Como a pandemia fez explodir o uso de bicicletas na França

Plano lançado pelo governo em abril faz tráfego de ciclistas crescer até 67% em Paris, num movimento que ativistas torcem para se consolidar

    O uso de bicicletas como meio de transporte cresceu 29% na França nos oito primeiros meses de 2020, quando comparado ao mesmo período de 2019.

    O crescimento reflete a preferência pelo uso das bicicletas como meio de transporte durante a pandemia e mostra o resultado positivo de um plano estatal lançado em abril para estimular essa forma de locomoção no país.

    Na capital, Paris, o fluxo nas ciclovias e ciclofaixas teve um aumento de 67% no fim de agosto, período que coincide com o desconfinamento e o pico da primavera, quando as férias escolares e as altas temperaturas normalmente já aumentam o movimento.

    A prefeitura da cidade instalou em fevereiro um contador que registra o número de ciclistas que passam pela ciclovia da avenida Sebastopol, uma das grandes vias que cruzam Paris do lado direito do rio Sena.

    No dia da instalação, foram registradas 1.940 passagens de ciclistas pelo local. Três meses depois, em maio, o contador registrou 10.267 passagens. No quinta-feira (3), o pico foi de 16.858 passagens de ciclistas pelo contador, número superior ao de veículos circulando no mesmo horário pelo setor.

    O jornal francês Le Monde nota que a pandemia e o consequente desconfinamento “fez o uso de bicicletas avançar em poucos meses o que não avançou durante anos” em toda a França.

    O crescimento foi mais acentuado nas metrópoles – 33% ciclistas circulando a mais de janeiro a agosto do que no mesmo período do ano anterior. Nas zonas rurais, o crescimento foi de 16% e nos subúrbios urbanos, 17%.

    Apoio estatal às bicicletas

    O boom ciclístico foi em grande medida espontâneo, mas o Estado também ajudou. O governo francês pôs em marcha uma série de medidas de estímulo ao uso de bicicletas, colocando o assunto sob coordenação do Ministério da Transição Ecológica e Solidária, que trabalhou em parceira com a associação dos coletivos de bicicletas, fundada em 1901.

    Em maio, quando teve início o período de reabertura, depois de três meses de confinamento, o governo lançou um fundo de 20 milhões de euros (aproximadamente R$ 124 milhões) para financiar reparos em bicicletas usadas.

    Cada cidadão teve direito a um reembolso estatal de até 50 euros (aproximadamente R$ 310) para o pagamento de pequenos reparos em suas bicicletas usadas, como ajustes de freio, conserto de pneus e de luzes de sinalização.

    A França é o país-membro da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que mais cobra impostos de seus cidadãos. O recolhimento francês corresponde a 48,61% de seu próprio PIB (Produto Interno Bruto), contra a média de 34,4% dos demais países do grupo e 35,07% no Brasil.

    Grande parte dessa carga tributária é revertida para o subsídio de programas públicos como esse, das bicicletas. Recentemente, iniciativas ligadas ao meio ambiente e às mudanças climáticas vêm recebendo cada vez mais atenção do poder público e da população.

    A construção das ‘coronapistas’

    Na quinta-feira (3), o ministro dos Transportes, Jean-Baptiste Djebbari, prometeu a construção de 600 novos trechos de ciclovia no país. Os trechos construídos no período da pandemia foram apelidados pelos usuários de “coronapistas”.

    A região mais bem servida por elas é a Île-de-France, onde fica Paris. O governo colocou em funcionamento um cinturão de 500 quilômetros de pistas para bicicletas ao redor do “hexágono”, que circunda a zona.

    O projeto ciclístico não é unânime e, como acontece com a maioria dos assuntos de governo na França, suscita críticas, debates e oposição. Muitos contribuintes notam que há trechos abandonados, nunca utilizados ou desgastados demais, a ponto de perderem a sinalização asfáltica, em algumas partes.

    A prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo, já era adorada por ciclistas e odiada por motoristas de carros particulares muito antes da pandemia, por seu apego ao projeto de expansão das ciclovias na capital, que pressupunha obrigatoriamente a redução das vias e vagas para automóveis.

    A chegada da pandemia acelerou esse projeto. A prefeita, reeleita em junho, acelerou essa política em favor das bicicletas. Das 50 novas “coronapistas” anunciadas na eleição, 45 já tinham sido entregues até o fim de agosto.

    A cidade prevê realizar em novembro uma série de audiências públicas para consolidar essa nova etapa de seu projeto de mobilidade. Aí, deve ser tomada a decisão sobre quais inovações permanecem e quais serão desfeitas, após a passagem do pico da pandemia e a disponibilização de uma esperada cura para a doença.

    A iniciativa do Reino Unido

    Do outro lado do Canal da Mancha, o governo do Reino Unido também tenta dar impulso ao uso das bicicletas como meio de locomoção. Enquanto na França o discurso é embalado por preocupações de ordem ecológicas e de combate à pandemia, os britânicos põem acento no combate à obesidade e ao sedentarismo.

    O governo do premiê britânico, Boris Johnson, anunciou o investimento de 2 bilhões de libras (quase R$ 14 bilhões) para fomentar meios de transportes alternativos, como bicicletas, patinetes e vias próprias para caminhadas, até 2025.

    Assim como na França, a iniciativa ganhou impulso durante a pandemia, quando o governo detectou “níveis inéditos de pessoas andando a pé e de bicicleta no Reino Unido”, mesmo num clima bem menos amistoso que o do restante da Europa, com muitos dias de chuva e de céu escuro sobre toda a Grã-Bretanha.

    Johnson – um premiê obeso, que se queixa de lutar contra o “efeito sanfona”, de ganhar e perder peso – referiu-se à iniciativa como “os anos de ouro do ciclismo” no Reino Unido.

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