Como a pandemia leva museus a venderem seus acervos nos EUA

Instituições privadas vendem obras secundárias de suas coleções para poderem pagar as contas. Decisão ‘quebra um tabu’ no setor

    O Brooklyn Museum – um dos maiores museus americanos, situado no bairro homônimo de Nova York – anunciou que vai leiloar 12 obras de seu acervo para levantar fundos. O leilão, que deve ocorrer em outubro, é fruto de uma decisão tomada para remediar as perdas decorrentes da pandemia.

    Além dele, museus de outros estados americanos também estão tomando a mesma decisão: se livrar de obras consideradas secundárias para levantar fundos vitais à manutenção das maiores joias de seus acervos.

    A viabilidade econômica dos museus nos EUA foi posta à prova com os fechamentos provocados pela pandemia. Mesmo depois das reaberturas parciais e paulatinas, as regras de distanciamento social restringem as possibilidades de visitação. Por fim, o fechamento das fronteiras e a diminuição do turismo estrangulou ainda mais o setor. Com isso, a diminuição da receita com a venda de entradas e souvenirs impactou os orçamentos.

    O problema foi mais sentido nos EUA do que na Europa porque a participação do poder público no custeamento dos museus americanos é menor. O Brooklyn Museum, assim como as principais instituições do setor nos EUA são todas privadas.

    Entre as obras a serem leiloadas pelo Brooklyn Museum, estão pinturas do século 16 feitas pelo alemão Lucas Cranach e quadros do pintor francês Gustave Coubert, do século 19.

    Uma histórica quebra de tabu

    Robin Pogrebin, escritora e repórter especializada na cobertura de instituições culturais no jornal americano The New York Times, escreveu quarta-feira (16) que a decisão tomada pela direção dessas instituições representa uma “quebra de tabu”.

    De acordo com Pogrebin, há um entendimento estabelecido ao longo dos anos pela Associação de Diretores de Museus de Arte dos EUA de que a venda de obras só se justifica para a compra de novas obras. Vender parte do acervo para custear o próprio financiamento do museu é, segundo ela, a quebra de um paradigma até então bem estabelecido no setor.

    US$ 40 milhões

    é o valor que o Brooklyn Museum pretende arrecadar e aplicar, para gerar rendimento estável de US$ 2 milhões por ano

    Mesmo assim, Pogrebin afirma que há um consenso de que a pandemia arrastou instituições culturais para além do limite de perdas que elas poderiam suportar.

    Por isso, em abril, a Associação de Diretores de Museus anunciou que não faria censuras nem aplicaria sanções contra diretores que decidissem vender parte do acervo dos museus que administram. O órgão da sociedade civil tem amplo poder de fiscalização no setor nos EUA, mas deu luz verde para o arremate dos acervos a busca por recursos vitais.

    “Essa é uma crise sem precedentes em nossas vidas, com implicações e com uma duração que nos supera. De um lado, não há horizonte visível para o fim da pandemia, para que a economia volte a crescer e para que a vida volte ao normal. De outro, os museus, que costumam planejar suas exposições com anos de antecedência, antecipando tantos os custos quanto as receitas para essas iniciativas, não podem trabalhar com tamanha incerteza”, disse a presidente da associação, Barbara B. Taylor, em comunicado publicado pela Associação dos Diretores de Museus no dia 15 de abril.

    O papel dos museus na pandemia

    A percepção é corroborada pela diretora do Brooklyn Museum. Em declaração dada ao The New York Times, Anne Pasternak, que assumiu o cargo em 2016, disse que a venda das obras “é a melhor coisa que a instituição tem a fazer de maneira a manter a longevidade e os cuidados com seu acervo”.

    “Os museus são particularmente importantes no atual contexto. Nós [como museus] somos pilares fundamentais de nossas sociedades e estamos entre as poucas instituições realmente democráticas, que representam uma possibilidade para que as pessoas estejam juntas”, disse Pasternak numa videoconferência de acesso público sobre “o papel transformador da arte durante pandemia”.

    Ela relembrou que o Brooklyn Museum, criado no século 19, sobreviveu a crises sociais e financeiras provocadas no passado pela Guerra Civil Americana (1861-1865), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Gripe Espanhola (1918), mantendo-se capaz de “reagir uma e outra vez contra essas adversidades”.

    O Brooklyn, bairro onde o museu dirigido por Pasternak está instalado, foi um dos locais mais atingidos pelos casos da covid-19 nos EUA. Ela considera que esse é um fator simbólico adicional para que a instituição emerja com vida dessa crise, como uma forma de alento e força à comunidade onde está instalado.

    Acervos no sótão

    Confrontados com a crise, grandes museus privados americanos tiveram de tomar a difícil decisão sobre quais obras vender e quais obras preservar em seus acervos.

    A decisão final foi tomada pelos conselhos curadores de cada instituição. Esses conselhos trabalharam apoiados por especialistas do mercado de arte.

    No fim, a escolha das obras a serem vendidas acabou por expor uma outra questão: a do alto custo de estocagem e de manutenção de uma parte do acervo que pode passar décadas sem ser vista pelo público, guardada em depósitos climatizados.

    O acervo que o Brooklyn Museum mantém guardado seria suficiente para criar outros museus – de menor tamanho, mas de alta qualidade – em qualquer outra parte do mundo.

    Na mesma toada, o Museu de Arte de Newfield, em Indianapolis, sinalizou 20% dos 54 mil itens de seu acervo como aptos para serem vendidos. A maioria dos itens é mantida há anos em estoques, longe dos olhos do público.

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