O aumento na desigualdade de renda do trabalho na pandemia

Números do FGV Social mostram queda da renda do trabalho no Brasil. Parcelas mais pobres da população foram as mais afetadas

    A desigualdade de renda do trabalho no Brasil bateu recorde no segundo trimestre de 2020. O dado foi divulgado no estudo “Efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho brasileiro”, publicado pelo FGV Social (Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas) na quinta-feira (10).

    O estudo – conduzido pelo economista Marcelo Neri – se baseia nos dados da Pnad Contínua, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    A Pnad abrange um grupo representativo da população brasileira. A cada três meses, ela entrevista moradores de 211 mil domicílios por todo o território nacional, levando em conta localização e classe social. Por se tratar de uma amostra representativa, ela não engloba aqueles cuja renda está muito distante da realidade média brasileira.

    O estudo do FGV Social olha apenas para os dados de renda referentes ao trabalho. Portanto, não são contabilizados benefícios sociais como o auxílio emergencial, principal política do governo para suporte da população economicamente atingida pela crise.

    O ‘efeito anestesia’ do auxílio emergencial

    O benefício – que foi de R$ 600 entre abril e agosto e será reduzido para R$ 300 entre setembro e dezembro –, na prática, ajudou a diminuir a pobreza no Brasil a níveis historicamente baixos. Há, portanto, um movimento divergente: enquanto a desigualdade de renda do trabalho aumenta, a desigualdade de todas as rendas, que considera o auxílio, cai.

    Segundo o estudo, isso aponta para uma piora da desigualdade no Brasil no momento em que o auxílio emergencial e seu “efeito anestesia” forem retirados. A situação social pode piorar ainda mais.

    A disparidade entre a trajetória da desigualdade de renda do trabalho e a desigualdade de todas as rendas deve ser utilizada, afirma o estudo, como referência na elaboração de políticas públicas depois da pandemia, para impedir que o estrago seja ainda mais profundo do que os números apontam.

    O que o estudo leva em consideração

    Para medir a desigualdade, o estudo da FGV calcula o índice de Gini para a renda do trabalho dos brasileiros. Entram na conta trabalhadores tanto formais como informais, assim como desempregados (para quem a renda efetiva do trabalho é zero).

    O índice de Gini, é um coeficiente matemático que calcula a concentração de algo – pode ser renda, votos, nível de educação ou outra coisa. O Gini varia de 0 a 1, sendo que o 0 corresponde à igualdade total e o 1 corresponde à desigualdade completa. Quanto mais alto for o índice, maior a desigualdade.

    A desigualdade de renda do trabalho no Brasil

    A pandemia do novo coronavírus atingiu a economia brasileira em um momento ruim. O país saíra havia pouco tempo de uma forte recessão, que começou no segundo trimestre de 2014 e foi até o final de 2016.

    Na toada da crise, a desigualdade de renda do trabalho começou a crescer a partir de 2015, algo que continuou até 2019. Em entrevista ao Nexo, em fevereiro de 2020, Marcelo Neri explicou que essa alta da desigualdade por mais de quatro anos esteve ligada aos movimentos do mercado de trabalho. Houve elevação do desemprego, aumento da informalidade e queda na renda média – com queda muito maior na parcela mais pobre da população.

    A desigualdade de renda começou a cair em meados de 2019. Mas a nova crise causada pela pandemia trouxe consigo um novo impulso para a desigualdade no Brasil.

    DESIGUALDADE EM ALTA

    Índice Gini – Desigualdade de renda do trabalho no Brasil. Aumentou entre 2015 e começo de 2019, começou a diminuir em meados de 2019 e em 2020 voltou a subir em ritmo forte.a

    O gráfico acima mostra como caminhou a desigualdade de 2013 até metade de 2020. Além do índice de Gini de cada trimestre, ele mostra também a média móvel da trajetória da desigualdade. Essa média é feita através da soma dos índices dos últimos quatro trimestres, dividida por quatro, de modo a corrigir efeitos que a época do ano tem sobre a trajetória dos dados – a desigualdade tende a ser mais alta no primeiro trimestre do ano. O resultado desse tratamento nos dados é uma curva com menos vales e picos, que mostra a tendência da trajetória da desigualdade.

    A queda na renda dos brasileiros

    O estudo do FGV Social também traz dados sobre a renda média dos brasileiros na pandemia, para além do problema da desigualdade. E os números confirmam que houve uma queda significativa na renda média do trabalho da população.

    20,1%

    foi a queda na renda média do trabalho da população brasileira no segundo trimestre de 2020, na comparação com os três primeiros meses do ano

    Essa queda na renda não afetou as diferentes parcelas da população de forma igual. A assimetria revela que quem pertence à metade da população com menor renda foi mais prejudicado, perdendo mais de um quarto da renda do trabalho, na média. Os 10% mais ricos também tiveram perdas nos rendimentos, mas não tão substanciais. Essa diferença ajuda a explicar o aumento da desigualdade da renda do trabalho no Brasil na pandemia.

    TODOS PERDEM. UNS PERDEM PERDEM MAIS

    Queda na renda do trabalho entre o 1° e o 2° trimestre de 2020. 50% mais pobres perderam bem mais que os 10% mais ricos

    Sob óticas que não a da renda, outros grupos que registraram perdas consideráveis foram os indígenas, os analfabetos e os jovens de 20 a 24 anos. Na média, as mulheres tiveram perda na renda ligeiramente superior à dos homens.

    Em termos geográficos, os estados onde a renda média do trabalho foi mais atingida foram Pernambuco, Alagoas, São Paulo, Bahia e Piauí, em ordem decrescente.

    O que está por trás dos números

    O estudo mostra que há diversos motivos por trás da queda da renda média dos brasileiros. O principal fator identificado é a redução da jornada de trabalho, seguida pela queda na participação da população no mercado de trabalho.

    A redução da jornada de trabalho e salário foi uma das principais respostas do governo à crise, permitindo que empresas entrassem em acordo com funcionários para reduzir o expediente e a remuneração em até 70%. O governo entra com dinheiro para compensar em parte as perdas de rendimentos dos trabalhadores.

    A ideia da medida era arrefecer o ritmo de demissões por conta da crise. Segundo dados do Ministério da Economia, mais de 9,7 milhões de trabalhadores tiveram seus contratos alterados até 11 de setembro. Isso contribuiu para a queda do rendimento médio do trabalho dos brasileiros.

    Em paralelo a essa redução, milhões de pessoas perderam o emprego, sendo que a maioria não procurou trabalho depois disso – seja por medo do contágio pelo coronavírus ou por falta de vagas no local onde mora. Ou seja, muitos brasileiros simplesmente se retiraram do mercado de trabalho, o que ajudou a derrubar a renda média do trabalho.

    Segundo cálculos do estudo da FGV, a queda na participação no mercado de trabalho poderia ter sido muito maior se não fosse a autorização do governo para reduzir salários e jornadas. Portanto, apesar de afetar negativamente a renda dos brasileiros, a medida foi importante para impedir um estrago maior – e mais difícil de se recuperar – no mercado de trabalho.

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