Por que os preços dos alimentos estão subindo na pandemia

Arroz, tomate, óleo de soja, carne e leite tiveram alta no mês de agosto. Registrado desde o início do ano, aumento afeta principalmente as famílias de menor renda

    A inflação de agosto de 2020 foi de 0,24%, segundo divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (9). O número mostra a variação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), principal indicador usado para mensurar a mudança de preços no Brasil.

    Com o resultado, o Brasil acumula alta de 2,44% nos preços nos últimos 12 meses. O resultado é próximo ao piso da meta de inflação fixado pelo Banco Central.

    2,5%

    ao ano é o piso da meta de inflação do Banco Central em 2020. O teto é de 5,5%. As metas de inflação são um dos fundamentos da política macroeconômica brasileira desde o final dos anos 1990, e ajudam a guiar a atuação do Banco Central e do governo

    Em agosto, houve movimentos divergentes nas diferentes categorias de bens e serviços. Os preços de roupas, por exemplo, recuaram 0,78%. Os serviços ligados a educação caíram 3,47%, puxados principalmente por descontos em mensalidades de escolas e instituições de ensino superior. Já os bens e serviços da área de transporte tiveram alta de 0,82%, alavancados pelo aumento dos preços de combustíveis para veículos.

    Mas o grupo que tem ocupado o centro do debate público são os alimentos. A categoria teve, como um todo, alta de 0,78% em agosto. Mas, dentro disso, alguns produtos dispararam, descolando-se do resto e pesando mais no bolso dos brasileiros.

    Os alimentos que ficaram mais caros

    A alta dos alimentos em agosto foi puxada por produtos como tomate, leite, carnes, frutas, arroz e óleo de soja. O campeão foi o limão, que subiu 42,2% no período.

    Já o preço de produtos como cebola, alho, batata, pepino e feijão tiveram queda considerável no mês.

    Nos primeiros oito meses do ano, o arroz acumulou alta de 19,25%. O grão tem sido centro das atenções quando o assunto é inflação de alimentos. O pacote de cinco quilos, que normalmente custa R$ 15, chegou a níveis próximos de R$ 40 na virada de agosto para setembro.

    Outros produtos também acumulam alta no ano. A batata subiu cerca de 20% desde janeiro, assim como a cenoura e o leite. Já o feijão – mesmo com a queda no preço em agosto – subiu quase 30% desde o começo de 2020. A cebola, por sua vez, acumula alta de 50%.

    Esses alimentos são componentes importantes do consumo diário das famílias. O preço da cesta de quem come em casa está subindo desde o início do ano.

    Entre janeiro e agosto, a alimentação em casa ficou 6,1% mais cara, subindo consideravelmente mais do que o restante dos bens e serviços. O IPCA acumulado desde janeiro é de apenas 0,7%.

    ALIMENTOS EM ALTA

    Alimentos acima do IPCA em todos os meses desde janeiro, com exceção de fevereiro e julho

    O que está por trás da alta dos alimentos

    Quando se fala em movimento de preços, costuma-se olhar para duas esferas: a oferta e a demanda. Se há um descompasso e a oferta supera a demanda, os preços caem. Se o desequilíbrio é inverso e há mais procura do que oferta, os preços sobem. É esse segundo movimento que tem ocorrido com os alimentos em 2020.

    Do lado da oferta de alimentos, existem variações ligadas à época do ano, que influenciam a produção e as colheitas, e que podem levar a uma maior ou menor disponibilidade de certos bens. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o feijão carioca, cuja safra veio abaixo do esperado em 2020. Com menos feijão disponível no mercado, o preço subiu.

    Além disso, a disparada do dólar em 2020 ajudou a estimular a demanda externa por alimentos produzidos no Brasil. Quando o real se desvaloriza – e o dólar fica mais caro –, produtos brasileiros ficam mais baratos no mercado internacional. Assim, vale mais a pena para o produtor exportar e receber em dólar do que vender para o mercado interno em reais.

    Esse crescimento da demanda externa por bens produzidos no Brasil está ligado também ao princípio de recuperação de outras economias pelo mundo, como países europeus e, principalmente, a China, depois do impacto inicial da pandemia do novo coronavírus.

    A economia chinesa vem ganhando ritmo, e já iniciou um processo de recuperação no segundo trimestre, após forte tombo no começo do ano. Com isso, vem aumentando a demanda por produtos como carne e soja. A alta da demanda na China por carne importada também está relacionada à perda de parcela significativa de seus rebanhos suínos a partir de 2019, por conta da peste suína africana, doença que se espalhou pelas criações de porcos e diminuiu a disponibilidade de proteína no mercado interno.

    Com mais alimentos indo para fora do Brasil, a disponibilidade de alimentos para os brasileiros caiu. Isso se fez sentir, por exemplo, no caso do óleo de soja. Com boa parte do grão brasileiro indo para a China, há menos soja para produzir e vender o óleo no Brasil. Com a oferta em baixa, o preço aumenta.

    Esse conjunto de movimentos ocorreu em um contexto em que, por conta da pandemia, as pessoas estão ficando mais em casa. Isso levou a um aumento na demanda por alimentos tipicamente caseiros, como o arroz e o feijão. Portanto, o lado da demanda também ajudou a pressionar os preços dos alimentos.

    O peso para os mais pobres

    A inflação de alimentos não atinge todas as parcelas da população de forma igual. Isso porque as cestas de consumo de diferentes faixas de rendas não são idênticas.

    A Pesquisa de Orçamentos Familiares realizada pelo IBGE em 2017 e 2018, e divulgada em 2019, mostrou que famílias de baixa renda gastam uma proporção maior de seus rendimentos com alimentos. Ou seja, os alimentos são mais pesados no orçamento mensal de quem ganha menos.

    Isso faz com que a alta de preços nos alimentos atinja de maneira mais significativa as famílias de baixa renda. Estudos conduzidos pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério da Economia) mostraram que, em 2020, a inflação como um todo tem sido maior para quem ganha menos. Os alimentos em alta são um dos principais fatores por trás desse movimento.

    A alta dos preços de alimentos em agosto e no início de setembro ocorre paralelamente à redução do valor pago pelo governo no auxílio emergencial voltado a trabalhadores informais e autônomos na crise sanitária. O benefício será reduzido de R$ 600 para R$ 300 ao mês a partir de setembro.

    O programa alcança cerca de metade da população brasileira, e ajudou a compensar parte da renda perdida na pandemia, reduzindo também os níveis de pobreza no Brasil. Com a redução do valor pago para R$ 300 a partir de setembro, as famílias de mais baixa renda terão de enfrentar, ao mesmo tempo, a queda na renda e o aumento dos preços dos alimentos.

    A reação do governo aos preços

    A alta no preço dos alimentos virou assunto de Estado nos primeiros dias de setembro. O presidente Jair Bolsonaro falou em pedir “patriotismo” a donos de supermercado, para não subirem demais os preços dos produtos vendidos.

    “Estou pedindo um sacrifício, patriotismo para os grandes donos de supermercados para manter na menor margem de lucro”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em 4 de setembro de 2020

    O apelo de Bolsonaro se repetiu na terça-feira (8), quando o presidente reforçou o apelo para que comerciantes de alimentos mantenham os lucros de produtos essenciais “próximos de zero”. Bolsonaro também disse que não vai tabelar nenhum preço.

    Quando um governo tabela preços, ele intervém no mercado, impondo um valor máximo que deve ser cobrado por determinado bem ou serviço. No Brasil, isso foi colocado em prática nos anos 1980, época em que o país vivia a hiperinflação. O congelamento de preços foi parte central do Plano Cruzado, lançado em 1986 pelo então presidente José Sarney (1985 a 1990). Uma tabela publicada pelo governo trazia os valores máximos que os mercados poderiam cobrar por cada produto. O governo também chamou a população a fiscalizar o cumprimento da tabela. Eram os fiscais do Sarney.

    A possibilidade de congelar preços em 2020 foi rejeitada também pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Ela afirmou na terça-feira (8) que o governo não irá intervir nos preços dos alimentos. Sobre o arroz, a ministra disse que os preços retornarão à normalidade quando a oferta do grão voltar a subir.

    “O arroz não vai faltar. Agora ele está alto, mas nós vamos fazer ele abaixar. Se Deus quiser, vamos ter uma supersafra”

    Tereza Cristina

    ministra da Agricultura, em 8 de setembro de 2020

    Após o governo prometer não intervir nos preços, a Secretaria Nacional do Consumidor, ligada ao Ministério da Justiça, notificou na quarta-feira (9) supermercados, produtores e distribuidores de alimentos pelos preços altos praticados. O documento dá cinco dias para as empresas e cooperativas responderem os questionamentos e explicarem a alta nos preços – em especial do arroz.

    Em paralelo, a Câmara de Comércio Exterior, do Ministério da Economia, decidiu zerar a alíquota do imposto de importação de arroz até 31 de dezembro, como forma de reduzir o preço do produto a partir do aumento da oferta. Atualmente, as tarifas giram em torno de 10% e 12% para países de fora do Mercosul.

    A apreensão de Bolsonaro com o preço dos alimentos pode estar relacionada à preocupação com sua popularidade. Isso porque os alimentos atingem principalmente as classes mais pobres da população brasileira, em que o presidente tem visto sua aprovação crescer desde o início da pandemia. Esse aumento da popularidade entre as famílias de baixa renda – conquistado com ajuda do auxílio emergencial – poderia estar em risco com a alta dos preços dos alimentos.

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