida por interesses econômicos, pois “a Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima”. Na versão do presidente, “o Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos. Por isso, há tanto interesse em propagar desinformações”.

Sobre as queimadas, Bolsonaro disse que a Floresta Amazônica é úmida demais para queimar. De acordo com ele, “os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”.

O Observatório do Clima, que manteve um serviço de checagem em tempo real das declarações do presidente, refutou essa informação. De acordo com a organização, grande parte das queimadas acontecem em áreas de desmatamento recente, onde a floresta é antes derrubada para que o fogo prepare a terra e, em seguida, para a formação de pastagem, usada pela pecuária de expansão.

O presidente brasileiro disse ainda que, no caso do Pantanal, “as grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”. A agência de checagem de informações Aos Fatos refutou esse argumento, lembrando que “imagens de satélite mostram que o início das queimadas se deu em quatro fazendas da região”, de acordo com informações da Polícia Federal noticiadas pelo Fantástico, da Rede Globo.

O discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral serviu ainda de resposta aos governos europeus que se opõem à conclusão de um ambicioso acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O presidente brasileiro apresentou o país como o “maior produtor mundial de alimentos”, como líder mundial na preservação ambiental e como detentor da “matriz energética mais limpa e diversificada” do mundo.

Algo que não se se sustenta, segundo dados do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico coletados pela agência Aos Fatos. Dados do primeiro mostram que o Brasil é o 30º país com mais área florestal conservada e, da segunda, que há outros países com matriz energética menos dependente de fontes não-renováveis.

Qual o contexto da 75ª Assembleia Geral

A Assembleia Geral de 2020 ficará marcada pelos efeitos da pandemia da covid-19. Na data de abertura da sessão, o mundo contabilizava mais de 30 milhões de casos da doença e mais de 959 mil mortes, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Além da tragédia humanitária, a pandemia também provocou retrocessos econômicos, com previsão de encolhimento de pelo menos 6% da economia global em 2020.

Na área de segurança, o contexto é marcado pelo aumento das tensões entre EUA, China e Rússia, além da permanente tensão nuclear com o Irã e a Coreia do Norte.

No plano político, o mundo testemunha o crescimento da extrema direita, do nacionalismo e da xenofobia. Líderes populistas questionam a ordem internacional construída no pós-Guerra, exacerbando as tensões entre a soberania nacional e a governança global.

O meio ambiente no discurso anterior, em 2019

No discurso de 2019, Bolsonaro também falou de meio ambiente. Na ocasião, ele acusou ONGs internacionais e governos de outros países de manterem uma posição colonialista e intervencionista em relação ao Brasil.

O primeiro discurso do presidente brasileiro na Assembleia Geral ocorreu apenas um mês depois de o país ter sido alvo de críticas do presidente da França, Emmanuel Macron, pelas queimadas na Amazônia.

À época, como agora, o Brasil recebia críticas internacionais por não fazer o bastante pela preservação do meio ambiente. Bolsonaro disse na ONU que as críticas eram “sensacionalistas”.

A novidade da covid-19

Além das questões ambientais, o presidente brasileiro também dedicou boa parte do discurso a explicar como o país lida com a pandemia da covid-19. No momento em que o discurso era transmitido, o Brasil ocupava a segunda posição em número de mortos (mais de 137 mil), atrás apenas dos EUA.

Depois de lamentar as mortes, o presidente disse que foi impedido de agir contra a pandemia por uma decisão judicial que delegou poderes mais amplos aos estados e municípios. A decisão do Supremo Tribunal Federal foi, na verdade, de que Bolsonaro respeitasse a autonomia dos demais entes da federação, trabalhando de forma coordenada com eles.

Bolsonaro também culpou a imprensa brasileira, que, segundo ele, “politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população” e causando “caos social”. Criticou as campanhas pelo isolamento social, apontadas pela Organização Mundial da Saúde como a principal medida para deter o contágio da doença e reduzir o número de mortes.

O auxílio emergencial foi citado como “um dos maiores [programas sociais] do mundo”, que teria distribuído “aproximadamente US$ 1.000 para 65 milhões de pessoas”. As nove parcelas somadas do benefício – cinco de R$ 600, valor atingido após uma articulação do Congresso; e quatro de R$ 300 – somaram, na verdade, US$ 771 de acordo com o câmbio de segunda-feira (21).

Ele mencionou apenas uma vez a hidroxicloroquina – substância promovida pelo presidente, mesmo sem eficácia comprovada pela ciência – ao queixar-se do aumento no preço do produto no mercado internacional.

Menos mensagens ideológicas

Bolsonaro concluiu o discurso dizendo que o Brasil é um país “cristão e conservador”. Ao contrário do discurso de 2019, no entanto, não houve nenhuma menção à palavra “socialismo”.

Embora tenha citado a Venezuela e o “bolivarianismo”, o presidente deu menos ênfase à esquerda, à situação em Cuba e ao PT, que estiveram no eixo central da mensagem entregue à Assembleia Geral no ano anterior.

O que é a Assembleia Geral

A Assembleia Geral das Nações Unidas é a instância na qual todos os 193 Estados-membros da organização têm assento, voz e voto. Ela se reúne uma vez por ano, na sede da ONU em Nova York, nos EUA.

Este ano, os trabalhos considerados “de alto nível” ocorrem entre 15 de setembro e 5 de outubro, onde se discute uma ampla agenda de interesses globais, que vão do meio ambiente à saúde, passando pela paz e segurança, direitos humanos e questões de gênero. O debate geral entre os representantes dos Estados-membros vai de 22 a 26 de setembro.

Todos os anos, é um escolhido um tema para a Assembleia Geral. Em 2020, este tema é: “O futuro que queremos, as Nações Unidas que precisamos: reafirmando nosso compromisso coletivo com o multilateralismo – confrontando a covid-19 por meio de uma ação multilateral efetiva?”

A ONU foi fundada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) como uma instância de convergência e diálogo entre todos os países do mundo. Embora sua pretensão seja de dar voz igual a todos os países, sua organização, na prática, reflete a hegemonia das grandes potências, ao concentrar no Conselho de Segurança – formado por EUA, China, Rússia, França e Reino Unido, como membros permanentes – as decisões que dizem respeito ao uso da força (pressões diplomáticas, sanções, embargos e guerras).

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