Por que a vacina contra tuberculose vai ser testada para a covid-19

Estudos sugerem que a BCG, aplicada principalmente em crianças, pode atuar contra a doença do novo coronavírus

    O Brasil testará uma vacina aplicada principalmente em crianças como possível arma contra a covid-19 a partir de outubro. A BCG, que imuniza contra a tuberculose, será aplicada em 3.000 profissionais de saúde que atuam no enfrentamento da doença causada pelo novo coronavírus. A iniciativa é da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com o Murdoch Children's Research Institute, o instituto de pesquisa médica pediátrica da Austrália.

    O objetivo do experimento é avaliar se a BCG consegue proteger as pessoas da covid-19 ou, pelo menos, atenuar seus efeitos no organismo. Os voluntários do teste serão acompanhados pelo período de um ano. Eles terão que fazer teste para covid-19 antes de receber a vacina. Em caso de resultado positivo, não poderão participar.

    A Fundação Gates, do ex-presidente da Microsoft Bill Gates, é a patrocinadora do estudo, que se encontra já na terceira e última fase de testes. O projeto tem apoio da OMS (Organização Mundial da Saúde) e também envolverá profissionais do Reino Unido, Espanha e Austrália.

    Como a BCG pode agir

    Para a pneumologista Margareth Dalcolmo, que encabeça o estudo no Rio de Janeiro, a esperança é que a BCG aja contra o novo coronavírus da mesma maneira que combate outros patógenos e invasores. Além de normalmente proteger contra a tuberculose, a BCG também já mostrou eficácia contra o câncer de bexiga e doenças respiratórias.

    Pelo mundo, há vários outros estudos que vêm testando o potencial da BCG contra a covid-19. Os pesquisadores, no entanto, assinalam o caráter experimental das investigações. Ainda não é possível afirmar que a BCG protege contra o novo coronavírus.

    No Brasil, um grupo de pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), do Instituto Butantan, de São Paulo, e do INCT-DT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Doenças Tropicais) procura desenvolver uma vacina BCG “dupla, que proteja contra a tuberculose e a covid-19.

    A ideia é fazer com que a bactéria usada para fazer a BCG (para a primeira doença) produza proteínas — antígenos, como chamamos — do vírus SARS-CoV-2 e com isso imunizar as pessoas contra ele, afirmou Sérgio Costa Oliveira, coordenador do projeto e professor titular de imunologia da UFMG, à BBC.

    A pesquisa, que também tem como parceiros a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e o Instituto Karolinska, na Suécia, foi iniciada em março de 2020.

    Em outro trabalho, dois pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos EUA e um da Universidade Estadual da Virgínia realizaram investigações epidemiológicas que indicam uma ligação entre a vacinação de BCG e menos mortes de covid-19. Dados de diversos países europeus sugerem que para cada 10% de aumento no índice BCG de um país (que avalia a cobertura da vacina), há uma redução de 10,4% na mortalidade por covid-19.

    Países como Alemanha e Itália, que tiveram números altos de casos de covid-19, contam com baixa cobertura de BCG, pois a tuberculose foi reduzida significativamente e só indivíduos com alto risco são vacinados. Já Japão e China, que mantém programas de imunização por meio da BCG, foram menos afetados pela doença do novo coronavírus.

    Em outro levantamento, foram examinados os dados de 134 países que mantêm ou já mantiveram programas de vacinação em massa de BCG. Os pesquisadores constataram que a maioria dos que seguem com a imunização em larga escala reagiram melhor contra a covid-19.

    Segundo o trabalho, a taxa de crescimento de casos da doença foi “significativamente mais lenta” nos países com vacinação BCG obrigatória até pelo menos os anos de 2000 em comparação com países em que a vacinação não era obrigatória.

    O que é a BCG

    A vacina BCG é composta pelo bacilo de Calmette-Guérin, que resulta do enfraquecimento de uma das bactérias causadoras da tuberculose. No Brasil, ela é aplicada em crianças entre o nascimento e os cinco anos de idade.

    A BCG não é 100% eficaz contra a tuberculose pulmonar, mas sua aplicação em massa atua na prevenção de formas mais sérias da doença, como a meningite tuberculosa e a tuberculose miliar.

    No Brasil, a cobertura de diversas vacinas vem caindo desde 2015, problema acentuado pela pandemia, segundo dados preliminares do ministério da Saúde divulgados em setembro. No primeiro semestre de 2020, a cobertura da BCG, por exemplo, ficou em 57,4% do previsto pelas autoridades de saúde.

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