Como a covid-19 pode afetar as eleições municipais

Ao ‘Nexo’, dois cientistas políticos avaliam como as restrições na campanha corpo a corpo e o impacto da pandemia nas cidades podem influenciar a escolha de prefeitos e vereadores em 2020

O avanço da pandemia do novo coronavírus no Brasil levou a mudanças estruturais no calendário das eleições municipais de 2020. O primeiro turno passou de 4 de outubro para 15 de novembro. Nas cidades em que houver segundo, o pleito foi adiado para 29 de novembro.

O impacto da crise sanitária, no entanto, vai além das datas. As medidas necessárias para diminuir o contágio do vírus, como a proibição de aglomerações, tendem a afetar um processo que normalmente se baseia em ações presenciais. É o caso de comícios, atos públicos e a campanha corpo a corpo, nos quais abunda o tipo de contato físico que hoje deve ser evitado, como apertos de mão e abraços.

Esse cenário já foi visto nas convenções partidárias, que definiram candidatos e coligações. Iniciado em 31 de agosto, o processo de definição de nomes se encerrou na quarta-feira (16). Salvo exceções, as siglas priorizaram atividades virtuais para evitar aglomerações. Os partidos que promoveram ações presenciais tentaram restringir a presença de filiados ao mínimo possível.

Essa é uma das recomendações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para 2020. O tribunal tem feito uma série de orientações sanitárias para partidos e candidatos sobre o pleito que vai eleger prefeitos e vereadores. As determinações agora visam o início oficial da campanha eleitoral em 27 de setembro. Elas incluem:

  • Em reuniões presenciais, calcular o número de pessoas presentes de acordo com a capacidade da sala, de modo a permitir distanciamento mínimo de 1 metro entre as pessoas;
  • Evitar promover eventos com grande número de pessoas;
  • Em eventos de campanha, utilizar espaços amplos e abertos para contato com outras pessoas e evitar aglomerações;
  • Não servir refeições ou realizar outros eventos que impeçam o uso de máscaras faciais;
  • Evitar a distribuição de material impresso de campanha.

Há também expectativa para entender como a pandemia vai impactar o debate político. A covid-19 matou 135 mil pessoas no país até sexta-feira (18). Ainda que esteja em desaceleração, a pandemia continua a registrar um número diário alto de vítimas e novos casos no país.

Eleições municipais são pautadas por problemas locais e, nas cidades, o avanço da doença restringiu a circulação de pessoas, interrompeu aulas, afetou a economia e gerou desemprego.

Em paralelo, enquanto adotava um remédio sem eficácia comprovada como principal bandeira contra a covid-19, o presidente Jair Bolsonaro criticou gestores municipais e estaduais que adotaram medidas restritivas contra a doença para tentar conter o contágio, trazendo a estratégia de contenção da crise sanitária para o centro do debate político em 2020.

O digital e a preocupação com notícias falsas

Com as restrições físicas, candidatos e partidos devem migrar suas campanhas para a internet e explorar um campo que foi decisivo nas eleições presidenciais de 2018.

“A campanha deve ter um elemento digital fundamental, onde quem está à frente nas redes terá vantagem na disputa, com destaque para as lives, assembleias e reuniões virtuais”, disse ao UOL Josué Rocha, coordenador da campanha do PSOL à prefeitura formada por Guilherme Boulos e a ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina.

Candidato à reeleição para vereador pelo PSDB em São Paulo, Daniel Annenberg afirma que a sua campanha vai ampliar ações digitais. “Entendemos que ainda não é o momento das pessoas estarem circulando na rua, ainda mais recebendo material repassado de mão em mão. Vamos diminuir a quantidade de material físico e concentrar na divulgação de material em formato digital, disse ao Nexo.

O pleito que levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto em 2018 ficou marcado pela disseminação de notícias falsas nas redes sociais e em aplicativos de troca de mensagens como o WhatsApp.

Desde março de 2019, o Supremo Tribunal Federal investiga uma rede usada para atacar autoridades, entre as quais os próprios ministros da corte. Em setembro do mesmo ano, foi aberta uma CPI mista no Congresso dedicada ao tema.

Atualmente, há um projeto de lei no Congresso Nacional que pretende coibir a propagação de notícias falsas, mas a proposta é alvo de forte debate. Críticos, como o presidente Bolsonaro, afirmam que a medida pode cercear a liberdade de expressão e servir de censura na rede.

Para as eleições de 2020, O TSE preparou uma campanha que está circulando em rádios e canais de TV para informar a população sobre o compartilhamento de conteúdo.

O impacto da pandemia nas eleições sob análise

O Nexo ouviu dois cientistas políticos para entender como partidos e candidatos serão afetados pelas restrições impostas pela covid-19. São eles:

  • George Avelino, professor da FGV Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo), onde coordena o Cepesp (Centro de Política e Economia do Setor Público)
  • Paulo Peres, professor do programa de pós-graduação em ciência política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Como a pandemia de covid-19 vai influenciar as estratégias de campanha em 2020? Quem ganha e quem perde com essa situação?

George Avelino Como os que precisam mais de campanhas eleitorais são os desafiantes aos atuais detentores de cargos, ao restringir as estratégias eleitorais corpo a corpo, a pandemia deve favorecer os que já estão no poder, os incumbentes. Em outras palavras, devemos observar taxas de reeleição maiores que as anteriores.

Outro ponto é que, dadas as circunstâncias, as redes sociais devem ser importantes formas de divulgação das candidaturas; mas, como em outros casos, isso vai funcionar melhor para os candidatos que já têm desenvolvido uma atuação na internet.

Paulo Peres Penso que o impacto da epidemia nas estratégias de campanha será no sentido de aprofundar o processo que já vinha acontecendo nas últimas eleições: o uso cada vez mais intenso das redes sociais como meio de comunicação com o eleitor. Isso significa, também, a possibilidade de recrudescimento das campanhas desleais, baseadas em flagrantes distorções da realidade, fake news, simplificações, maniqueísmos e cultivo de bolhas e do “tribalismo” que opõe o “nós” a “eles”. Essas coisas sempre fizeram parte da competição política, mas, com as redes, ganharam uma dimensão e um impacto nunca vistos.

Serão campanhas de milhares de candidatos em quase seis mil municípios, todos eles se acotovelando pra encontrar espaço num mercado eleitoral altamente competitivo. A Justiça Eleitoral não terá condições de coibir muita coisa nessa terra de ninguém das redes sociais. Nesse cenário, ganhará mais aqueles candidatos que tiverem maior familiaridade com as redes — que, aliás, também podem ser usadas de maneira positiva — e aqueles que tiverem mais recursos financeiros para colocar em movimento toda a indústria em torno das comunicações por essa via.

O tema da pandemia de covid-19 será central no discurso dos candidatos? Há risco de uma reprodução, em nível municipal, do embate nacional sobre fechamento do comércio ou uso da cloroquina?

George Avelino Eleições municipais são muito importantes para a vida dos eleitores porque tratam de seus interesses de forma mais direta, pois envolvem problemas de saúde, educação, habitação, transportes, e outros aspectos considerados “zeladoria urbana”, tal como a construção e manutenção das ruas, coleta de lixo, iluminação pública, etc.

Não é surpresa portanto que, ao contrário do que se pensa, a abstenção nas eleições municipais seja menor que nas eleições gerais. Assim, a discussão da pandemia somente fará sentido se envolver aspectos do dia a dia dos eleitores, tais como a volta às aulas, a abertura do comércio, etc. Neste quadro, poderemos observar a reprodução da polarização nacional nos municípios, algo raro na nossa história.

Além disso, a pandemia deve afetar mais o comparecimento dos grupos de risco, especialmente dos eleitores com mais de 60 anos. Esse cenário pode prejudicar candidatos que dependem mais dos votos desses grupos de eleitores. Mas não dá para cravar qual grupo sairá mais prejudicado nesse contexto.

Paulo Peres Penso que sim. Em alguma medida, o fato de ser um ano eleitoral afetou o combate feito pelos atuais prefeitos à covid-19 nos municípios. Ao seguir as orientações sanitárias, eles desagradaram os setores econômicos e, indiretamente, grande parte da população que sofreu os efeitos do fechamento das atividades.

Por outro lado, quando evitaram seguir as orientações sanitárias ou adotaram medidas muito flexíveis, enfrentaram pressões e críticas de setores mais preocupados com uma gestão da crise menos eleitoreira. Para dificultar ainda mais as coisas, houve a polarização nacional promovida pelo negacionismo do presidente Jair Bolsonaro sobre fechar ou não as atividades, adotar ou não a cloroquina, a máscara e o distanciamento social.

Isso vai aparecer, em maior ou menor grau, especialmente no embate pelas prefeituras. A polarização nas eleições municipais vai reproduzir a agenda discursiva imposta por Bolsonaro ao país durante essa crise, com a falsa ideologização do enfrentamento da pandemia e do seu tratamento, como imortalizado na inacreditável fala do presidente da República: “quem é de direita, toma cloroquina, quem é de esquerda, toma tubaína”. Se nacionalmente o debate é desse nível, no plano local, vai ter de tudo.

Material de referência

O pleito de 2020 vai eleger prefeitos e vereadores em 5.570 municípios. Para entender a importância desses dois cargos, a plataforma Nexo Políticas Públicas explicou quais são as atribuições do chefe do Executivo e dos membros do Legislativo na esfera municipal. Leia clicando aqui.

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