Por que a vacinação de crianças continua caindo no Brasil

Imunização contra poliomielite, tuberculose e meningite diminui desde 2015. Especialistas alertam para o risco da volta de enfermidades que haviam saído de circulação

    Menos crianças brasileiras tomaram vacinas em 2019. Um levantamento do jornal Folha de S.Paulo, a partir de dados do Programa Nacional de Imunizações publicado no início de setembro, revela uma queda em relação a períodos anteriores na cobertura de todas as vacinas que devem ser tomadas por crianças de até um ano no país.

    São doses contra doenças como sarampo, poliomielite, tuberculose, meningite, rubéola e hepatite B, entre outras. Em alguns casos, a redução da cobertura é acentuada. Caso da proteção contra a poliomielite, que regrediu de 100% para cerca de 82% em 12 anos.

    A cobertura para tuberculose e a chamada vacina pentavalente, que cobre infecções como difteria, tétano e coqueluche, entre outras, despencou de 94,9%, em 2014, para 69,6%, em 2019.

    A tendência de redução da cobertura vem sendo observada desde 2014. Um relatório de 2019 da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) chamou a atenção para reduções de alcance da vacinação no país entre 2015 e 2017 para doenças como poliomielite e sarampo.

    No entanto, 2019 foi o primeiro ano em que nenhuma das nove vacinas recomendadas para crianças de até um ano atingiu a meta de vacinação, situada entre 90% e 95% da população.

    Por causa da pandemia do novo coronavírus, a situação não deve melhorar em 2020. Em maio, profissionais de saúde já relatavam uma procura menor por vacinação infantil devido ao isolamento social. No mês de julho, a ONU (Organização das Nações Unidas) alertou que a imunização de crianças em todo o mundo havia diminuído de forma “alarmante”.

    “No Brasil, Bolívia, Haiti e Venezuela, a cobertura de imunização (para sarampo, tétano e difteria) caiu em pelo menos 14 pontos percentuais desde 2010”, declarou a organização em nota.

    A gravidade das doenças

    Poliomielite

    Também conhecida como paralisia infantil, é transmitida pelo poliovírus. Pode infectar crianças e adultos e, nos casos mais graves, levar a sequelas como dores nas articulações, atrofia muscular, deformidades nos pés e dificuldade para falar. A doença é considerada erradicada do país desde 1994 pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    Meningite

    Transmitida por vírus ou bactérias, é uma inflamação aguda das membranas que protegem o cérebro e medula espinhal. Sequelas comuns incluem perda de audição e visão, problemas no desenvolvimento motor, dificuldade de aprendizagem e paralisia. Em alguns casos, membros precisam ser amputados para evitar que a doença se espalhe pelo corpo. Pode matar se não tratada.

    Caxumba

    Doença viral que provoca a inflamação das glândulas responsáveis pela produção de saliva, levando ao inchaço da região abaixo do maxilar. Outros sintomas incluem febre, dor de cabeça e fadiga. É comum que, em homens adultos, a doença provoque orquite (inflamação nos testículos) e, nas mulheres, mastite (infecção do tecido mamário).

    Tuberculose

    Doença bacteriana que afeta principalmente os pulmões e pode deixar lesões residuais extensas no órgão se não tratada a tempo, levando à invalidez permanente por causa da dispneia, ou falta de ar. Tosse e expectoração com sangue são sintomas comuns entre os infectados. Dor no peito e perda de peso também podem ocorrer. Pode levar a óbito.

    Os motivos da queda da cobertura vacinal

    De acordo com especialistas da área de saúde, a diminuição da cobertura está paradoxalmente relacionada ao sucesso das iniciativas de imunização do país.

    “Hoje em dia, a gente tem adultos de uma geração que não teve que lidar com surtos que a maioria das vacinas do Programa Nacional de Imunizações previne”, afirmou ao Nexo o virologista Rômulo Neris, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    “A perda da memória desses eventos na população causa uma maior complacência e faz com que as pessoas sintam menos necessidade de seguir o Programa Nacional de Imunizações”, declarou o cientista.

    Outro fator, segundo os pesquisadores ouvidos pelo Nexo, são os movimentos antivacina, que ganharam força por meio das redes sociais. “Eles acabam confundindo pessoas de todas as classe sociais”, disse Lessandra Michelin, diretora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). “Vai ficando cada vez mais difícil que as pessoas vejam como as vacinas são importantes e salvam vidas.”

    Em 2019, houve em diversos municípios falta de vacinas pentavalente e BCG, que é aplicada em recém-nascidos e protege contra formas graves da tuberculose.

    “Alguns municípios passaram a evitar abrir um frasco [que tem dez doses] à toa para otimizar. Mas se não faz a vacinação na maternidade, a cobertura cai. E se chega no posto e ouve que é para voltar dali a dois dias, não volta”, disse Isabella Ballalai, da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações), ao jornal Folha de S. Paulo.

    Para os pesquisadores ouvidos pelo Nexo, é essencial que autoridades reforcem e ampliem campanhas de conscientização a respeito dos benefícios da imunização. E não só para as crianças, pontua Michelin, da SBI, mas também para “adultos, adolescentes, idosos e gestantes. Todos têm calendário vacinal específico.”

    Para Nêris, da UFRJ, também é importante favorecer e facilitar o acesso dos jovens à medicina preventiva em geral. “Temos essa cultura no país de procurar assistência médica em situações mais agudas, de maneira interventiva”, lembrou o especialista.

    Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro foi criticado por uma postagem nas redes sociais em que dizia que o Estado não podia obrigar as pessoas a tomar vacina. A declaração foi dada em referência a uma eventual vacina contra a covid-19. A Secom (Secretaria de Comunicação Social) do governo reforçou a mensagem em outro post.

    A gente não pode injetar qualquer coisa nas pessoas e muito menos obrigar. Eu falei, inclusive, que ninguém vai ser obrigado a tomar vacina, e o mundo caiu na minha cabeça. A vacina é uma coisa que, no meu entender, você faz a campanha e busca uma solução. Você não pode amarrar o cara e dar a vacina nele

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em referência a uma futura vacina contra a covid-19

    As declarações do presidente contrariam medidas de seu próprio governo. Em 6 de fevereiro de 2020, Bolsonaro assinou uma lei que estabelece a obrigação da vacinação e de outras medidas preventivas em meio à pandemia do novo coronavírus.

    Em reação ao comentário de Bolsonaro, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que “os movimentos antivacina podem criar narrativas para lutar contra a vacina, mas os números das vacinas nos contam a sua própria história”. “As pessoas não devem ser confundidas por movimentos antivacina, mas ver como o mundo usou vacinas para combater a mortalidade infantil e para erradicar doenças. Olhe os relatórios das vacinas, olhem vocês mesmos, especialmente os pais, como as vacinas mudaram o mundo”, afirmou.

    Uma pesquisa de 2019 realizada pelo Ibope mostrou que 7 em cada 10 brasileiros já acreditaram em uma notícia falsa relacionada à vacinação. Entre os que acreditaram na desinformação, 48% disseram que usam redes sociais e aplicativos de conversa como fonte principal de informação relacionada à vacinação. De todos os entrevistados, 57% não se vacinaram, apontando motivos relacionados à desinformação como justificativa.

    Os riscos para a saúde pública

    De acordo com profissionais da saúde, a queda na imunização pode trazer de volta doenças que tinham saído de circulação. Foi o que aconteceu com o sarampo a partir de 2019, quando surtos começaram a ser registrados no país e o número de casos cresceu exponencialmente. Em maio de 2020, havia transmissão ativa da doença em 19 estados.

    “O seu reaparecimento é o exemplo da vulnerabilidade para qualquer doença não erradicada, incluindo a rubéola e a poliomielite”, disse Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), em nota da entidade publicada em 2019.

    Países asiáticos como Malásia e Filipinas registraram o retorno da poliomielite depois que houve queda na imunização da população. Parte da redução foi atribuída à desinformação a respeito dos efeitos das doses, gerando desconfiança. As Filipinas não tinham um caso de poliomielite há 19 anos. A extensão da cobertura de vacinação contra a doença no país caiu recentemente para apenas 66% da população, nível um pouco abaixo do observado no Brasil em 2019.

    De acordo com o Datasus (plataforma que organiza os dados do Sistema Único de Saúde), as vacinas contra poliomielite não alcançam a meta de cobertura no país desde 2011. Em 2016, apenas 43,1% das cidades brasileiras atingiram a meta, que é de uma cobertura de 95%.

    “Essas doenças afetam não só as crianças, que podem ficar com sequelas, mas também seus familiares, sendo que muitos são pessoas com comorbidades, e também os avós, que podem ter doenças graves”, ressaltou Michelin, da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Isso tem impacto na ocupação de leitos de hospital, que hoje já são limitados e que não precisamos ocupar com doenças que conseguimos prevenir com vacinas. As vacinas previnem internação hospitalar e custo em saúde pública.”

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