A ex-funcionária que implica o Facebook em manipulações políticas

Cientista de dados acusa empresa de fazer vista grossa para campanhas que usam contas falsas na tentativa de influenciar os rumos de vários países, entre eles o Brasil

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O BuzzFeed News revelou na segunda-feira (14) que uma ex-funcionária do Facebook nos Estados Unidos enviou um memorando para seus colegas em seu último dia de trabalho, expondo como a empresa teria feito vista grossa para o uso político da plataforma em diversas ocasiões.

Sophie Zhang entrou no Facebook em 2017 para trabalhar como cientista de dados, e atuava na detecção do uso de contas falsas. Ela foi demitida em agosto de 2020 e deixou a empresa no começo de setembro.

A causa para a demissão é desconhecida mas, no memorando, ela especula que um dos fatores que contribuiu para a sua saída é que ela passava muito tempo investigando o uso de contas falsas para fins políticos – algo que, na prática, não fazia parte de suas tarefas do dia a dia. Segundo Zhang, ela queria chamar a atenção da empresa para a questão.

Por conter informações pessoais, o BuzzFeed News não publicou o texto – de quase 7.000 palavras – na íntegra, e apenas detalhou os trechos que achava mais significante. Zhang não concedeu nenhuma entrevista sobre o assunto.

Contas falsas para fins políticos

Zhang afirmou que, depois de seis meses no Facebook, ela conseguiu detectar o uso coordenado de contas falsas para fins políticos.

Segundo ela, em 2018, era possível identificar atividade de robôs se engajando em uma campanha promovida pelo time de marketing de Juan Orlando Hernández, presidente de Honduras que, naquele ano, acabara de ser reeleito.

As contas falsas comentavam e reagiam à publicação, fazendo com que ela chegasse a mais pessoas. Essa lógica é parte fundamental do funcionamento de redes sociais como o Facebook, já que o algoritmo entende que se muitas pessoas estão falando sobre um determinado assunto, significa que ele é importante e por isso deve chegar a mais usuários.

Zhang afirmou que o Facebook levou meses para agir contra a atividade automatizada, que vai contra os termos de uso da plataforma. O anúncio público de uma ação veio em julho de 2019, quando a plataforma removeu 181 perfis falsos e 1.488 páginas falsas que agiam para promover a imagem de Hernández.

Porém, de acordo com Zhang, duas semanas depois da remoção, as campanhas continuaram e os robôs não foram derrubados ou identificados publicamente pela empresa.

O Brasil é citado no memorando da ex-funcionária. Ela afirmou que, nas eleições presidenciais de 2018, políticos das mais diversas ideologias usaram uma rede de contas falsas para influenciar os rumos do pleito.

Nomes e detalhes de como isso teria acontecido não foram revelados por Zhang, que se limitou a dizer que, naquele ano, foram detectadas cerca de 10,5 milhões de reações vindas de contas falsas, que tentavam influenciar o pleito no Brasil e as eleições do Congresso nos EUA.

Em setembro de 2018, o Facebook revelou publicamente que, meses antes, tinha removido 201 páginas, 144 contas e 74 grupos que atuavam no Brasil para propagar desinformação e aumentar a polarização política no país.

‘Tenho sangue em minhas mãos’

No texto, Zhang afirmou que tais exemplos não poderiam ser considerados casos isolados, e que ocorriam com frequência nos mais diversos lugares do mundo.

Ela citou exemplos similares na Bolívia em 2019, com contas falsas usadas para apoiar candidatos que faziam oposição a Evo Morales nas eleições presidenciais; no Equador, com uma rede de perfis inautênticos apoiando, em 2020, o governo do presidente Lenín Moreno; e no Azerbaijão, com uma rede de contas falsas assediando virtualmente páginas que criticam o presidente Ilham Aliyev.

Zhang afirmou que a empresa não levava tais situações a sério, a menos que ela levantasse a questão no sistema interno de comunicação com outros funcionários. “Meus pontos de vista não eram respeitados a menos que eu agisse como uma babaca arrogante”, disse.

“Eu tomei incontáveis decisões parecidas – do Iraque até a Indonésia, da Itália até El Salvador. Individualmente, o impacto era possivelmente pequeno em cada caso, mas o mundo é um lugar vasto. Apesar de eu ter tomado as melhores decisões que podia com o conhecimento disponível à época, no fim das contas, eu que tomava a decisão de deixar a situação de lado ou de priorizá-la, e eu sei agora que tenho sangue em minhas mãos”

Sophie Zhang

ex-funcionária do Facebook, em memorando interno obtido pelo BuzzFeed News

Ela ainda acrescentou que o Facebook se preocupa mais com spams inofensivos – que compõe a maior parte do uso de contas e páginas falsas – do que com atividades que envolvem a influência política, que são uma parte pequena dos casos, mas que, a seu ver, possuem consequências muito maiores.

A ex-funcionária disse que, quando a chefia da empresa fornecia algum tipo de resposta para os problemas apontados por ela, essa apenas dizia que “os recursos humanos são limitados”, e que as ações que o Facebook toma para coibir o uso de contas falsas para fins políticos são baseadas mais no impacto nas relações públicas do que em preocupações legítimas.

Por fim, ela encoraja os funcionários da empresa a tentarem mudar a plataforma de dentro para fora. “Você não precisa fazer isso sozinho. Encontre outros com as mesmas convicções e valores que você e trabalhem juntos. O Facebook é um projeto grande demais para que alguém consiga consertar tudo sozinho”, finalizou.

O que diz o Facebook

Ao jornal The New York Times, o Facebook afirmou, por meio de nota, que constantemente monitora campanhas virtuais de influência política e que tais questões são uma prioridade, com os casos sendo investigados cuidadosamente antes de a empresa falar publicamente sobre eles.

Após críticas constantes sobre o uso político da plataforma, o Facebook tem tomado uma série de ações voltadas para as eleições presidenciais dos EUA, marcadas para novembro de 2020.

Entre as medidas estão o bloqueio de publicidade política paga na semana anterior à votação; a remoção de publicações que afirmem que os eleitores vão ser infectados pelo novo coronavírus caso saiam de suas casas para votar; avisos em publicações que questionem os métodos e os resultados da votação, bem como em publicações que declarem vitória de determinado candidato antes do final das apurações.

A questão dos anúncios políticos marcou uma das muitas crises do Facebook nos últimos anos. Em setembro de 2019, a plataforma anunciou que não faria checagem de fatos nos anúncios veiculados na plataforma – o que, na prática, significa que notícias falsas podem ser lançadas livremente por candidatos. Em janeiro de 2020, a empresa reiterou essa posição.

O Facebook não anunciou se vai tomar medidas similares para as eleições municipais do Brasil, que também acontecem em novembro.

Os governos e as redes

Na década de 2010, as redes sociais se tornaram parte importante do cenário político, não só durante campanhas eleitorais, mas também na comunicação de governos eleitos.

Nas eleições americanas de 2016, quando o republicano Donald Trump foi eleito, o uso das redes – e, em especial, o Facebook – para espalhar desinformação e tentar influenciar os rumos do pleito ficou mais evidente.

A campanha que deu a vitória ao republicano foi motivo de estudos e pesquisas, mais precisamente sobre as suspeitas de que notícias falsas influenciaram o debate em favor de Trump durante a disputa norte-americana.

Não é possível mensurar a real dimensão da influência das fake news nas eleições de Trump, mas é consenso de que elas tiveram algum papel no resultado. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, rebate essa ideia. Em entrevista ao site Techonomy, em novembro de 2016, ele afirmou que o Facebook não teve nenhum impacto no resultado das eleições. “As pessoas votam com base em suas experiências de vida”, disse.

No Brasil, o uso de contas falsas por parte de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, muitas delas propagadoras de notícias falsas, também tem seu papel no debate público.

Em julho, o Facebook anunciou a remoção de páginas e perfis ligados a integrantes dos gabinetes de Jair Bolsonaro e seus filhos. Foram derrubadas 88 páginas e contas tanto na rede social de Mark Zuckerberg quanto no Instagram, que pertence ao Facebook.

A empresa afirmou que a derrubada das páginas foi consequência de uma apuração sobre “comportamento inautêntico coordenado” nas redes sociais brasileiras. As atividades identificadas envolviam a criação de perfis falsos fingindo ser veículos de imprensa e a disseminação de ataques à oposição e à mídia.

A remoção alimentou a tese da existência do chamado “gabinete do ódio”, núcleo revelado pelo jornal Estado de S. Paulo em 2019. O gabinete comandaria um esquema de divulgação de notícias falsas e ataques virtuais, funcionando de dentro do Palácio do Planalto, sede do governo federal. A intenção do núcleo seria engajar os apoiadores mais ferrenhos do presidente.

Em outubro de 2018, o jornal Folha de S.Paulo começou a publicar uma série de reportagens que revelaram que empresários tinham contratado empresas para fazer o disparo massivo de mensagens no WhatsApp – também de propriedade do Facebook – em uma campanha contra Fernando Haddad, candidato do PT que enfrentaria Bolsonaro nas urnas naquele ano.

Um ano depois, em outubro de 2019, Ben Supple, executivo da empresa, admitiu publicamente pela primeira vez, sem citar nomes de candidatos, que houve o uso de disparos massivos de mensagens nas eleições de 2018.

Impulsionar conteúdo nas redes sociais para atingir um grande número de pessoas é permitido, contanto que esse gasto seja devidamente declarado à Justiça Eleitoral e o serviço seja contratado pela campanha diretamente com as plataformas, sem burlar os termos de uso das redes. O impulsionamento deve ser feito apenas para conteúdos que promovam os candidatos, e não para atacar adversários.

‘O dilema das redes’

A publicação de trechos do memorando de Zhang chega uma semana depois da Netflix lançar o documentário “O dilema das redes”, dirigido pelo americano Jeff Orlowski.

No filme, ex-executivos do Vale do Silício – incluindo alguns que passaram pelo Facebook – acusam as empresas que controlam as redes sociais de fazerem vista grossa para situações nas quais as plataformas são usadas para influenciar politicamente os rumos de um país.

Durante as entrevistas, eles advogam para que sejam criadas leis que regulamentem os direitos e os deveres das redes sociais como forma de minimizar as consequências negativas que surgem a partir do uso delas.

Atualmente, procedimentos legais só são acionados quando uma postagem incide em outros crimes já previstos – como calúnia e difamação, por exemplo.

É consenso entre os entrevistados do filme que sem uma regulamentação ou uma mudança interna na mentalidade dessas empresas, a polarização e a propagação de desinformação só vai aumentar, contribuindo para o caos político visto em vários países do mundo.

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