O estrago da onda de incêndios para os animais do Pantanal

Queimadas atingiram áreas em que estão as maiores concentrações de araras-azuis e onças-pintadas no mundo. A fauna poderá levar de 20 a 30 anos para se recuperar completamente

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    Os incêndios no Pantanal em 2020 já consumiram, até a segunda semana de setembro, 2,3 milhões de hectares, o que equivale a uma área dez vezes maior que as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro juntas. Nesse espaço estão diversas espécies animais que vêm sendo carbonizadas ou obrigadas a se deslocar por longas distâncias para fugir das chamas.

    Vários são os relatos de espécimes encontrados mortos em estradas e trilhas, como serpentes, jacarés, lagartos, jabutis, tamanduás e macacos. E os que sobrevivem exigem socorro veterinário, que demorou semanas a ser oferecido pelo poder público.

    Voluntários então se organizaram para resgatar os animais que encontrassem, contando para isso com o apoio financeiro de uma vaquinha na internet. Com a entrada do poder público em ação, o trabalho passou a ser articulado em conjunto com bombeiros e policiais militares, alem de instituições privadas e do terceiro setor. A coordenação é da Sema (Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso).

    O Pantanal se estende por uma área de 250 mil km² entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Cerca de 60% se encontra em território nacional, sendo considerado o bioma mais preservado do país, com 83% de cobertura vegetal nativa. O Pantanal guarda também a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a Amazônia.

    O tamanho dos incêndios

    Os incêndios atingem o Pantanal de forma mais sistemática desde o final de julho, quando a estiagem ficou mais intensa, e a umidade caiu para um índice menor que 10%. Em 2020, a região registrou a maior seca em 47 anos.

    A culpa, no entanto, não é só do clima. Segundo perícia do Corpo de Bombeiros, alguns focos de queimada começaram de forma criminosa e intencional. Produtores rurais, pecuaristas e madeireiros “limpam a terra” com fogo para desenvolver suas atividades econômicas, disse ao Nexo Rosângela Ribeiro, gerente de programas veterinários da ONG (organização não-governamental) Proteção Animal Mundial. Não raro, as chamas saem de controle e se estendem pela mata.

    Os dois fatores, somados a alta disponibilidade de biomassa inflamável, como folhas e galhos secos, geraram o maior número de pontos de incêndio desde o início dos registros, em 1998. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o número de focos de queimadas no primeiro semestre de 2020 cresceu mais de 200% em relação ao mesmo período de 2019 no Pantanal.

    10.316

    é o número de focos de queimada entre o início do ano e 3 de setembro, segundo o Inpe

    O número é maior que todos os focos registrados no Pantanal entre 2014 e 2019 somados: 10.048. E o acumulado em 2020 pode ser ainda maior, já que setembro é historicamente o mês com a média mais alta de focos, já que as chuvas costumam chegar só na segunda metade de outubro.

    12%

    é a porcentagem de cobertura vegetal de todo o Pantanal perdida só em 2020, até o início de setembro

    A destruição acomete campos de gramíneas e ervas, florestas, palmerais, arbustos e toda a fauna que transita por esses espaços. Ao site National Geographic, Cátia Nunes da Cunha, pesquisadora do Centro de Pesquisas do Pantanal, disse que a vegetação rasteira leva até cinco anos para se recuperar, mas as demais e os animais podem demorar de 20 a 30 anos para voltar aos níveis de antes das chamas.

    O impacto das queimadas nos animais

    Durante as buscas, a maior parte dos espécimes encontrados costuma já estar morta. Os quatis, por exemplo, “têm ampla distribuição e, por isso, são achados com frequência, mas os animais que mais morreram são os répteis, principalmente as serpentes”, disse ao site Jornalistas Livres José Salomão, veterinário e voluntário nos resgates.

    Espécies lentas, como as antas, dificilmente conseguem escapar. Mas mesmo as rápidas, como onças-pintadas, não saem ilesas. É comum que esses animais fiquem com as patas queimadas, desenvolvam infecções e tenham dificuldade para encontrar refúgio.

    Também ao site Jornalistas Livres, Eduarda Fernandes Amaral, guia turística e fundadora do grupo de voluntários, afirmou que o maior desafio é acessar os locais em que os animais estão possivelmente se abrigando. O resgate, segundo ela, é estressante, especialmente para bichos já debilitados.

    Ao jornal O Globo Helena Aimeé Santos Lima, estudante de veterinária e voluntária, disse que outro problema é a fumaça. Para quem resgata, ela dificulta as buscas porque a exposição contínua faz os olhos arderem e prejudica a respiração. Para os animais, mesmo que escapem das chamas, sua inalação pode queimar o trato respiratório e levar à morte.

    “A fumaça é muito perigosa pois causa asfixia, irrita as vias respiratórias e causa pneumonia tardia e até danos neurológicos. Alguns animais podem não apresentar sintomas de 24h a 48h após o evento. Estima-se que 50% a 80% das mortes [de animais] por incêndio sejam causadas por inalação, não por queimaduras”

    Rosângela Ribeiro

    gerente de programas veterinários da ONG Proteção Animal Mundial, em entrevista ao Nexo

    Segundo Helena Lima, o vento também faz dos trabalhos uma tarefa interminável, porque todo dia ele carrega o fogo para um novo foco, prolongando os resgates e a circulação de fumaça. As cinzas, inclusive, podem tornar ambientes aquáticos inabitáveis, como já aconteceu em outras ocasiões no passado.

    Sobrevivendo à intoxicação, os animais, por fim, ainda enfrentam a inanição e a desidratação. Para isso, voluntários contam ao Globo que são montadas diversas ilhas de alimentação e água ao longo do Pantanal. Os lugares visados são pequenas poças de lama, que costumam se tornar pontos de referência para os bichos.

    Não há dados computados do número de animais mortos. Também não é possível estimar esse valor frente ao tamanho da destruição, que cresce e acomete mais bichos a cada dia.

    O caso das araras azuis

    Em agosto, os incêndios chegaram à Fazenda São Francisco do Perigara, no Mato Grosso, maior santuário de araras-azuis do mundo. O refúgio concentra 15% da população da espécie em risco de extinção, onde as aves vivem na natureza. O fogo na região, a 150 km de Cuiabá, foi controlado.

    Foto: Edson Diniz/Instituto Arara Azul - Divulgação
    Em pôr-do-sol, árvore está tomada por aves contra luz
    Araras-azuis buscam repouso na Fazenda São Francisco do Perigara

    A expectativa é que a arara-azul seja reavaliada na próxima lista de espécies ameaçadas, possivelmente voltando a integrar o grupo de animais “em perigo de extinção— até então ela é considerada “vulnerável”. Essa é a análise de Neiva Guedes, presidente do Instituto Arara-Azul, em entrevista ao blog Observatório do Pantanal.

    O fogo queimou 70% das palmeiras de acuri e bocaiúva, usadas pela ave para montar os ninhos e se alimentar. Como essas duas palmeiras compõem praticamente toda a dieta da arara-azul, é esperado que a demanda por alimento seja alta — a fazenda reúne também outras espécies de aves — e muitas não sobrevivam a longo prazo.

    Ao site o Eco a bióloga disse que elas ainda poderão sofrer com a predação de mamíferos. Como já aconteceu em outros episódios de queimadas, com menor disponibilidade de alimento, jaguatiricas e iraras escalam as árvores para caçá-las em seus ninhos. Isso sem contar o avanço da herpes vírus, que já vinha reduzindo as populações de araras-azuis da fazenda desde 2015.

    O caso das onças-pintadas

    Até quinta-feira (10), as chamas atingiram mais de 45% do Parque Estadual Encontro das Águas, no Mato Grosso, região com a maior concentração de onças-pintadas no mundo. São 109 mil hectares de área a 102 km de Cuiabá, dos quais 51 mil foram consumidos por focos de incêndio. Equipes de brigadistas seguem tentando controlar o fogo.

    Áreas de araras-azuis e onças-pintadas

    Mapa da região Centro-Oeste do Brasil, com destaque para duas regiões. Em amarelo, parque das onças; em vermelho, fazenda das araras

    Segundo moradores da região, o receio é que esse foco, que vinha subindo do Mato Grosso do Sul, se encontre com outro foco mais ao norte, da Transpantaneira, e intensificar a destruição.

    A onça-pintada é listada como “quase ameaçada”, um dos níveis menos preocupantes de risco de extinção. Por ser ágil, muitas conseguem escapar, ainda que com machucados. No entanto, tratando-se da região onde elas mais abundam, pode haver um impacto para a espécie.

    Segundo Wagner Ribeiro, professor de geografia da USP, a onça tem papel destacado no sistema de conservação porque ela está no topo da cadeia alimentar. “Se ela deixa de existir, várias outras espécies vão ter maior proeminência, e isso pode afetar radicalmente todo o conjunto de ciclos de vida do Pantanal”, afirmou em entrevista à Rádio Brasil Atual.

    A atuação oficial na preservação da fauna

    Moradores e órgãos ambientais já avisavam há meses sobre o avanço das chamas por territórios com alta diversidade de fauna no Pantanal. Muitos relatam que a magnitude do fogo e a dificuldade para combatê-lo são inéditos.

    Além do Pantanal, os biomas da Amazônia e Cerrado sofreram grandes perdas em 2020, registrando recordes nas taxas de desmatamento e queimada em diversas ocasiões. A pressão interna e investidores internacionais motivou um decreto federal que proibiu em todo o país queimadas por 120 dias, contados a partir de 16 de julho, devido ao clima seco do país no inverno.

    Entidades afirmam que o decreto só seria eficiente se fosse seguido de fiscalização constante. No entanto, o que acontece é o contrário. O número de fiscais vem sendo reduzido, e cargos de chefia de órgãos de fiscalização desocupados para dar lugar a militares.

    Ao Nexo Rosângela Ribeiro disse que o impacto na vida animal é reflexo direto das medidas aplicadas pelo governo para controlar os incêndios. Segundo ela, mesmo países com recursos e equipamentos modernos têm dificuldade para contenção de queimadas. No Brasil, a falta de pessoal, logística e ferramentas torna o desafio ainda maior. Pensar em rodízios de brigadistas, por exemplo, para não sobrecarregá-los, é impraticável.

    Seria preciso, de acordo com Ribeiro, um investimento maior em medidas de redução de risco, punições mais severas para incêndios criminosos, e treinamentos e equipamentos mais modernos.

    Além disso, ela diz que seria importante construir “hospitais de campanha próximos aos focos de incêndio, para receber os animais vitimados com mais brevidade e aumentar as chances de salvamento”. E também “recuperar áreas após as queimadas, com o intuito de ajudar os poucos animais sobreviventes e preservar a biodiversidade.”

    Colaborou com o mapa Sariana Fernandez.

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