Como o ‘nacionalismo da vacina’ move governos na pandemia

Num cenário de limitação da oferta de possíveis imunizantes, países buscam garantir sua parte. Encomendas do Reino Unido somam cinco doses para cada habitante

Com o avanço das pesquisas que buscam criar um imunizante para o novo coronavírus, a questão dos nacionalismos ganha uma nova faceta: o nacionalismo da vacina.

Nessa lógica, os países competem entre si para garantir a imunização de suas próprias populações. Assim, as estratégias de fabricação e distribuição das doses atendem a interesses exclusivamente nacionais.

Entidades multilaterais, como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a União Europeia, alertam a comunidade internacional para o fato de que uma estratégia adotada em conjunto poderá ser mais eficiente em termos de custos e resultados.

“Se as vacinas para a covid-19 forem mal alocadas da forma como foram em 2009 [crise de H1N1], a pandemia vai durar mais, mais pessoas morrerão e a interrupção será maior do que o necessário”, disse Richard Hatchett, diretor da Cepi (Coalizão para Inovações de Preparação para Epidemias, na sigla em inglês), à revista Nature.

Em um mundo de grande trânsito global de pessoas e mercadorias, uma epidemia em um país é um risco para todos. Ele existe mesmo em países que garantam a vacinação contra determinada doença, já que a eficácia do imunizante pode decair com o tempo e as cadeias de produção dos laboratórios dependem de insumos frequentemente adquiridos em outros países.

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, alerta que o nacionalismo já esteve presente em um primeiro momento da pandemia. Na época, houve disputa por equipamentos como respiradores e máscaras. Segundo ele, seria um erro adotar a mesma estratégia quanto às vacinas.

“O abastecimento nacionalista prejudicou a pandemia e contribuiu para o fracasso total da cadeia de abastecimento global. [...] À medida que novos diagnósticos, medicamentos e vacinas são lançados, é fundamental que os países não repitam os mesmos erros”

Tedros Adhanom

diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, em 19 de agosto de 2020

A ideia do “nacionalismo vacinal” também foi abordada pela presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen. Em um momento em que a União Europeia passa por contestações, von der Leyen afirmou, em seu primeiro discurso sobre o estado do bloco, que “o nacionalismo das vacinas coloca vidas em perigo” e que a cooperação na área da saúde “mostrará aos europeus que nossa União existe para proteger a todos”.

O nacionalismo em prática

Uma análise da ONG (organização não-governamental) Oxfam publicada nesta quarta-feira (16) revela que países ricos, que abrigam uma fração pequena da população mundial, já garantiram o provisionamento de mais da metade das doses negociadas pelas cinco farmacêuticas mais avançadas no desenvolvimento da vacina (AstraZeneca, Gamaleya/Sputnik, Moderna, Pfizer e Sinovac).

13%

da população mundial está nos poucos países ricos que já garantiram 51% das doses de vacina prometidas contra a covid-19, segundo dados da Oxfam de 16 de setembro de 2020

O governo do Reino Unido é o que mais doses já garantiu em seus acordos com diferentes laboratórios, se todos os projetos de vacina forem bem-sucedidos. Enquanto isso, outros governos continuam sem acesso a qualquer vacina para a covid-19.

5

é o número de doses para cada habitante que o governo do Reino Unido já garantiu em acordos com farmacêuticas

Países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e México, também já fizeram negociações. No Brasil, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, fez uma parceria com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford, que trabalha junto com a farmacêutica.

O acordo envolveu investimentos do governo federal de aproximadamente R$ 522 milhões na unidade da Fiocruz produtora de vacinas, o Instituto Bio-Manguinhos, e a transferência da tecnologia anglo-sueca, ao custo de R$ 1,3 bilhão.

Caso a vacina se comprove eficaz, até que a Fiocruz desenvolva as capacidades para produzir os imunizantes sozinha, a instituição irá receber 100 milhões de doses do produto, para fazer seu processamento final. Desde junho, a Anvisa já autorizou que 10 mil voluntários brasileiros participem da fase de testes da vacina da AstraZeneca.

Os governos estaduais também se mobilizaram. O de São Paulo fez um acordo com a farmacêutica Sinovac Biotech. Se o projeto chinês der certo, doses do imunizante poderão ser produzidas no Instituto Butantan. Já os governos do Paraná e da Bahia assinaram acordos com laboratórios russos para obter a vacina batizada Sputnik-V.

O combustível do ‘nacionalismo das vacinas’

Segundo a Oxfam, o custo estimado para prover a vacina a todos os habitantes do planeta, considerando os custos de pesquisa, fabricação e distribuição, é de aproximadamente US$ 70,6 bilhões. Isso equivale a menos de 1% do impacto da paralisação das atividades previsto para a economia mundial em 2020 e 2021 — US$ 12 trilhões, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional).

0,6%

do impacto da pandemia de covid-19 na economia mundial seria o custo para se imunizar toda a população mundial

No entanto, o acesso global a uma vacina contra a covid-19 encontra um obstáculo imposto pelas próprias farmacêuticas. Sozinhas, elas são incapazes de produzir todas as doses necessárias e, por motivos comerciais, há pouca disposição de se compartilhar as tecnologias desenvolvidas por elas. Nesse cenário de escassez de oferta, o estímulo ao comportamento baseado numa lógica “cada um por si” parece ganhar forças.

A empresa Airfinity, especializada na análise do mercado da saúde, analisou os dados públicos e o histórico de produção das farmacêuticas mais avançadas na busca pela vacina. Segundo a consultoria, se todos os cinco imunizantes tiverem sucesso, e se for necessária apenas uma dose para imunização de cada pessoa, haverá doses disponíveis para apenas um sétimo da população mundial até os últimos meses de 2021.

1 bilhão

de doses devem ser produzidas até o final de 2021, segundo a projeção da Airfinity, publicada na revista Nature em 24 de agosto de 2020

Já a Cepi (Coalizão para Inovações de Preparação para Epidemias, em inglês) prevê que de 2 bilhões a 4 bilhões de doses possam ser fabricadas até o final de 2021.

A farmacêutica americana Moderna, por exemplo, tem capacidade para suprir a demanda de apenas 6% da população mundial. Mesmo assim, diferentemente da anglo-sueca AstraZeneca, o laboratório não fez acordos de transferência de tecnologia com países em desenvolvimento. A empresa tem vendido as opções de compra de sua produção aos governos que fazem as ofertas mais altas. Os preços de cada dose variam de US$ 12 a US$ 16, nos Estados Unidos, a aproximadamente US$ 35 em outros países.

Winnie Byanyima, subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora executiva do programa da organização voltado ao combate à aids, teme um interesse das farmacêuticas em manter a oferta restrita, de forma a garantirem altos preços para os imunizantes. “No contexto da aids, vimos no passado como as corporações usam monopólios para restringir artificialmente o fornecimento de medicamentos que salvam vidas e inflar seus preços, disse Byanyima.

As soluções em jogo

Para equilibrar a necessidade de acesso global à vacina com o fato de que as farmacêuticas exigem a perspectiva de lucro para investirem tão alto na descoberta e na fabricação em massa do imunizante, especialistas em propriedade intelectual e inovação propõem soluções. Entre elas, que os governos comprem as patentes desenvolvidas e depois autorizem a fabricação de genéricos, ou que ofereçam um “prêmio de desafio”. Seria um valor pago pelos governos às empresas por cada pessoa vacinada no mundo.

No âmbito das Nações Unidas, o Covax Facility, um consórcio internacional coordenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em parceria com outras entidades, busca promover acordos multilaterais que acelerem a produção e distribuição de uma vacina contra a covid-19. A ideia atualmente em discussão é que uma parte das nações participantes — pelo menos 75 delas — colabore com um fundo para financiar o desenvolvimento de projetos de vacina e, depois, garantir uma fração das doses para todos os participantes.

O Unicef, fundo da ONU para a infância, e a Organização Pan-Americana da Saúde irão liderar a operação global de aquisição e fornecimento das vacinas. A estratégia de quais critérios vão guiar a distribuição das doses garantidas pela iniciativa, porém, ainda está em aberto.

Mais de 170 países estão envolvidos nas negociações. O Brasil também estuda entrar na aliança, mas pediu mais tempo para analisar os termos da participação.

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