Japão: o que está em jogo na realização da Olimpíada em 2021

Dirigentes afirmam que evento esportivo vai acontecer a qualquer custo, apesar dos desafios causados pela pandemia do novo coronavírus. Custos já são os maiores da história olímpica

    A depender da ministra japonesa Seiko Hashimoto, os Jogos de Tóquio devem ser realizados em 2021 “custe o que custar”. Responsável pela Olimpíada no Japão, a ministra declarou que o calendário deve ser seguido para o bem dos atletas, independentemente dos desafios impostos pela pandemia da covid-19.

    O discurso de Hashimoto está alinhado ao do dirigente australiano John Coates, atual vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional. À agência AFP, Coates declarou que a Olimpíada deve acontecer em 2021, “com ou sem” coronavírus.

    Apesar dos recentes ares de otimismo das autoridades, ainda há dúvidas sobre a possibilidade de realização dos Jogos, principalmente sem a descoberta de uma vacina ou um medicamento eficaz contra a covid-19. A Olimpíada está programada para o período de 23 de julho a 8 de agosto de 2021; a Paralimpíada, para 24 de agosto a 5 de setembro do mesmo ano.

    Em abril, porém, o primeiro-ministro Shinzo Abe havia sinalizado que seria “impossível” manter o calendário diante da pandemia. Quatro meses depois, Abe anunciou sua renúncia ao posto de premiê por motivos de saúde, mas os organizadores olímpicos diplomaticamente dizem querer que ele continue envolvido nos preparativos mesmo após deixar o cargo. “Seria muito encorajador para nós”, afirmou o diretor-executivo da Tóquio-2020, Toshiro Muto.

    O diretor-executivo já ponderou diversas vezes à imprensa internacional que nada está garantido. Em setembro, no entanto, Muto declarou que a descoberta de uma vacina “não é um pré-requisito” para a realização dos Jogos.

    “Todos estão trabalhando juntos para se prepararem. Os atletas também estão fazendo esforços consideráveis para 2021. Portanto, os Jogos devem ser realizados a qualquer custo”

    Seiko Hashimoto

    ministra da Olimpíada, em 8 de setembro

    “Estes serão os Jogos que venceram a covid-19, a luz do fim do túnel. Os Jogos acontecerão com ou sem coronavírus”

    John Coates

    vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional, em 7 de setembro

    “Ninguém no mundo hoje pode garantir com 100% de certeza que os Jogos irão acontecer”

    Toshiro Muro

    diretor-executivo da Olimpíada, em 12 de junho

    “Não sabemos como estará a situação do coronavírus em julho do próximo ano. Temos algumas incertezas aqui”

    Yuriko Koike

    governadora de Tóquio, em 8 de junho

    “Dizemos que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos devem ser realizados de forma completa, para que atletas e espectadores possam participar com segurança. Seria impossível manter os Jogos em uma forma tão completa, a menos que a pandemia de coronavírus esteja contida”

    Shinzo Abe

    então primeiro-ministro do Japão, em 29 de abril

    A expectativa dos organizadores é traçar até dezembro de 2020 um plano de ação, uma força-tarefa com a cooperação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para poder garantir a segurança na Olimpíada se a pandemia não for contida. Entre as medidas estudadas estão protocolos de quarentena e monitoramento da movimentação de atletas, autoridades, jornalistas e voluntários.

    Adiar novamente e elaborar um novo calendário, entretanto, não está no horizonte. Segundo o presidente da Tóquio 2020, Yoshiro Mori, ou os Jogos acontecem em julho de 2021, ou serão cancelados de vez.

    Os valores financeiros dos Jogos

    A Tóquio 2020 já é a Olimpíada mais cara da história, revelou um estudo feito pelo economista dinamarquês Bent Flyvbjerg, da Universidade de Oxford, do Reino Unido, divulgado em setembro.

    O custo mais do que dobrou em relação ao orçamento inicial dos organizadores japoneses: de US$ 7,3 bilhões (cerca de R$ 40,2 bilhões, na cotação de 8 de setembro de 2020), o valor saltou para US$ 15,84 bilhões (o equivalente a mais de R$ 83,8 bilhões). O número ultrapassa a marca dos US$ 14,95 bilhões (R$ 79,1 bilhões) gastos nos Jogos de Londres de 2012, que até então lideravam o ranking de investimentos.

    Oficialmente, o comitê da Tóquio 2020 ainda considera a cifra de US$ 12,6 bilhões. O estudo de Oxford considerou apenas gastos operacionais e com as construções das arenas olímpicas – não entraram na conta investimentos em infraestrutura, como melhorias nos aeroportos. Segundo a Agência de Auditoria do Japão, o custo final pode chegar a US$ 23 bilhões (R$ 123 bilhões).

    Os impactos para a organização do evento

    Pré-pandemia, a capital japonesa esperava receber 11 mil atletas olímpicos, 5 mil paralímpicos e milhões de turistas estrangeiros. A expectativa para 2021 é reaquecer a economia do país (que enfrenta recessão desde o primeiro trimestre e teve queda histórica de 7,8% no segundo trimestre de 2020), mas talvez o evento precise contar com números mais modestos.

    Para cortar gastos, os organizadores cogitam diminuir o número de atletas inscritos nas competições. Toshiro Muto sinalizou que a ideia é fazer o máximo possível para preservar a estrutura original olímpica, mas não desconsidera a possibilidade de simplificar a edição, reduzindo atividades como o revezamento da tocha (que tradicionalmente dura três meses, percorrendo o país-sede), o número de atletas participantes e talvez o número de instalações – os contratos de 13 dos 43 endereços precisam ser revistos.

    As arquibancadas também podem ser alteradas, visto que aglomerações não são indicadas pelas autoridades internacionais de saúde na pandemia. Realizar as competições inteiramente a portas fechadas, no entanto, não é o ideal imaginado pelos organizadores, que estudam a possibilidade de limitar o número de torcedores nos estádios.

    O comitê também precisaria pensar como será feito esse tipo de controle, visto que os ingressos adquiridos antes da pandemia valerão para 2021 – até março, quando o evento foi oficialmente adiado, tinham sido vendidos 4,48 milhões de ingressos para a Olimpíada e 970 mil para a Paralimpíada.

    Desde abril, as fronteiras japonesas estão fechadas a mais de 100 países, incluindo Brasil e Estados Unidos. O governo pretende paulatinamente flexibilizar as regras de entrada no arquipélago, priorizando o retorno de residentes estrangeiros, viajantes a negócios, estudantes e trainees técnicos. O número de visitantes estrangeiros caiu 99,9% em maio, junho e julho. Ainda não há previsão para liberar a entrada de turistas.

    Teoricamente, os organizadores devem definir as respostas às diversas questões abertas para a realização da Olimpíada até novembro ou dezembro. Até 9 de setembro, o Japão contabilizava 72 mil casos confirmados e 1.398 mortes por covid-19.

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