Por que vacinas são menos efetivas em idosos

Deterioração natural do sistema imunológico traz desafios na busca por uma solução para a covid-19

    A vacina contra a covid-19 da empresa chinesa Sinovac, que está em fase de testes no Brasil por meio de uma parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo estadual de São Paulo, mostrou-se segura para a aplicação em idosos – grupo que tem o maior risco de vivenciar as complicações causadas pelo novo coronavírus.

    A garantia de segurança veio por meio de dados das fases iniciais de testes e foi anunciada pelo Sinovac em Pequim na segunda-feira (7).

    Contudo, apesar da segurança, a vacina se mostrou menos efetiva nos testes feitos em 421 pessoas com mais de 60 anos, realizados em maio. Nos mais jovens, a resposta imunológica foi mais ampla.

    O que é a imunossenescência

    A menor eficiência da vacina da Sinovac em idosos pode gerar preocupações dada a urgência da pandemia como um todo, porém, o resultado não pode ser considerado surpreendente, já que vacinas, num geral, são menos eficientes nesse grupo.

    Isso se dá pela imunossenescência, a deterioração natural do sistema imunológico em decorrência da idade.

    A imunossenescência faz com que o corpo perca parte de sua capacidade de criar respostas imunológicas contra agentes patogênicos, caso do novo coronavírus.

    Essa deterioração está diretamente relacionada ao timo, glândula localizada no peito, um pouco acima da altura do coração, que produz os linfócitos T, células sanguíneas essenciais no processo de resposta imunológica.

    Com o passar dos anos, o timo sofre um processo de involução. Na adolescência, ele pesa cerca de 30 g a 40 g. Na velhice, o peso gira em torno de 5 g a 15 g. Nessa diminuição, a glândula é substituída, em boa parte, por células adiposas (que armazenam gordura).

    Jovens e adultos, contam com a memória imunológica em pleno funcionamento. Ela é um mecanismo que faz com que o corpo, ao entrar em contato com determinado agente infeccioso, desenvolva células especiais capazes de reconhecê-lo no futuro, acelerando uma resposta imunológica.

    Nos idosos, devido ao processo de imunossenescência, parte dessa memória imunológica é perdida, comprometendo ainda mais a resposta do corpo às vacinas.

    A resposta dos times de desenvolvimento

    Até a manhã de 8 de setembro de 2020, a Sinovac não tinha feito nenhum pronunciamento sobre como lidaria com o fato de sua vacina ser menos efetiva em idosos.

    Porém, há outras vacinas que estão levando esse fator em consideração de alguma forma.

    A vacina produzida pela empresa britânico-sueca AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, que está sendo testada no Brasil, inicialmente fez testes apenas com pessoas de 18 a 55 anos. Posteriormente, o limite máximo de idade foi aumentado para até 69 anos. Os resultados ainda não foram divulgados publicamente.

    A vacina russa Sputnik-V, desenvolvida pelo governo da Rússia, foi testada em 15 idosos de 70 a 80 anos, todos membros do time de desenvolvimento. Segundo o diretor do Instituto Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde da Rússia, eles estão saudáveis e ativos.

    Os resultados desses testes ainda não foram publicados em revistas científicas. O governo russo anunciou na segunda-feira (7) que o primeiro lote da vacina já foi aprovado por agências reguladoras, mesmo sem a finalização dos testes, e que a população do país deve começar a ser vacinada ainda em setembro.

    Nos Estados Unidos, pesquisadores da Universidade de Harvard começaram, em maio, a desenvolver uma vacina especialmente feita para os idosos.

    “A maior parte das vacinas é feita com um conceito de ‘serve para todo mundo’”, disse ao site Business Insider Ofer Levy, infectologista que está liderando o time de Harvard. “Na nossa cabeça, uma vacina não ‘serve para todo mundo’ e sim serve muito bem para um grupo específico’”, concluiu.

    A vacina de Harvard segue em desenvolvimento e a expectativa é de que esteja pronta para fabricação em algum momento de 2021.

    Ainda nos EUA, as empresas Pfizer e Johnson & Johnson se preparam para testar diferentes dosagens de suas fórmulas em idosos, em busca de uma resposta imunológica mais efetiva.

    A startup americana Moderna, que também está desenvolvendo uma vacina contra a covid-19, afirmou que tem resultados promissores da efetividade da fórmula em idosos após a aplicação de dosagens maiores. Os resultados ainda não foram publicados em revistas científicas.

    Os idosos nos testes

    Salvo as que são desenvolvidas para grupos específicos, como a de Harvard, vacinas são formuladas para ser aplicadas em adultos, em sua maioria na faixa de 18 a 59 anos.

    Com isso, pacientes que fogem dessa faixa, como crianças e idosos, passam pelos testes posteriormente, após uma fórmula ter sido consolidada nos adultos.

    Segundo Louise Aronson, professora de geriatria na Universidade da Califórnia, a chegada tardia dos idosos em testes de vacinas está relacionada aos problemas naturais causados pela idade.

    “Você tem que controlar o máximo de variáveis possíveis”, disse Aronson ao jornal The New York Times em junho. De acordo com ela, idosos costumam ter mais problemas de saúde e tomar mais medicações, o que poderia tornar difícil a identificação dos efeitos e da segurança de uma determinada vacina pelos pesquisadores.

    Na mesma reportagem do New York Times, Mark Sloan, hematologista do Centro Médico de Boston, afirmou que testes de vacinas e medicamentos costumam ser mais seguros em pessoas mais jovens e que isso pode acelerar o processo burocrático de regulamentação daquela determinada fórmula.

    Os debates éticos

    O fato das vacinas serem menos efetivas ao principal grupo de risco da covid-19 levantou debates éticos relacionados aos seus desenvolvimentos.

    Para alguns médicos e cientistas, há poucas pesquisas pensando nos idosos e isso é uma forma de discriminação.

    “Estão sendo vetores de exclusão”, disse ao New York Times em junho a geriatra Sharon K. Inouye, da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. “Se eles criarem uma solução que funciona muito bem em adultos saudáveis de 50 a 60 anos, eles perderam o bonde”, afirmou.

    Para outros médicos e cientistas, essa questão não é tão urgente, já que criando uma solução para adultos mais jovens, os idosos estariam protegidos pela imunidade de rebanho.

    “Às vezes, é possível proteger um grupo vulnerável ao se mirar em outro grupo, como é feito com a gripe, por exemplo”, disse ao jornal The Guardian Peter Openshaw, membro do conselho científico do Imperial College, de Londres.

    Nessa hipótese, ao proteger os mais jovens de contraírem o novo coronavírus, cria-se uma barreira de proteção que impede que a doença chegue aos idosos, já que a quantidade de vírus circulando é reduzida.

    A corrida pela vacina

    A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a AstraZeneca é considerada uma das mais promissoras – ela está sendo testada no Brasil, por meio de uma parceria com o time de desenvolvimento e a Fundação Oswaldo Cruz, ligada ao Ministério da Saúde.

    Ela usa uma versão enfraquecida de um vírus comum de resfriado (adenovírus) que atinge chimpanzés. Esse adenovírus recebeu o material genético do Sars-CoV-2, nome dado ao novo coronavírus, e não consegue se reproduzir em humanos, mas produz uma proteína que desencadeia as reações de defesa do organismo.

    Essa defesa ocorre por meio das células T, que são capazes de matar outras células já infectadas pelos vírus e podem ter uma memória de infecções anteriores durante décadas. Andrew Pollard, professor da Universidade de Oxford e principal autor do estudo, disse que, como a vacina induz uma resposta celular, os pesquisadores esperam que ela possa “proteger as pessoas por um longo período”.

    Os pesquisadores ressaltam que, nas fases 1 e 2, entre abril e maio, o imunizante foi administrado em 1.077 voluntários saudáveis, de 18 a 55 anos, num ambiente controlado. Falta saber como a vacina vai funcionar em larga escala e qual a dose necessária para proteger todas as pessoas. Por isso, dizem, o caminho até se chegar à vacina ainda é longo.

    As fases de desenvolvimento de vacinas

    Exploratória

    Nesta etapa inicial, são feitas pesquisas para a identificação dos antígenos, substâncias estranhas ao organismo que desencadeiam a produção dos anticorpos.

    Pré-clínica

    Por meio de testes em laboratório, o imunizante é testado em animais, como camundongos e macacos, para se conhecer os efeitos farmacológicos e toxicológicos antes dos testes em humanos.

    Clínica

    É a etapa em que a vacina é testada em humanos, em três fases: na 1, com um número que varia de 20 a 100 voluntários saudáveis, busca-se responder se o imunizante é seguro. Na fase 2, com centenas de voluntários, os pesquisadores avaliam as respostas do sistema imunológico. Já na fase 3, estuda-se a efetividade da vacina. Se aprovado, o produto obtém registro e pode ser fabricado e disponibilizado para a população.

    A fase 3, com mais de 50 mil voluntários, está em andamento inclusive no Brasil, onde os testes estão sendo feitos em 5.000 pessoas pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em São Paulo, e pela Rede D'Or, no Rio de Janeiro.

    Nesse tipo de imunizante, os vírus inativados precisam estar acompanhados dos chamados adjuvantes, substâncias que ajudam a alertar o sistema imunológico para a presença do agente causador da doença. Essa fórmula é parecida com vacinas já produzidas contra a raiva, por exemplo.

    Os resultados dos testes no Brasil estão previstos para alguma data até dezembro. A depender da eficácia, o imunizante poderá estar disponível até junho de 2021 – o que é a previsão mais otimista. O tempo levado para desenvolver a vacina contra a caxumba na década de 1960, quatro anos, foi o processo mais rápido da história.

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