O novo aumento da covid pelo mundo. E as ondas da pandemia

Europa registra maior número de infecções diárias desde março, enquanto Irã enfrenta o que considera um terceiro surto da doença. No Brasil, cidades do interior de São Paulo e capitais como Rio de Janeiro têm elevação do número de mortes

    Os casos de covid-19 no mundo ultrapassaram 30 milhões na quinta-feira (17), pouco mais de seis meses após a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar estado de pandemia do novo coronavírus. Os mortos somam mais de 943 mil.

    O dado foi apontado pelo monitoramento da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, que contabiliza o total de registros confirmados pelas autoridades sanitárias de cada país. Tendo em conta a subnotificação, os números devem ser ainda maiores.

    Estados Unidos, Índia e Brasil, nesta ordem, são os países com o maior total de casos confirmados. Vários outros, porém, estão endurecendo novamente as medidas de isolamento social em meio a uma nova alta das infecções.

    Esse novo aumento, registrado após um primeiro pico da doença, é comumente caracterizado como uma segunda onda da doença. No fim de julho, no entanto, a porta-voz da OMS Margaret Harris afirmou que seria melhor descrever a crise sanitária causada pela covid-19 como “uma grande onda com altos e baixos”.

    Onde os casos voltaram a crescer

    A OMS chamou atenção na quinta-feira (17) para taxas de transmissão alarmantes do novo coronavírus em vários países europeus nas últimas semanas.

    305.054

    foi o número de novos casos registrados na Europa na segunda semana de setembro, maior marca desde os 264.675 casos contabilizados na semana de 30 de março

    Em junho, os casos haviam atingido sua maior baixa na Europa e voltaram a crescer após o relaxamento de medidas de distanciamento social. É o caso de países como França e Espanha, que tem visto uma nova aceleração do contágio em seus territórios.

    Em Israel, um segundo lockdown nacional teve início na sexta-feira (18), motivado pelo registro de mais de cinco mil casos diários da covid-19 no país em setembro. A primeira quarentena em Israel foi decretada no fim de março e flexibilizada em maio a partir da queda de novos casos.

    Um dos primeiros países a ser atingido pelo novo coronavírus após a China, o Irã também voltou a apresentar um alto índice de novas infecções, chegando a mais de três mil por dia em setembro. Autoridades do país falam em uma terceira onda: a primeira teria ido de fevereiro a maio. Os casos da doença voltaram a crescer em junho e haviam caído no fim de agosto.

    A situação em cidades do Brasil

    No Brasil, onde a curva de casos e mortes se configura em um platô com altas taxas por um longo período de tempo, as informações mais recentes divulgadas pelo Ministério da Saúde indicavam queda no número de casos e mortes no país entre 6 e 12 de setembro, em relação à semana anterior.

    Há, porém, aumento no número de casos e mortes em determinadas regiões, associado à flexibilização das medidas de distanciamento social.

    É o caso das regiões de Franca, Araraquara e Barretos, no interior do estado de São Paulo, onde os óbitos pela covid-19 cresceram respectivamente 15%, 68% e 457% de 12 a 18 de setembro.

    Também houve aumento no número de novos casos e de internações em Manaus entre agosto e setembro. A capital do Amazonas foi uma das cidades brasileiras mais duramente afetadas pela pandemia, mas havia visto uma diminuição na letalidade da doença entre o final de junho e o mês de julho.

    Além de uma retomada total das atividades, vídeos divulgados mostram que aglomerações e festas têm feito parte do cotidiano de habitantes da cidade.

    Após a reabertura de bares e outros estabelecimentos em julho e aglomerações que tomaram conta das praias da cidade em agosto, o Rio de Janeiro também registrou aumento na média móvel de mortes segundo dados divulgados pelo governo estadual na sexta-feira (18), pela primeira vez desde o final de agosto.

    O que define uma nova onda

    Ondas de infecção se formam a partir do crescimento acelerado de casos de uma doença. Os números chegam a um ponto máximo, chamado de pico, e em seguida caem lentamente.

    Não existe uma definição precisa sobre quando uma onda começa e termina. Epidemiologistas e autoridades em saúde concordam, porém, que para uma segunda onda se formar, é preciso que a primeira seja controlada.

    Isso significa uma queda das taxas de transmissão, até atingirem níveis muito baixos – algo que não aconteceu no Brasil, por exemplo. A formação de uma segunda onda se daria com o ressurgimento do vírus e um aumento no número de casos de infecção, internações e mortes.

    As particularidades da covid-19

    Ao recusar a definição de ondas do novo coronavírus em julho, a porta-voz da OMS Margaret Harris afirmou que chamar novos surtos da covid-19 de segunda ou terceira onda pode dar a entender que seres humanos não têm nenhum controle sobre a disseminação do vírus, quando, na verdade, há medidas que podem ser tomadas para evitar a sua propagação.

    Além disso, ela destacou que o novo coronavírus não parece ser um vírus sazonal – como a gripe, que afeta a população todo ano, principalmente no inverno –, e que parece “gostar” de todo tipo de clima. Ao contrário de outros vírus respiratórios, sua capacidade de transmissão a princípio não sofreria o impacto da mudança de estação.

    Pesquisadores da Universidade Americana de Beirute e da Universidade do Qatar, autores de um estudo divulgado em 15 de setembro, acreditam que o novo coronavírus pode se tornar sazonal no futuro, quando a imunidade de rebanho for atingida.

    A dificuldade em se determinar se os seis meses de pandemia transcorridos até o momento devem ser caracterizados como uma grande onda ou várias ondas acontece principalmente por que a resposta imunológica gerada pelo novo coronavírus é diferente em relação à observada em epidemias anteriores, segundo o epidemiologista e reitor da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), Pedro Hallal.

    Hallal coordena o Epicovid-19, estudo nacional conduzido por pesquisadores da Ufpel que investiga a proporção de pessoas com anticorpos para a covid-19 e a evolução de casos na população brasileira.

    “A questão mais relevante é que essa pandemia não tem se comportado como outras na história”

    Pedro Hallal

    epidemiologista e reitor da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), ao 'Nexo'

    Estudos têm mostrado que o nível de anticorpos de quem teve contato com o vírus decai consideravelmente em alguns meses, embora a resposta imunológica possa continuar por meio das chamadas células T. No entanto, sem anticorpos, nenhum teste existente é capaz de detectar o acúmulo total de casos da doença ao longo do tempo, o que dificulta a identificação de ondas de contágio.

    Outra peculiaridade do vírus destacada pelo epidemiologista é sua alta capacidade de disseminação na população, controlável apenas por meio de medidas de distanciamento social, independentemente da estação ou do clima.

    Hallal também afirmou não ser possível ter uma resposta definitiva com relação à sazonalidade do vírus – será preciso observar seu comportamento nos próximos dois ou três anos para dizer se determinadas estações favorecem o contágio.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.