Por que empresas estão abrindo seu capital em meio à pandemia

Número de IPOs em 2020 já é o maior em 13 anos no Brasil, apesar de crise econômica. O ‘Nexo’ explica como funciona o processo de oferta pública de ações e por que ele se intensificou agora

    O ano de 2020 é de crise econômica. Com poucas exceções, países registraram tombos históricos na atividade econômica do segundo trimestre, sem perspectivas de recuperação até o fim do ano.

    No Brasil, o PIB (Produto Interno Bruto), que soma todos e bens e serviços produzidos no país, caiu 9,7% entre abril e junho, na comparação com os três primeiros meses do ano. O país está em recessão, e as perspectivas para o acumulado de 2020 são de que o PIB caia entre entre 5% e 7%.

    Em 2020, mesmo em meio a uma das piores crises da história, 13 novas empresas passaram a ser listadas na bolsa de valores. É o maior número desde 2007, quando 64 firmas entraram para a bolsa; nos primeiros nove meses de 2007, 48 empresas já haviam aberto capital. Naquele ano, o boom no mercado de ações acompanhava o cenário de otimismo que havia com relação ao futuro da economia brasileira.

    Entre 2007 e 2020, os anos que mais registraram ofertas públicas iniciais de ações foram 2010 e 2011, com 11 em cada ano.

    ABRINDO CAPITAL

    Empresas que abriram capital na bolsa brasileira a cada ano. Pico em 2007, e depois não passa de 11, até 2020 quando chega a 13 ainda em setembro

    As 13 empresas que passaram a ser listadas na bolsa de valores de São Paulo em 2020 movimentaram mais de R$ 12 bilhões no processo, segundo dados da B3. A atividade com mais empresas que abriram capital foi a construção, impulsionada pelo aumento no crédito imobiliário.

    Outras 44 empresas estão na fila para abrir capital ainda em 2020. Além disso, mais de 15 empresas que já estavam listadas na bolsa ofereceram novas ações até o início de setembro, em um processo chamado follow-on.

    Até meados de setembro, metade das novas empresas da bolsa acumula desvalorização em suas ações. É nesse grupo que estão as construtoras que abriram capital em 2020. Entre a metade que teve valorização dos papéis, a maior alta ficou por conta da Locaweb, empresa de hospedagem de sites. Os dados são da consultoria Economatica, e foram reproduzidos pelo site E-Investidor, ligado ao jornal O Estado de S. Paulo.

    Outro movimento que marca a bolsa de valores de São Paulo em 2020 é o aumento no número de investidores, puxado pela participação maior de pessoas físicas. O número de pessoas físicas investindo na bolsa pulou de 1,68 milhão ao final de 2019 para 2,96 milhões em agosto – um crescimento de 76% em apenas oito meses. Esse movimento ocorreu apesar da alta volatilidade da bolsa no ano. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, sofreu uma queda forte na virada de fevereiro para março e chegou a perder até 45% do valor em relação ao final de 2019. A partir do final de março, o índice começou a se recuperar, e desde meados de agosto está estável em torno dos 100 mil pontos (abaixo dos 115 mil ao redor do qual oscilava em meados de fevereiro).

    Como funciona a abertura de capital

    O processo de abertura de capital é chamado de IPO – em inglês, “Initial Public Offering”; em português, “Oferta Pública Inicial”. Por meio dele, a empresa passa a negociar ações na bolsa de valores, que podem ser compradas por qualquer investidor. Quem compra um desses papéis passa a ter um pequeno pedaço da companhia.

    O processo de IPO começa com um pedido de abertura de capital na Comissão de Valores Mobiliários, órgão ligado ao Ministério da Economia que regula o mercado de capitais. O que vem depois é um processo complexo.

    A empresa que vai abrir capital precisa ser examinada a fundo por uma auditoria externa. Para que ela possa ir ao pregão da bolsa, as contas dos últimos anos precisam estar em ordem. O balanço financeiro da companhia precisa ser publicado para que os potenciais investidores possam avaliar por conta própria a situação da firma e os detalhes da oferta de ações.

    O processo também pode demandar mudanças internas na empresa, como uma reestruturação societária. Além disso, o processo envolve uma etapa de reuniões para tentar atrair compradores para quando a ação for de fato lançada.

    Esses são apenas alguns passos da abertura de capital. Realizar um processo de IPO é algo caro e demorado – costuma custar milhões de reais e pode levar mais de um ano. Entre as diversas etapas, são envolvidos bancos, advogados e contadores que ajudam em todo o esforço de avaliação e escrutínio até chegar no dia de lançamento na bolsa.

    Por que as empresas abrem capital

    A abertura de capital é uma forma que as empresas têm de captar recursos. Ao fazer uma IPO, elas estão, na prática, vendendo pequenos pedaços da firma. Então, elas recebem dinheiro dos novos investidores e podem usar esses recursos para financiar novos investimentos.

    Apesar do custo alto, o processo de IPO pode valer mais a pena do que um empréstimo bancário ou outra forma de contração de dívida. Quando uma empresa toma um empréstimo, ela precisa devolver o dinheiro após um determinado período de tempo. Se ela capta recursos vendendo ações, não precisará pagar de volta o valor que recebeu – afinal, trata-se de um investimento, e não de um empréstimo.

    Para quem compra as ações, o retorno pode vir de duas formas. A primeira é recebendo dividendos – que são os lucros que cabem aos acionistas da empresa. A outra é pela negociação da própria ação, que pode se valorizar na bolsa de valores. Se uma pessoa vende uma ação a um preço mais alto do que comprou, ela embolsa a diferença.

    Esse tipo de investimento é chamado de renda variável, em que os ganhos não podem ser previstos antes do investimento, e o rendimento não está ligado a nenhum indicador econômico, como juros ou inflação. Essa modalidade de investimento pode proporcionar ganhos altos, mas também perdas, por ser mais arriscado.

    A renda variável se contrapõe à renda fixa, em que o investidor já sabe, no momento em que aplica, como vai ser o rendimento do dinheiro ao longo do tempo. Isso não quer dizer, no entanto, que é possível calcular com antecedência exatamente o valor recebido ao fim de uma aplicação em renda fixa. Boa parte dos investimentos são os chamados pós-fixados, em que os rendimentos são pagos com base em um índice pré-determinado que pode variar ao longo do tempo. Um exemplo de investimento de renda fixa é a caderneta de poupança, que rende com base na taxa Selic, a taxa básica de juros.

    Duas análises sobre IPOs em 2020

    • João Rafael, sócio líder da área de Capital Markets da consultora Grant Thornton Brasil
    • Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos

    Por que o número de ofertas públicas iniciais está mais alto em 2020 no Brasil?

    João Rafael As motivações que as empresas têm [para abrir capital] são as mais diversas. Pode ser a expansão de negócios ou desalavancar dívidas acumuladas nesses anos de crise -- especialmente no setor imobiliário, em que muitas empresas estão usando esse mecanismo para reduzir alavancagem.

    Neste momento especificamente, o que ocorre está ligado à redução das taxas de juros. Quando os juros estão altos, o investidor busca comprar CDB [Certificados de Depósito Bancário], títulos do governo, debêntures etc, que são instrumentos de renda fixa. Agora, existe um movimento geral do mercado de migrar da renda fixa para a renda variável. O momento que vivemos agora é de muito apetite do investidor por ações, incluindo as novas empresas que estão abrindo capital. As empresas ficam motivadas a entrar na bolsa por causa da demanda por ações.

    No setor imobiliário, há ainda um segundo efeito que é do próprio efeito do negócio. Quando temos uma redução na taxa de juros, há uma redução do custo do financiamento imobiliário. Quando ocorre isso, o balanço que o comprador faz entre comprar ou alugar fica desbalanceado em favor de comprar. Ele pensa que é melhor pagar uma parcela do imóvel do que pagar o aluguel. Então há um efeito duplo no setor imobiliário: há o efeito natural da migração para a renda variável e ainda tem a melhoria do negócio.

    Henrique Esteter Estamos em um momento bem adverso, de fato, por conta da pandemia. Mas a pandemia também acabou abrindo algumas oportunidades. Os Bancos Centrais – não só do Brasil mas do mundo inteiro – usaram a redução das taxas de juros como ferramenta para retomada da atividade econômica.

    Muita gente já estava indo para a bolsa antes da pandemia. Mas a redução das taxas de juros hoje fez com que as pessoas – não só pessoa física, mas institucional – precisassem alocar mais dinheiro em ativos de risco para obter retorno. Vislumbrando esse cenário, o que aconteceu foi um efeito de demanda, com ampliação de [investidor] institucional e pessoa física indo para a bolsa. Ao mesmo tempo, a oferta compensou esse movimento, através da abertura de capital de novas empresas mas também com as próprias empresas já listadas realizando novas ofertas (vimos muitos casos de follow-on).

    Nunca tivemos no Brasil uma taxa de juros tão baixa. Isso é totalmente necessário e importante para que esse número de ofertas se eleve. Fala-se que ano que vem [a taxa de juros] vai subir um pouquinho, mas deve ficar em patamares ainda baixos. Então é o momento ideal para que as empresas encontrem demanda suficiente no mercado.

    Além disso, muitas empresas já tentaram fazer IPO várias vezes ou estavam há muitos anos pensando em abrir capital. Havia uma demanda reprimida [para lançar IPOs]. O cenário político e econômico antes da pandemia não permitiu que isso ocorresse. Mas agora voltaram a esse calendário, sabendo que vão encontrar demanda. Fica mais propício esse movimento de buscar a capitalização através de follow-ons e IPOs.

    Esse movimento também ocorre no exterior?

    João Rafael Na minha visão, o momento que estamos vivendo no Brasil é específico do Brasil, em função desse ambiente da taxa de juros. Em outros países, a diferença é que os juros sempre foram baixos. Se você pensar no boom [de IPOs] de 2006 e 2007, tínhamos juros básicos em torno da faixa de 11% a 13%. Para a IPO ser atrativa, tinha que gerar um retorno para o acionista muito maior que 11% ao ano, em teoria. Hoje [17 de setembro], a taxa básica de juros é de 2%.

    A lógica internacional é sempre que, no momento de expectativa de crescimento econômico, temos um movimento maior de IPOs. No momento de retração, temos uma redução no número de IPOs. Minha percepção é que não estamos vivendo uma crise estrutural macroeconômica, estamos vivendo uma crise de saúde pública. O mercado está olhando a performance das empresas no próximos anos. E se continuarmos nesse patamar de juros, veio para ficar a tendência de um mercado de ações e, consequentemente, de IPOs, mais ativo.

    Henrique Esteter Há um excesso de liquidez global. Nos EUA, [os tomadores de decisão na política monetária] levaram a taxa de juros para próximo de zero. Há países com taxas de juros no campo negativo. Conseguimos ver essa demanda muito forte por conta da liquidez.

    Não só ações, mas qualquer ativo que consiga sobreviver ao longo do tempo e está pagando um retorno interessante já vale mais a pena do que deixar [dinheiro] nos títulos dos governos, que não pagam quase nada hoje em dia. O cenário lá fora também se desenha para esse modelo: excesso de liquidez e pessoas buscando rentabilizar o capital, o que acaba auxiliando essas ofertas [de ações] sim. O cenário também é propício no exterior.

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