Como a pandemia afetou a indústria automotiva no Brasil

Setor faz demissões para enfrentar quedas na produção e nas vendas. Impacto da recessão iniciada em 2014 ainda era sentido antes da crise de 2020

    Os funcionários da fábrica da Volskswagen em São Bernardo do Campo (SP) aprovaram na terça-feira (15) a proposta de plano de demissão voluntária desenhada pela montadora. A medida deve levar à redução do quadro em 35% – cerca de 3.000 dos 8.600 empregados da fábrica devem perder o posto.

    Além da unidade do ABC paulista, as outras três fábricas de automóveis da Volkswagen no Brasil irão avaliar até o final de setembro planos de demissão voluntária. Juntas, as plantas de São Bernardo do Campo, Taubaté, São Carlos, e São José dos Pinhais – localizada no Paraná e única fora do estado de São Paulo – empregam em torno de 15.000 pessoas, das quais cerca de 5.000 deverão ser demitidas.

    A Volkswagen não é a única empresa do setor a propor planos de demissão voluntária no segundo semestre de 2020. General Motors e Renault também iniciaram medidas do tipo em agosto – somadas, as demissões nas duas empresas devem passar de 1.000 pessoas.

    Segundo dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), cerca de 4.100 pessoas foram demitidas no setor automotivo entre março e agosto – o que não conta, portanto, as baixas na Volkswagen que virão a partir dos planos de demissão voluntária. E a expectativa é de que ainda mais cortes ocorram até o final do ano. As reduções de quadros de funcionários ocorrem em um momento de profunda crise no segmento, que já vinha em baixa antes de 2020.

    Os números na pandemia

    Assim como em outras atividades, a pandemia levou a uma paralisia parcial do setor automotivo. Em um primeiro momento, férias foram antecipadas e diversas fábricas ficaram inoperantes como medida de segurança. Depois, atividades foram retomadas de forma reduzida e as empresas adotaram medidas trabalhistas como corte de salário para diminuir custos em um momento de baixa demanda.

    A produção caiu drasticamente. Em abril, primeiro mês totalmente contemplado pela pandemia, as fábricas ficaram virtualmente paradas, e o país produziu apenas 1.847 veículos. Na série histórica da Anfavea, iniciada em janeiro de 1957, não há nenhum mês em que a produção foi tão baixa.

    PRODUÇÃO EM BAIXA EM 2020

    Número de veículos produzidos por mês no Brasil. Tombo histórico em 2020

    Nos meses seguintes, a tendência foi de recuperação, mas ainda em níveis muito inferiores ao pré-crise. Em agosto, os 210 mil veículos produzidos representaram uma queda de quase 22% em relação ao mesmo mês de 2019.

    Como um todo, a produção nos primeiros oito meses do ano atingiu seu menor nível desde 2003. Foram 1,11 milhão de veículos produzidos, 900 mil a menos que no mesmo período de 2019.

    44,8%

    foi a queda na produção de veículos no Brasil nos primeiros oito meses de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019

    A queda no volume de vendas

    A queda na produção veio acompanhada também de uma queda nas vendas. Quase metade dos brasileiros tiveram redução na renda durante a pandemia, e milhões de pessoas perderam o emprego. Ao mesmo tempo, o nível de endividamento no Brasil está em um nível recorde, o que ajuda a reduzir o impulso para fazer investimentos de grande porte, como a compra de um carro. A crise global também freou a demanda externa, o que derrubou as exportações.

    Como resultado dessa conjunção de fatores, o volume de vendas do setor automotivo apresentou queda significativa em 2020, conforme revelado por dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em abril – mês tido por muitos economistas como o “fundo do poço” da crise –, as vendas atingiram o menor nível na série histórica iniciada em 2010. A queda foi de 57,4% em relação a abril de 2019.

    QUEDA HISTÓRICA EM 2020

    Trajetória do volume de vendas de veículos no Brasil. Queda a partir de 2014, mas nunca recuperou antes do novo tombo forte em 2020

    Assim como a produção, as vendas melhoraram a partir de maio, mas ainda em níveis abaixo do pré-pandemia. Mesmo julho de 2020 – último dado disponível e melhor mês desde o início da crise sanitária – representou o pior resultado para o mês em três anos.

    A atuação do governo

    Diante do impacto forte e rápido que a crise teve sobre o setor, as empresas automotivas cobraram o governo por algum plano de apoio. A expectativa era obter um socorro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), como ocorreu com outras áreas, como a elétrica.

    O banco, no entanto, não desenhou medidas voltadas especificamente ao setor produtor de carros. O discurso adotado era que cada empresa poderia receber um suporte individual, mas sem haver um plano setorial mais amplo.

    Isso levou as empresas a recorrerem a linhas tradicionais de crédito oferecidas por bancos públicos e privados. Ao jornal Folha de S.Paulo, o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters, disse estar “desapontado” com a atuação do BNDES.

    A trajetória do setor nos últimos anos

    Na virada da década de 2000 para 2010, o setor automotivo brasileiro teve um momento positivo, registrando dez anos anos consecutivos de recordes nas vendas de veículos. Nem mesmo a crise global iniciada em 2008 impediu os números de subirem, uma vez que o governo reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para automóveis com o objetivo de estimular a economia.

    Mas a partir de 2013 o setor automotivo começou a desacelerar – o que logo virou uma queda. A indústria de carros foi atingida pela forte recessão que teve início no segundo trimestre de 2014 e foi até o final de 2016. A crise derrubou as vendas, e a produção de veículos em 2016 ficou 41% abaixo do que havia sido em 2013.

    A recuperação que veio a partir de 2017 não foi suficiente para retornar aos níveis anteriores à recessão. Em 2019, a trajetória do setor ainda foi afetada pela grave crise na Argentina, maior comprador de veículos brasileiros. A queda das exportações foi mais um fator a pesar contra a indústria automotiva.

    A pandemia do novo coronavírus atingiu uma indústria que ainda registrava níveis cerca de 20% mais baixos do anterior à recessão de meados da década de 2010.

    Apesar da crise na Argentina e do baixo ritmo de crescimento da economia brasileira, a expectativa antes da pandemia era que a produção de veículos em 2020 ganhasse fôlego e atingisse seu maior nível desde 2014. Em setembro, a projeção é que o setor automotivo leve anos para se recuperar do choque causado pela nova recessão.

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