Testes da vacina: o tempo da ciência e o tempo dos políticos 

Horas antes da suspensão pela AstraZeneca, Pazuello havia dito que Brasil começaria a vacinar contra a covid-19 em janeiro. Revés mostra descompasso entre promessas de governos e protocolos científicos

    O laboratório farmacêutico AstraZeneca anunciou na terça-feira (8) a suspensão por tempo indeterminado dos testes com a vacina que vem desenvolvendo para a covid-19.

    A decisão foi tomada após um voluntário no Reino Unido ter apresentado reações adversas. O fato mostra que existe um descompasso entre o rigor exigido nos processos científicos e a ansiedade de políticos, muitos dos quais vêm prometendo uma cura rápida para a doença que até o início de setembro já havia deixado quase 900 mil mortos e mais de 27 milhões de pessoas contaminadas em todo o mundo.

    Em agosto, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos EUA, Donald Trump, menosprezaram a etapa de testes massivos, dizendo que as novas vacinas poderiam estar disponíveis em breve. No Brasil, na própria terça (8), horas antes da suspensão ser revelada, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a fixar uma data: “Janeiro a gente começa a vacinar todo mundo”.

    A vacina da AstraZeneca se encontra na última das três fases de testes clínicos e era considerada uma das mais avançadas no processo de desenvolvimento. Nesse estágio, a substância é inoculada em larga escala, para monitorar as reações no organismo humano. A detecção de adversidades num dos pacientes foi inicialmente reportada pelo site científico Stat e, na sequência, foi confirmada pelo próprio laboratório, que reafirmou o compromisso de não pular etapas para ganhar o mercado.

    “Queremos deixar claro nosso compromisso de desenvolver e testar possíveis vacinas para a covid-19 em conformidade com os mais altos padrões e princípios científicos”, disse a AstraZeneca em comunicado conjunto, assinado com outros oito gigantes do setor farmacêutico.

    Na quarta-feira (9), a OMS (Organização Mundial da Saúde) elogiou a decisão de interromper os testes para avaliar a segurança do imunizante, e afirmou que não espera que haja vacinação em massa para a doença antes de 2022.

    Cientistas envolvidos no experimento tentarão determinar a partir de agora se as complicações apresentadas por esse paciente no Reino Unido decorrem da inoculação da vacina ou de um acontecimento fortuito, que simplesmente coincidiu com a vacinação, sem estar diretamente ligada a ela.

    O laboratório sueco-britânico trabalha em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. O Brasil se associou a esse consórcio por meio da Fiocruz, sob supervisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para produzir a vacina no país. A agência governamental brasileira disse ter sido notificada do contratempo pela AstraZeneca e aguarda mais informações para poder se pronunciar oficialmente.

    50 mil

    é o número de pessoas que participam dos testes da fase 3 da vacina da AstraZeneca em todo o mundo

    5.000

    é o número de pessoas que participam desse mesmo teste no Brasil

    A vacina da AstraZeneca conduz os testes no Brasil, no Reino Unido, na Índia, na África do Sul e nos EUA. Nessa fase, a vacina é inoculada numa parte dos pacientes, enquanto outra parte recebe placebo. Apenas os pesquisadores sabem quem recebeu o quê.

    Qual a possível reação adversa

    O jornal americano The New York Times publicou informações de bastidor creditadas a uma fonte que pediu para não ser identificada, segundo a qual o paciente que apresentou reação adversa no Reino Unido teve mielite transversa.

    Essa síndrome inflamatória afeta a espinha dorsal, causando dores e, em casos extremos, paralisia. Citando médicos americanos, o jornal diz que a doença pode ser provocada por infecções virais, mas que é impossível determinar de imediato sua relação com os testes da vacina.

    A AstraZeneca usa um “vetor viral” para a produção de sua vacina, obtido a partir de um vírus modificado de chimpanzés. Os testes em humanos, na fase dois do experimento, não registraram reações adversas consideráveis.

    Ambição comercial e amarras científicas

    Paralisações como essa são comuns nesse momento de testagem. O laboratório diz que tomou a decisão de forma adiantada e voluntária, abrindo os protocolos para verificações independentes.

    Ainda assim, retrocessos na busca de vacinas e tratamentos da covid-19 representam perdas de oportunidades comerciais gigantescas. A AstraZeneca é uma das líderes mundiais do setor, e estava bem posicionada na corrida da covid-19. O mercado potencial para uma vacina é da ordem de mais de 7 bilhões de doses.

    Enquanto para os laboratórios essa é uma oportunidade de lucro, para os políticos é uma chance de acúmulo de prestígio eleitoral. Trump, por exemplo, fala na distribuição de vacinas nos EUA até o fim do ano. Ele é candidato à reeleição na disputa presidencial de novembro, e sua administração tem de responder pelo recorde mundial de mortes pela covid-19 registradas no país – mais de 188 mil mortes até o início de setembro.

    Qualquer passo atrás no cronograma traz, portanto, efeitos adversos em vários setores. No campo médico, dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que, a cada dia, morrem aproximadamente 5 mil pessoas por causa do novo coronavírus em todo o mundo.

    O próprio laboratório AstraZeneca havia mencionado a expectativa de contar com uma vacina no mercado até o fim de 2020. Esse cronograma se torna incerto com a paralisação das testagens na fase atual.

    Corrida inédita, mas com limitações

    A magnitude da pandemia da covid-19 disparou uma corrida sem precedentes pela descoberta de uma vacina. Diversos laboratórios trabalham em paralelo para encontrar a cura, e o mais provável é que o mundo tenha não apenas uma, mas várias vacinas disponíveis no futuro.

    Na segunda-feira (7), o laboratório chinês Sinovac anunciou que seu modelo de vacina contra a covid-19 mostrou-se segura, embora menos efetiva para ser administrada em idosos, que compõem um grupo particularmente vulnerável à doença.

    Essa é uma das vacinas que se encontram em fase de testes no Brasil, em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo do estado de São Paulo.

    Já o governo do estado do Paraná, por meio do Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná), trabalha em conjunto com laboratórios russos para o desenvolvimento de uma vacina batizada Sputnik-V. A droga ainda não concluiu a terceira fase de testes. Mesmo assim, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou no dia 11 de agosto que ela representava a cura para a doença.

    Além dessas, há ainda uma versão desenvolvida pela Universidade de Harvard, voltada especialmente para idosos. Mesmo nicho vem sendo explorado em outra frente, pela Pfizer, Johnson & Johnson e Moderna.

    De forma geral, o processo de desenvolvimento de vacinas é demorado e incerto. Até hoje, a vacina mais rápida a ficar pronta foi a contra a caxumba, criada nos anos 1960. Seu processo levou quatro anos.

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