Qual a imagem internacional do Brasil em meio à pandemia

O ‘Nexo’ conversou com três acadêmicos brasilianistas sobre as reações à atitude de Bolsonaro na área saúde. Críticas se somam a preocupações ambientais que já aparecem desde 2019

A imprensa internacional vem destacando como a imagem do Brasil está derretendo diante das convulsões políticas, econômicas e ecológicas do governo Jair Bolsonaro, somadas à crise da pandemia de covid-19.

Bolsonaro é líder do negacionismo do novo coronavírus no mundo, segundo definiu em março a revista americana The Atlantic. Quebrar o Brasil” ou “levar o país ao desastre” são outros prognósticos que aparecem associados ao presidente, como pontuou a agência britânica BBC, em maio.

Ao jornalista Nelson de Sá, do jornal Folha de S.Paulo, o ex-ministro Rubens Ricupero descreveu a imagem do país no exterior como “o lugar de que as pessoas têm medo.

Transformado em pária internacional, na expressão de Alexander Busch, correspondente da agência alemã DW, o governo brasileiro também foi discutido na imprensa europeia em junho e na mídia japonesa em julho.

Na época, Bolsonaro foi alvo de queixa no TPI (Tribunal Penal Internacional), de Haia, acusado de crimes contra a humanidade e genocídio, por ações e omissões durante a pandemia do novo coronavírus.

A melhora da popularidade interna

A críticas a Bolsonaro diante da pandemia ocorreram dentro e fora do país, diante de uma atitude anticientífica diante da maior crise sanitária do século. Mas internamente, mesmo com o Brasil cruzando a marca de 100 mil mortos por covid-19, certo otimismo passou a prevalecer entre a população.

A avaliação positiva interna no país ganhou impulso, entre outros fatores, pelo pagamento do auxílio emergencial, um benefício para trabalhadores informais e autônomos cujo valor de R$ 600 foi definido pelo Congresso e pago entre abril e agosto - de setembro até o fim do ano, o valor será de R$ 300.

Internacionalmente, porém, as críticas ganharam reforço com a volta das queimadas na Amazônia, um problema que já havia desgastado a imagem de Bolsonaro no exterior em 2019. As suspeitas de corrupção envolvendo a família Bolsonaro também ganharam destaque.

A imagem internacional sob análise

O Nexo conversou com três acadêmicos brasilianistas sobre a imagem internacional do Brasil de Bolsonaro. São eles:

  • Gladys Mitchell-Walthour, cientista política americana, professora do Departamento de Estudos Africanos e da Diáspora Africana, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, e co-coordenadora da rede US Network for Democracy in Brazil
  • James Green, historiador americano, professor de história latino-americana moderna e estudos luso-brasileiros na Universidade Brown, onde é diretor da Brazil Initiative
  • Oliver Stuenkel, cientista político alemão, professor adjunto de relações internacionais na FGV (Fundação Getulio Vargas), em São Paulo, e integrante do GPPi (Instituto de Política Pública Global), em Berlim

Primeiro, por que o interesse pelo Brasil? Há quanto tempo pesquisa assuntos relacionados ao país?

Gladys Mitchell-Walthour Na Universidade de Duke, assisti a uma aula chamada “Afro-Brazilian History and Culture” [História e cultura afro-brasileira, em tradução literal], ministrada pelo historiador John French. Aprendi muito e pensei que seria interessante analisar diferenças e similaridades das situações da população negra no Brasil e nos EUA. Depois dessa aula, decidi estudar o Brasil. Foi o foco do meu mestrado na Universidade de Michigan e do doutorado na Universidade de Chicago. Publiquei o livro “The Politics of Blackness: Racial Identity and Political Behavior in Contemporary Brazil” [A política da negritude: Identidade racial e comportamento político no Brasil contemporâneo, em tradução literal] (2018) e hoje pesquiso a importância de youtubers negros brasileiros na luta contra a discriminação, homofobia e sexismo. Minha primeira viagem ao Brasil foi em 2003, e depois disso já visitei o país muitas vezes. Consegui um Fulbright [uma bolsa de estudos da Comissão Fullbright, uma organização internacional vinculada aos governos do Brasil e dos EUA] para voltar em 2020, mas a pandemia aconteceu.

James Green Em 1973, conheci um exilado brasileiro em Washington [Estados Unidos], que estava fazendo uma campanha denunciando a tortura no Brasil [na época, sob ditadura militar] e comecei a ajudá-lo. Depois, conhecendo outros brasileiros, fiquei encantado com a cultura e muito curioso para conhecer o país. Ainda em 1973, viajei ao Brasil pela primeira vez, a partir da fronteira da Colômbia, descendo o Rio Solimões para Manaus (Amazonas), depois Santarém e Belém (Pará). Viajei pelo Norte e o Nordeste, até chegar a São Paulo, onde, em vez de ficar seis meses, fiquei seis anos. Lá, fui um dos fundadores do movimento LGBTI, o grupo Somos. Também militei contra a ditadura militar no Brasil [1964-1985]. Anos depois, voltei aos EUA para fazer o doutorado na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), onde desenvolvi uma pesquisa sobre a história da homossexualidade masculina no século 20 no Brasil e, a partir desse momento, comecei minha carreira como brasilianista. Além de cinco coletâneas em português, coeditadas com outros colaboradores, publiquei três livros: “Além do carnaval: A homossexualidade masculina no Brasil do século 20” (1999), “Apesar de vocês: Oposição à ditadura brasileira nos Estados Unidos, 1964-1985” (2011) e “Revolucionário e gay: A vida extraordinária de Herbert Daniel” (2018). Atualmente, estou trabalhando em dois livros: o primeiro é “Geração 77”, sobre as mobilizações de jovens contra a ditadura brasileira nos EUA; o segundo é sobre o Rio de Janeiro entre 1860 e 1920, principalmente o centro da cidade, a Praça Tiradentes, como espaço de lazer e prazer.

Oliver Stuenkel Nasci na Alemanha, passei parte da infância nos EUA e, desde 1995, passo temporadas no Brasil, em função da minha família. Foi justamente nos anos 2000 que o Brasil se tornou um dos objetos de estudo de maior interesse global. Na época, passei a estudar a política externa brasileira, no contexto dos Brics [grupo de países emergentes, acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], estudos posteriormente publicados nos livros “Brics e o futuro da ordem global” (2017) e “O mundo pós-ocidental: Potências emergentes e a nova ordem global” (2018). De lá para cá, o Brasil viveu dez anos muito difíceis, de 2010 a 2020, atravessando momentos de crises em termos de crescimento econômico e de estabilidade política, o que limitou bastante o espaço do país no nível global. Hoje, por exemplo, estou escrevendo um livro sobre o papel do Brasil na disputa tecnológica entre EUA e China.

Qual é a imagem que fica do país, diante da pandemia de covid-19?

Gladys Mitchell-Walthour É um horror. Infelizmente, não posso dizer que os EUA estão fazendo melhor. Porém, a imagem do Brasil começou a derreter depois de práticas antidemocráticas, como o impeachment da presidente Dilma Rousseff [em 2016] e a ameaça à liberdade de professores que quiseram dar aulas sobre o acontecimento, além da ameaça constante a militantes negros, indígenas e LGBTI. A crise da pandemia deve estar localizada dentro desse contexto de crescimento da extrema direita e de clima antidemocrático. A maior preocupação é o impacto de negligência do governo diante das comunidades mais vulneráveis, como as comunidades negra, indígena e periférica. Devido ao histórico de racismo e exclusão social, essas comunidades já tiveram desafios para obter comida, educação de qualidade, emprego. E, agora, têm chances maiores de morrer de covid-19 do que os brancos – determinantes de saúde moldados pelo racismo e exclusão social. Sem políticas públicas pensadas especificamente para essas comunidades, a situação só vai piorar.

James Green Na verdade, a imagem do Brasil está muito queimada desde a eleição de Jair Bolsonaro, que é conhecido internacionalmente como um político da extrema direita, na linha de Donald Trump: é homofóbico, racista, retrógrado. E essa imagem é constante, mas reforçados em 2019 com os incêndios na Amazônia e, em 2020, com a incapacidade de lidar com a covid-19. Primeiro copiando Trump, Bolsonaro negou a covid-19 e inventou receitas de curas falsas e fantasmas, com o mesmo estilo agressivo contra seus inimigos. Além disso, cria-se a imagem de dois irmãos “gêmeos”: Bolsonaro defende a ditadura militar, Trump defende confederados, isto é, o sul na guerra civil americana – e ambos são racistas. Embora a Índia tenha ultrapassado o Brasil em número de casos, a covid-19 não foi vencida no Brasil e a tendência só é crescer sob uma política totalmente inadequada, o que deve manter a imagem internacional negativa do Brasil.

Oliver Stuenkel Indo bem ou mal, o Brasil ainda desperta interesse global – atualmente não uma admiração, mas um foco de preocupação. É outro tipo de visibilidade. Quando pensamos na “imagem” do país, também precisamos pensar: para quem? Pois a mudança da imagem internacional do Brasil não foi acidental, foi calculada politicamente: é fruto de uma narrativa contra o establishment global, a ideia de combate ao globalismo”, que é a base da política externa do Brasil sob Bolsonaro. Isto é, embora possa surpreender analistas, essa ruptura era esperada: Bolsonaro está entregando o que prometeu ao núcleo duro bolsonarista. Quando, enfim, pensamos na “imagem” do país, há de se pensar as imagens para analistas, diplomatas, empresas (que muitas vezes firmam acordos independentemente de quem estiver no poder), opinião pública lá fora e no Brasil. Em geral, o Brasil foi um dos países cuja reputação mais sofreu durante a pandemia: no mundo inteiro, tornou-se símbolo do negacionismo da ciência. Entretanto, o presidente não fala para o país, fala para seu eleitorado fiel, sua coalizão. Neste contexto, quanto mais isolado o Brasil estiver no nível internacional, melhor para Bolsonaro politicamente. Dito isso, diria que o maior desafio está na questão ambiental, que se transformou em um tema do mainstream político – e o Brasil pode ser visto então como fonte de um problema maior, de impacto global.

Neste contexto, que futuro imagina para o Brasil?

Gladys Mitchell-Walthour Gostaria de imaginar a integração contínua dos negros em todas as esferas da sociedade. Já houve aumento de acesso de negros às universidades nos últimos anos, mas agora deveria ter mais ainda e esses estudantes conquistando empregos sem as barreiras do racismo, classismo, sexismo. Também gostaria de imaginar um fortalecimento da democracia e das normas democráticas no Brasil, um país de possibilidades e esperanças.

James Green Por personalidade, sou muito otimista. O Brasil vai sair desse pesadelo, que é o governo de Bolsonaro. Pode demorar um tempo. Quando ele foi eleito, imaginava-se 12 anos com a direita no poder, mas a situação é muito mais dinâmica e a aparência de apoio de Bolsonaro não deve durar muito, pois ele não poderá sustentar e forjar uma nova relação com o povo, a título de serviço social e assistência social. Não se sabe como será 2022, mas aposto que as forças de esquerda voltam ao poder para tentar implementar um projeto para a sociedade para enfrentar a desigualdade social, a discriminação, a marginalização. Apesar da conjuntura horrível no momento atual, acredito que o Brasil vai conseguir superar e vai vencer as lutas por uma sociedade mais justa.

Oliver Stuenkel O que é importante é que a imagem de um país se constrói a partir de muitos fatores, e o governo é apenas um deles. Isso quer dizer que não depende só de quem está no Executivo, do presidente da República. O Brasil, afinal, possui muitos empresários, artistas e acadêmicos que têm laços com o resto do mundo. Apesar da atual ameaça autoritária, até hoje esses atores, principalmente lideranças da sociedade civil, têm sido muito importantes para mitigar o impacto negativo do presidente para o Brasil. A imagem do Brasil não é só Bolsonaro. A curto prazo, sou pessimista. A longo prazo, otimista.

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