Como alianças locais de PSB e PDT mexem na centro-esquerda

Partidos firmaram acordo para eleições municipais em diversas capitais, numa sinalização de união que pode repercutir em 2022

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PSB e PDT firmaram alianças em diversas capitais para as eleições municipais marcadas para 15 de novembro. Os partidos têm trocado apoio mútuo em candidaturas para prefeituras que podem reforçar uma eventual parceria também nas eleições nacionais de 2022.

Em São Paulo, Márcio França, candidato do PSB e ex-governador do estado em 2018, terá como vice Antônio Neto, presidente do diretório paulistano do PDT.

A união se estende para outras capitais do país. Em Porto Alegre, o PDT aposta em Juliana Brizola, neta do ex-governador do Rio de Janeiro e líder histórico do partido Leonel Brizola. Sua vice será Maria Luiza Moose, do PSB.

Em Fortaleza, reduto importante do PDT, o cabeça de chapa será José Sarto, que é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa. O vice escolhido pelo PSB foi Élcio Batista, ex-secretário-chefe da Casa Civil no governo de Camilo Santana (PT).

Em Recife, o PSB aposta no deputado federal João Campos, filho do ex-governador pernambucano e candidato à presidência da República Eduardo Campos, que morreu em 2014 vítima de um acidente aéreo. Seu vice será a ex-vereadora Isabella Roldão (PDT).

Outra dobradinha entre as siglas deve acontecer em Maceió, onde João Henrique Caldas (PSB) é candidato à prefeitura, com o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) como vice. As parcerias entre os partidos também devem ocorrer em outras capitais, como Rio de Janeiro, Rio Branco e Goiânia.

A tentativa frustrada de 2018

Os dois partidos já haviam tentado se aliar em 2018 em torno da candidatura do pedetista Ciro Gomes. Mas o PT de Luiz Inácio Lula da Silva, que viria a ser substituído por Fernando Haddad como candidato, conseguiu que o PSB ficasse neutro na disputa presidencial.

Para impossibilitar o acerto entre PDT e PSB, Lula articulou a retirada da candidatura de Marília Arraes ao governo pernambucano para que o PT apoiasse Paulo Câmara, do PSB. Em troca, além de declarar neutralidade nacional, o PSB retirou sua candidatura em Minas Gerais.

O acordo foi duramente criticado por Ciro. O episódio foi decisivo para que o ex-governador do Ceará não apoiasse Haddad no segundo turno contra Jair Bolsonaro, que acabou eleito.

O acordo entre PSB e PDT sob análise

O Nexo ouviu dois cientistas políticos para entender como a união entre PDT e PSB impacta a centro-esquerda no país. São eles:

  • André Kaysel, professor de ciência política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
  • Carlos Pereira, professor de ciência política da FGV (Fundação Getulio Vargas) no Rio de Janeiro

PDT e PSB, juntos, têm potência para fazer frente ao PT no campo da centro-esquerda?

André Kaysel Essa é a aposta de ambos partidos. Mas isso não é uma novidade no cenário político. As candidaturas do Ciro Gomes pelo PPS em 1998 e 2002, e a candidatura do Anthony Garotinho pelo PSB também em 2002 são sinalizações de que esses partidos buscam uma disputa pelo poder na centro-esquerda.

O governo Lula conseguiu mantê-los sobre uma mesma aliança, mas as crises recentes envolvendo o PT, com impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a prisão do Lula [entre abril de 2018 e novembro de 2019] reabriram com força essa disputa na esquerda.

A união tem potência, mas não dá para cravar. O PT perdeu a capacidade de dirigir a hegemonia na esquerda, mas ainda é individualmente o maior partido desse espectro. As outras siglas têm tentado se juntar, mas não está claro o que vai acontecer a partir daí.

Carlos Pereira Isso não está claro ainda, mas o dado histórico é que o PT tem o protagonismo e serve como aglutinador desse núcleo desde 1989, quando lançou candidato à presidência pela primeira vez. Os outros partidos gravitam nesse núcleo.

Esse é um cenário que é difícil romper, mesmo com uma articulação dessa envergadura formada entre PSB e PDT, com várias alianças municipais. A despeito do desempenho eleitoral que eles tenham, acredito que o PT ainda terá uma influência grande. Mas será um fenômeno interessante para se observar.

Como a aproximação entre os dois partidos em 2020 pode impactar as eleições presidenciais de 2022?

André Kaysel O cálculo parece ser o palanque para a candidatura de Ciro Gomes. Ciro teve 12% dos votos em 2018 e talvez imagine que esse número pudesse ser maior se o PT não tivesse impedido a aliança do seu partido com o PSB.

Agora, estamos em um cenário de incerteza. O Brasil é um país regionalmente muito diverso, então essas composições políticas são sempre complicadas, com interesses que por vezes atritam.

O PT tem uma presença nacional relativamente uniforme, sobretudo depois que se tornou governo. O partido foi capaz de costurar essas alianças com mais facilidade, mesmo que tenha enfrentado problemas nesse aspecto.

Portanto, PDT e PSB não estão isentos dessa problemática. A lógica de algumas alianças em algumas regiões pode não combinar nacionalmente.

O que mais preocupa é que essa aliança entre PDT e PSB, e a própria orientação do PT ao não discutir sua hegemonia, tira o foco e a atenção do que deveria ser a disputa prioritária para 2022, que é a derrota da extrema direita. O horizonte autoritário do presidente Jair Bolsonaro é muito claro.

Essa preocupação com o imediatismo eleitoral pode ser muito prejudicial para o campo da centro-esquerda. Não estou dizendo que devemos ter um palanque unitário, porque isso é difícil. Mas a lógica fratricida do que está posto é um problema para o campo democrático.

Carlos Pereira Será um bom exercício, especialmente porque já começa a se desenhar uma disputa que envolve também Jair Bolsonaro. O presidente disse que não ia se envolver nas eleições, mas ele parece ter mudado de atitude, principalmente nas capitais.

Se Bolsonaro assumir uma atitude pró-ativa, é possível que as eleições para prefeito ganhem um perfil nacional. Nesse cenário, os partidos vão definir, a partir do desempenho eleitoral, quais serão as chances de partidos e candidatos em 2022.

Agora, nem sempre essa correlação acontece. Em 2016, o PSDB teve um ótimo desempenho nas eleições municipais, mas foi um fiasco dois anos depois na candidatura do Geraldo Alckmin à Presidência.

Na esquerda, as eleições municipais podem ser um indicativo, mas é preciso estar atento à história. O PT sempre teve candidatos, seja na esfera municipal, estadual ou federal. Ele assumiu a imagem do “protagonista perdedor”, com várias derrotas presidenciais, para enfim construir uma base sólida que o levou ao poder.

Além disso, ele ainda é o maior partido de esquerda do Brasil, com uma bancada significativa na Câmara dos Deputados e um enorme número de diretórios espalhados no país. É difícil imaginar que o partido abandone tudo isso, mesmo que essa aliança entre o PSB e PDT tenha sucesso no pleito municipal.

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