Bolsonaro no 7 de setembro: covid-19 ignorada e golpe exaltado

Em pronunciamento em rádio e TV sobre o Dia da Independência, presidente faz discurso que defende liberdade ao mesmo tempo em que exalta ditadura militar

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    O presidente Jair Bolsonaro marcou o 7 de setembro de 2020 com um pronunciamento em cadeia de rádio e TV em que exaltou a democracia e a liberdade, mas defendeu o golpe militar de 1964. Num discurso de quatro minutos, falou sobre desafios que o país enfrentou ao longo de sua história, mas não mencionou a pandemia do novo coronavírus, que matou mais de 126 mil brasileiros em menos de seis meses.

    Na data em que o Brasil comemora 198 anos de Independência de Portugal, o presidente exaltou valores militares. Citou não só 1822, mas invasões durante o Império e a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

    “O sangue dos brasileiros sempre foi derramado por liberdade. Vencemos ontem, estamos vencendo hoje e venceremos sempre. No momento em que celebramos essa data tão especial, reitero, como Presidente da República, meu amor à Pátria e meu compromisso com a Constituição e com a preservação da soberania, democracia e liberdade”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em pronunciamento em 7 de setembro de 2020

    Também reproduziu o discurso a favor da ditadura militar, afirmando que o golpe de 1964 ocorreu apoiado por milhões de brasileiros que “foram às ruas contra um país tomado pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”, quando o Brasil era ameaçado pela “sombra do comunismo”.

    O golpe de 1964 depôs o presidente eleito João Goulart e deu início a uma ditadura militar de mais de 20 anos, em que a democracia e liberdades da população foram cerceadas e limitadas.

    Capitão reformado do Exército, Bolsonaro tem um histórico de declarações elogiosas à ditadura e a torturadores do período. Em 2019, determinou que a data do golpe, 31 de março, fosse comemorada pelas Forças Armadas.

    O presidente também celebrou em seu discurso a “miscigenação entre índios, brancos e negros” como formadora da identidade nacional, ignorando uma história marcada pela escravidão e o extermínio de povos indígenas.

    “Posteriormente, ondas de imigrantes se sucederam, trazendo esperanças que em suas terras haviam perdido. Religiões, crenças, comportamentos e visões eram assimilados e respeitados. O Brasil desenvolveu o senso de tolerância, os diferentes tornavam-se iguais”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em pronunciamento em 7 de setembro de 2020

    Durante a transmissão do discurso, foram registrados panelaços em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

    A pandemia ignorada

    Em seu discurso na noite de segunda-feira (7), o presidente não mencionou a pandemia do novo coronavírus. Todos os pronunciamentos em cadeia de TV e rádio de Bolsonaro em 2020 até agora haviam abordado a crise sanitária – fosse para minimizar sua gravidade, atacar o isolamento social decretado por governadores ou falar sobre as ações do governo na economia.

    126.960

    é o número de mortes por covid-19 no Brasil até 7 de setembro de 2020, segundo o Ministério da Saúde

    4.147.794

    é o número de casos confirmados da doença até a mesma data

    No dia do discurso televisionado mais recente, 8 de abril, o Brasil contabilizava cerca de 800 mortos pelo novo coronavírus e 16 mil casos confirmados da doença. Na ocasião, Bolsonaro buscou se afastar de governadores e prefeitos que decretaram medidas de isolamento social para conter a propagação do vírus e exaltou a cloroquina, remédio sem eficácia contra a covid-19 que acabou se tornando sua grande bandeira na crise sanitária.

    O discurso de TV anterior ao 7 de setembro também foi feito às vésperas do início do pagamento do auxílio emergencial para trabalhadores informais e autônomos de baixa renda, em um momento de isolamento político de Bolsonaro. Desde então, a situação mudou. Segundo pesquisas de opinião, a aprovação do presidente bateu recorde, impulsionada pelo benefício e por investidas para se descolar dos efeitos da crise sanitária.

    33%

    da população acredita que Bolsonaro tem a maior parcela de culpa pela situação da pandemia, segundo pesquisa Ibope divulgada em 6 de setembro de 2020

    38%

    acham que o povo brasileiro é o maior responsável pela situação do país, segundo a mesma pesquisa

    Os pronunciamentos sobre a pandemia

    ‘SIGAM OS ESPECIALISTAS’ EM 6 DE MARÇO

    Bolsonaro fez seu primeiro pronunciamento sobre a crise do coronavírus. Em 2 minutos e 4 segundos, afirmou que o número de doentes poderia se agravar nas próximas semanas, mas disse “não haver motivo para pânico”. O presidente pediu “a união de todos”, incluindo estados e municípios, destacou a importância da população “seguir rigorosamente as recomendações dos especialistas”.

    ‘ADIEM AS MANIFESTAÇÕES’ EM 12 DE MARÇO

    Um dia depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar estado de pandemia, Bolsonaro fez seu segundo pronunciamento sobre o tema. Disse que a decisão da OMS era “responsável” e pediu à população que adiasse as manifestações pró-governo e contra o Congresso e o Supremo. Três dias depois, Bolsonaro não seguiu as suas próprias recomendações e participou do ato em Brasília.

    ‘GRIPEZINHA’ EM 24 DE MARÇO

    Em meio ao enfrentamento com governadores sobre as medidas restritivas nos estados, Bolsonaro fez um pronunciamento de 4 minutos e 59 segundos atacando a imprensa, chamando o coronavírus de “gripezinha” e o distanciamento social de “histeria”. “Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada”, disse o presidente em tom de confronto, algo que causou uma reação em bloco da classe política contra o Palácio do Planalto.

    ‘TODOS NUM GRANDE PACTO’ EM 31 DE MARÇO

    Uma semana depois, Bolsonaro baixou o tom para pregar a união. Ressaltou a importância de prefeitos, governadores, do Congresso e do Poder Judiciário para minimizar os efeitos da crise. “Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos”, afirmou o presidente, que no dia seguinte já voltou a atacar governadores e a defender o fim do isolamento social.

    EXALTAÇÃO À CLOROQUINA EM 8 DE ABRIL

    Em seu quinto pronunciamento sobre a crise do novo coronavírus, num momento de grande isolamento político, Bolsonaro buscou afastar sua figura das medidas de isolamento decretadas pelo país: “Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos. Muitas medidas de isolamento são de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude”. E redobrou a aposta no uso da cloroquina, mesmo sem haver pesquisas que comprovassem a real eficácia do medicamento.

    Solenidade enxuta e aglomerações

    Na manhã da segunda-feira (7), o presidente também participou, em Brasília, de uma cerimônia enxuta na frente do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, em comemoração ao Dia da Independência.

    Os desfiles que tradicionalmente ocorrem na Esplanada e em outras cidades do Brasil para marcar o 7 de setembro foram cancelados em razão da pandemia. No início de agosto, o Ministério da Defesa publicou uma diretriz orientando que militares não participassem de comemorações para evitar aglomerações. Em 2019, o evento em Brasília recebeu entre 25 mil e 30 mil pessoas.

    Apesar da orientação, a cerimônia de 2020 reuniu em torno de 1.000 pessoas, segundo o Palácio do Planalto. Sem máscara, Bolsonaro cumprimentou e tirou fotos com apoiadores. O presidente chegou à cerimônia no Rolls Royce presidencial acompanhado de crianças, filhos de autoridades e convidados, a maioria também sem máscaras.

    Na solenidade que durou cerca de 16 minutos, Bolsonaro, a primeira-dama Michelle, ministros e outras autoridades cantaram o hino nacional e o hino da Independência e assistiram ao hasteamento da bandeira e a uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça.

    A primeira-dama cumprimentou o público, de máscara, e ouviu gritos de “mita, em alusão ao apelido dado ao marido por eleitores. Michelle Bolsonaro tem estado na mira de opositores do presidente desde que a quebra de sigilo de Fabrício Queiroz revelou que o amigo do presidente e ex-assessor de Flávio Bolsonaro depositou cheques que totalizam R$ 89 mil na conta da primeira-dama. Pivô do caso, o primogênito do presidente também participou do evento e cumprimentou o público. No domingo (6), ele afirmou ter se curado da covid-19.

    Entre os ministros presentes estavam Paulo Guedes (Economia), o general Eduardo Pazuello (que ocupa interinamente a pasta da Saúde há quase quatro meses), Tereza Cristina (Agricultura) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

    Participaram também o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, que deixa o cargo de liderança na corte na quinta-feira (10), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Assim como em 2019, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que comanda a Câmara, não compareceu ao evento.

    Um protesto esvaziado de opositores do presidente aconteceu na Esplanada dos Ministérios, na capital federal. Em pelo menos 15 estados, houve manifestações contra o governo no Grito dos Excluídos, marcha organizada desde 1995 pela Central de Movimentos Populares em paralelo aos desfiles militares de 7 de setembro. Cerca de 600 pessoas se reuniram em São Paulo, segundo os organizadores, mas a maior parte dos eventos foram online por conta da pandemia.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.