Setembro amarelo: como saber quando procurar ajuda psicológica na pandemia

Estudos mostram aumento de sintomas de ansiedade e depressão na crise de saúde. O ‘Nexo’ reuniu dicas de uma psicóloga e um psicanalista para quem considera buscar apoio profissional pela primeira vez

A pandemia do novo coronavírus trouxe impactos para a saúde mental de pessoas ao redor do mundo – seja quem conviveu com infecção, mudou de estilo de vida em respeito ao distanciamento social ou precisa lidar com constantes medos e incertezas.

Médicos e psicólogos reconhecem desde o início da crise sanitária que o contexto pode ser estressante. Para eles, é normal que pessoas que nunca tiveram histórico de problemas de saúde mental vejam surgir sentimentos como tristeza, ansiedade, medo ou mesmo depressão diante do cenário inédito.

Estudos feitos depois do início da pandemia indicam um aumento de sintomas de transtornos mentais em diversos países. Na Etiópia, cresceu três vezes a prevalência de sintomas de depressão em relação ao período anterior à pandemia. Na China, profissionais de saúde relataram altas taxas ansiedade, depressão e insônia, e no Canadá 47% deles buscam apoio psicológico.

Mais de 50% dos adultos que vivem em São Paulo, estado com o maior número de casos e mortes pela covid-19 no Brasil, dizem sentir ansiedade ou nervosismo com frequência desde o início da crise, segundo um estudo feito com mais de 11 mil pessoas por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Fiocruz.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou em maio que o impacto do novo coronavírus sobre a saúde mental é “extremamente preocupante” e que governos deveriam aumentar investimentos em serviços da área, sob o risco de ver aumento de problemas desse tipo no futuro.

“O isolamento social, o medo de contágio e a perda de membros da família são agravados pelo sofrimento causado pela perda de renda e, muitas vezes, de emprego”

Tedros Adhanom Ghebreyesus

diretor-geral da OMS, em declaração dada em maio de 2020, no contexto da pandemia do novo coronavírus

A preocupação com os efeitos da pandemia sobre a saúde mental cresce no contexto do Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio criada no Brasil por organizações médicas e voltadas à saúde mental, como o CVV (Centro de Valorização da Vida), que recebe ligações de pessoas com ideação suicida em busca de acolhimento.

Durante o Setembro Amarelo, o centro tenta incentivar as pessoas a buscarem ajuda para seus problemas na campanha “pessoas precisam de pessoas”. O CVV pode ser acessado pelo número de telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que, em 2018, houve 13.463 mortes por suicídio registradas em todo o Brasil. De 2009 a 2018, 115.072 pessoas cometeram suicídio no país, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade do ministério.

A OMS preparou, em março, um guia com recomendações para enfrentar os efeitos psicológicos da pandemia. Entre elas, estão manter uma rotina, criar uma dieta saudável, comunicar-se com familiares e amigos (mesmo com distanciamento) e limitar o consumo de informação sobre o novo coronavírus a poucas vezes no dia, por exemplo.

O Nexo reuniu dicas de uma psicóloga e um psicanalista para quem pensa em ir além das medidas que se pode tomar sozinho e pedir ajuda a um profissional para lidar com os problemas causados pela pandemia. Os profissionais da área são considerados essenciais para a resposta das populações à crise, segundo autoridades de saúde.

Por que procurar ajuda

A psicoterapia é um processo conduzido por um profissional, como um psicólogo ou psicanalista, que busca tratar problemas psicológicos, emocionais ou de comportamento. O atendimento acontece por meio da chamada escuta qualificada: a partir de relatos do paciente, o profissional dá acolhimento e assistência, ajudando o outro a compreender e lidar com aquilo que o perturba.

A sessão com um terapeuta não é equivalente a uma conversa com amigos ou familiares, por mais que esse tipo de contato também proporcione alívio em certos casos. Os profissionais da área têm capacidade de prestar assistência adequada para a solução de problemas que às vezes as pessoas não conseguem resolver sozinhas.

A psicóloga Leila Salomão, professora na USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora de um grupo de assistência psicológica da universidade na pandemia, o Apoiar, afirma que as pessoas devem considerar procurar apoio profissional quando sentimentos como de tristeza, ansiedade ou raiva passam a comprometer a vida.

“A pessoa precisa avaliar se suas emoções e sensações a prejudicam”, disse ao Nexo. “Se ela não consegue fazer as coisas como fazia antes, se tem mais cansaço, desânimo, se a vida perdeu a graça completamente… Ou se ela tem irritação excessiva, falta de paciência. Esses são sinais de que ela pode se beneficiar com ajuda.”

A ideia de procurar ajuda pode ser interpretada como um sinal de fraqueza por pessoas que não tiveram contato com a psicoterapia antes da pandemia. Para Salomão, essa é uma ideia preconceituosa. “Muita gente diz que precisa se resolver sozinha. Por quê? Se puder, ótimo. Mas não há demérito em pedir ajuda. Por que as pessoas acham que diabetes é uma doença e depressão e ansiedade não são?”

O psicanalista Fernando Savaglia, professor e integrante da Sociedade Paulista de Psicanálise, afirmou ao Nexo que um tratamento com um profissional de sua área pode significar “encontrar um interlocutor no mundo, alguém que esteja disposto a te emprestar o olhar e a escuta, o que por si só já é profilático [atenua o sofrimento]”.

Um psicanalista, que tem uma formação diferente de um psicólogo, ajuda seu paciente a “transformar a angústia em linguagem”, segundo Savaglia. “Isso é algo que a gente faz todos os dias. Mas algumas angústias ficam muito recalcadas [reprimidas], e nesse momento você pode ter a ajuda de um profissional. Nesse processo [de autocompreensão], você passa a se construir, se ver a partir de um terreno mais sólido.”

“A terapia tem a finalidade de a ajudar a pessoa a pensar melhor, encontrar saídas. É a pessoa que vai ter que fazer isso [lidar com aquilo que a incomoda]. Fazer escolhas mais adequadas, minorar o sofrimento, melhorar a qualidade de vida. É esse o objetivo, na pandemia ou não”

Leila Salomão

psicóloga, professora na USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do grupo Apoiar, em entrevista ao Nexo

Existe hoje oferta de serviços de atendimento psicológico em equipamentos de saúde da rede pública e privada. Com a pandemia, embora grande parte dos serviços de atendimento presencial tenha sido interrompida, surgiram novas iniciativas de trabalho remoto, como o grupo Apoiar, coordenado por Salomão. O grupo presta atendimento de forma gratuita.

Há também uma diversidade de psicólogos e psicanalistas que seguem linhas teóricas diferentes, portanto propõem caminhos diferentes para ajudar os pacientes a lidar com seus problemas. Para Salomão, essas diferenças não são um fator importante na hora de procurar um terapeuta. “Importa mais ver se o profissional é uma pessoa séria, de confiança”, disse.

Às vezes, em casos mais graves, o paciente deve também procurar tratamento com um psiquiatra, que é o profissional capacitado para receitar medicamentos que podem atenuar sintomas de transtornos como ansiedade e depressão. “Muitas vezes a gente trabalha em dupla”, afirmou Savaglia ao Nexo. “Seja o psicanalista com o psiquiatra, seja o psicólogo com o psiquiatra.”

Quais os serviços criados na pandemia

A pandemia do novo coronavírus levou psicólogos e psicanalistas de diferentes grupos a disponibilizar atendimento on-line e gratuito para quem está sentindo o sofrimento psicológico se agravar neste momento, seja pelo medo do contágio ou pelo estresse causado pelo isolamento social durante meses.

Iniciativas nos estados buscam atender a comunidade local, como o Disque RN Coronavírus, central de atendimento psicológico do Rio Grande do Norte, o Projeto Psicologia Pará, plataforma do governo que conecta psicólogos a pessoas que pedem ajuda, e o projeto Salvador Unida, com psicólogos voluntários que vivem na Bahia.

Existem também iniciativas organizadas nas faculdades de psicologia de universidades, como o Apoiar, coordenado na USP por Leila Salomão. Outras instituições que estão oferecendo suporte são a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e a Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense).

Quem está trabalhando como médico, enfermeiro, técnico ou em áreas administrativas dos serviços de saúde durante a pandemia pode também encontrar suporte para a saúde mental no site Rede de Apoio Psicológico, no Núcleo de Logoterapia Agirtrês e no instituto de psicanálise IBPW, todos voltados especialmente a esse público.

Quem perdeu amigos ou familiares para a covid-19 e busca ajuda para passar pelo luto pode recorrer a serviços como o do site Cuidado ao Luto pela Covid-19 e o da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). É possível também fazer buscas no site Rede Apoio Covid, que reúne uma série de links para outros serviços de atendimento psicológico e materiais para leitura sobre o tema.

Além dos canais novos para atendimento em saúde mental, existe o CVV (Centro de Valorização da Vida), organização voltada à prevenção do suicídio que se propõe a escutar quem está passando por sofrimento psicológico. O CVV tem 4.200 voluntários disponíveis 24 horas pelo telefone 188 — basta ligar. A ligação é gratuita.

Qual o impacto da covid-19 para a saúde mental

Tanto Salomão quanto Savaglia afirmam que, durante o trabalho na pandemia, têm encontrado pacientes que foram infectados pelo novo coronavírus e apresentaram sintomas de ansiedade, depressão ou de transtorno de estresse pós-traumático depois de terem se recuperado da doença.

O psicanalista considera que essas pessoas passaram por um trauma. “Quem ficou com um quadro mais sério, mesmo tendo conseguido se recuperar depois, costuma ficar muito assustado com o processo todo”, disse ao Nexo. Nesses casos, ele diz que a ajuda de um psicólogo ou psicanalista é fundamental.

Um artigo publicado na revista Frontiers in Immunology por cientistas da Fiocruz e da UFF (Universidade Federal Fluminense) em junho discutiu como a covid-19 pode afetar a saúde mental, apontando alterações neurais, imunes e endócrinas causadas pela infecção que podem contribuir para distúrbios psicológicos.

Antes da pandemia, estudos sobre a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), doenças também causadas por outros tipos de coronavírus, identificaram danos de longo prazo para pessoas infectadas, como perda de memória, alterações do sono e alta de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

A preocupação de hoje é que os efeitos do distanciamento social, somados aos possíveis impactos da doença, comprometam ainda mais a saúde mental de quem teve a covid-19. “Não é raro: tenho visto gente angustiada, mesmo melhorando”, disse Salomão ao Nexo.

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