As propostas para garantir o acesso global à vacina da covid-19

Coalizão de 165 países tenta viabilizar fornecimento para nações mais pobres. Melhor maneira de alocar doses ainda está em discussão

Uma vacina para o novo coronavírus vem sendo buscada por diferentes países. Conforme essa corrida avança, a discussão sobre a forma mais eficiente e ética de distribuir as doses globalmente se torna mais premente.

Para garantir que todas as nações, não só as mais ricas, tenham acesso a uma vacina eficaz contra a covid-19, foi criada uma coalizão que envolve 165 países, chamada Covax. O Brasil é um dos países que se mostraram favoráveis à aliança.

Como a Covax quer atuar

Uma parte das nações participantes (pelo menos 75 delas) deve colaborar como financiadoras das vacinas que apresentam mais chances de sucesso. A outra parte é composta por cerca de 90 países de menor renda ou cujo sistema de saúde tem capacidade mais baixa. A ideia é que a cooperação crie um fundo de financiamento de vacinas para garantir uma fração das doses para todos os participantes, compartilhando o possível sucesso de uma ou mais substância em desenvolvimento.

Esse plano de acesso mundial à vacina é coordenado pela organização internacional Gavi, a Aliança Global para Vacinas e Imunização, junto com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias.

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), em colaboração com a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), irá liderar a operação global de aquisição e fornecimento de vacina contra a covid-19.

O fundo da ONU também pretende estabelecer um estoque de segurança da vacina para emergências humanitárias e vai atuar como coordenador das aquisições de doses pelos países de renda alta que manifestaram a intenção de participar da Covax com seus próprios recursos.

“Os líderes políticos devem transformar as vacinas num bem público global. [A distribuição] é importante e não deve ser considerada caridade. Precisamos de justiça para com os países pobres”

Tedros Adhanom

Diretor-geral da OMS, em uma entrevista coletiva em 20 de julho

A estratégia de alocação das doses garantidas pela iniciativa – a orientação de como serão fornecidas – ainda está sendo desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde. Uma porta-voz da OMS afirmou na sexta-feira (4) que a organização não espera que haja uma vacinação ampla contra a covid-19 até meados de 2021.

Ela enfatizou a importância do rigor nos testes para garantir a eficácia e a segurança das vacinas desenvolvidas, afirmando que, por enquanto, nenhuma das candidatas em testes clínicos avançados demonstrou atingir o nível mínimo de eficácia buscado pela OMS.

A participação das potências

Até o momento, Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia indicaram que não farão parte da coalizão e portanto não contribuirão com o fundo global de financiamento das vacinas que ela propõe.

O chamado “nacionalismo da vacina”, contra o qual a OMS já se posicionou, pode levar países a priorizarem a imunização de sua própria população em vez de seguir a diretriz internacional de garantir que todos os países tenham acesso à vacina.

Esse dilema se refere principalmente à forma como os países irão mobilizar sua capacidade de produção de doses da vacina (se em prol de si mesmos ou do abastecimento internacional), e não à tecnologia da vacina desenvolvida por eles, à qual a Covax poderá ter acesso em alguns casos.

Projetos de vacinas que já estão em fases mais avançadas, geralmente comandados por essas grandes potências, serão produzidos em larga escala por países participantes da Covax. Um exemplo é a associação Argentina México, que irá produzir e distribuir a vacina Oxford-Astra Zeneca na América Latina.

Essa produção é uma aposta e deve ser iniciada antes mesmo de as vacinas provarem definitivamente sua eficácia nas últimas etapas de teste.

As dificuldades de distribuição

Um grupo de 19 cientistas de diferentes países, especialistas em ética e saúde global, questiona a forma como o modelo de distribuição está sendo desenhado pela OMS. Eles publicaram na quinta-feira (3) um artigo na revista Science em que lançam uma proposta alternativa.

O artigo aponta que, embora muitos líderes e organizações tenham apoiado uma distribuição igualitária da vacina contra a covid-19, pouco se avançou até o momento na necessidade de delinear uma distribuição internacional justa e descrever o que é preciso para alcançá-la.

Priorizar aqueles (países e indivíduos) que estão em desvantagem é um valor fundamental da ética e da saúde global, segundo afirma o artigo. Distribuir a vacina internacionalmente de forma justa requer, portanto, avaliar os diferentes tipos de desvantagem existentes.

No primeiro esquema sugerido pela OMS, países participantes da Covax receberiam uma quantidade de doses proporcional ao tamanho de sua população. A primeira fase começaria com a vacinação de 3% da população de cada país, e a alocação de doses proporcional à população continuaria até que todos os países contemplados pelo Covax tivessem vacinado 20% de sua população, objetivo a ser completado até o fim de 2021. Esse esquema ainda está sendo avaliado, mas é atualmente aceito pela Covax.

Em outra proposta aventada pela organização, a distribuição de vacinas para os países participantes da Covax seria feita com base no número de profissionais de saúde atuando na linha de frente contra a covid-19, a proporção da parcela da população acima de 65 anos e o número de pessoas com comorbidades nas diferentes nações.

Segundo os pesquisadores, embora pareçam se direcionar a uma distribuição equânime e a priorizar aqueles com maior probabilidade de morrer da doença, os dois modelos provocam distorções.

Com relação ao primeiro, observam que países igualmente populosos podem apresentar diferentes níveis de gravidade quanto às mortes e a devastação econômica provocada pela covid-19. Tratá-los igualmente não atende a suas diferentes necessidades.

Sobre a ideia de vacinar primeiro aqueles que correm maior risco, os autores põem em dúvida sua pertinência. Países mais pobres poderiam sair prejudicados, já que têm uma população idosa menor e uma quantidade reduzida de profissionais de saúde em geral se comparados a países de renda mais alta.

Apontam ainda que focar na imunização de profissionais de saúde, nos casos em que eles já têm acesso a equipamentos de proteção individual e outros métodos avançados de prevenção, provavelmente não reduziria significativamente os danos, e que a vacinação de países com populações mais velhas não diminuiria necessariamente a disseminação do vírus, já que indivíduos de outras faixas etárias têm um papel maior na transmissão.

O que o grupo de cientistas propõe

A estratégia alternativa proposta pelo artigo foi chamada de “Fair priority model” (Modelo da prioridade justa, em tradução livre) e tem três etapas que visam a prevenir primeiro os danos mais urgentes causados pela doença nos diferentes países.

Uma alternativa

Fase 1

Visa a reduzir mortes prematuras e outros impactos irreversíveis da covid-19 na saúde

Fase 2

Dá continuidade ao enfrentamento aos prejuízos duradouros da covid-19 para a saúde da população mas também objetiva mitigar perdas econômicas e sociais causadas pela doença

Fase 3

Visa a diminuir a transmissão comunitária, que por sua vez irá reduzir a disseminação do vírus entre países

O modelo serve para nortear a maneira de distribuir as doses entre os países, mas não fala em quantidades exatas. O cálculo depende da integração do modelo com com dados empíricos (sobre a capacidade do sistema de saúde, por exemplo) e demográficos de cada país.

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