Como ‘Mulan’ testa a indústria do cinema na pandemia

Enquanto outros estúdios adiaram lançamento de blockbusters, Disney optou por disponibilizar o live-action da animação de 1998 direto em sua plataforma de streaming, gerando reclamações de distribuidores

    Temas

    Com o início da pandemia do novo coronavírus, decretada em março, estúdios e produtoras de cinema do mundo todo tiveram que adiar suas estreias.

    Blockbusters que estavam prestes a estrear, como “007 - Sem tempo para morrer” e “Um lugar silencioso 2” tiveram de ser postergados em alguns meses.

    A Disney, maior estúdio de Hollywood, seguiu os mesmos passos. Naquele mês, o conglomerado pretendia estrear o live-action (filmada tradicionalmente, com atores) de “Mulan”, animação de 1998 que conta a história de uma jovem chinesa que decide servir ao exército do país no combate às invasões mongóis no século 13. Com a pandemia, o lançamento se tornou uma incógnita.

    Num primeiro momento, a Disney pretendia esperar que a situação sanitária se normalizasse para lançar o longa, que custou US$ 200 milhões, nos cinemas. Vendo que a pandemia se estenderia por tempo indeterminado, a empresa tomou uma decisão inédita e optou por lançar o longa na plataforma de streaming Disney+.

    A estreia de “Mulan” no serviço acontece na sexta-feira (4) nos países que já contam com a plataforma (no Brasil, o lançamento ocorre em 17 de novembro).

    Inicialmente, “Mulan” vai estar disponível como um produto separado dentro do serviço, com uma taxa de US$ 30 pela compra digital do longa cobrada separadamente. Em dezembro, o filme passa a estar disponível para todos os assinantes do Disney+ sem custo adicional.

    Como a pandemia mudou o sistema de distribuição

    Sempre houve um acordo informal entre estúdios e redes de cinema para que os filmes do circuito comercial tradicional fossem produtos exclusivos das salas por alguns meses até que pudessem chegar ao público por meio de outras mídias.

    O sistema é o mesmo desde a década de 1980: os estúdios produzem os filmes e fazem o lançamento nas salas de cinema. Cerca de três meses depois, os longas ficam disponíveis no chamado mercado de home video: DVDs, blu-rays, aluguel/compra da versão digital e serviços de streaming. Três meses depois disso, os filmes chegam a canais de TV por assinatura e, três anos depois da estreia, podem ser exibidos na TV aberta.

    As decisões podem ser alteradas com avaliação individual de cada caso mas, no geral, esse sistema, conhecido como “janelas de lançamento”, é seguido sem grandes mudanças em boa parte do mundo.

    Porém, o fechamento das salas de cinema aliado ao período de isolamento social fez com que os estúdios repensassem o sistema, apostando no digital para manter suas próprias finanças saudáveis e oferecer opções de entretenimento ao público.

    A Universal deu o primeiro passo em 16 de abril, anunciando que seus filmes que estavam em cartaz nos cinemas no início da pandemia, como “O homem invisível”, “A caçada” e “Emma” seriam lançados digitalmente para compra e aluguel em plataformas como o iTunes e Google Play.

    Além de disponibilizar filmes recém-estreados, o estúdio também anunciou que a animação “Trolls 2”, que estrearia naquele mesmo mês, iria direto para essas plataformas.

    A decisão da Universal representou uma quebra do acordo das janelas de lançamento e não passou despercebida.

    Cerca de uma semana depois do anúncio, a rede de cinemas AMC, a principal e maior dos EUA, anunciou que não exibiria mais filmes da Universal caso o estúdio seguisse com a decisão.

    A situação só foi resolvida em julho, quando ambas as partes chegaram a um acordo que estipulou que a Universal poderia lançar seus filmes digitalmente três semanas após a estreia nos cinemas, repassando uma porcentagem (não divulgada) do valor arrecadado com os “ingressos digitais” para a rede de cinemas.

    Por que o lançamento digital de ‘Mulan’ chama atenção

    A decisão da Disney em lançar “Mulan” no Disney+ também não foi bem vista pelo circuito exibidor – que, em boa parte do mundo, segue fechado ou operando com capacidade reduzida.

    O estúdio tem sob seu leque de propriedades intelectuais as três maiores e mais lucrativas franquias do momento: os filmes da Marvel, a saga “Star Wars” e as próprias adaptações live-action das animações.

    Ao lançar “Mulan” no serviço de streaming, em vez de dividir os milhões de dólares de arrecadação com os exibidores, a Disney acaba tomando toda a receita para si – mesmo que seja um montante menor do que aquele que seria obtido numa estreia tradicional.

    Um vídeo que viralizou no começo de agosto mostra Gérard Lemoine, dono de um cinema em Paris, destruindo um pôster de “Mulan” com um taco de beisebol.

    “Perdemos, em média, € 5.000 por semana”, disse Lemoine ao site Destination Ciné em 24 de agosto. “É um grande erro da parte da Disney, que sempre foi uma boa parceira”, afirmou.

    A única menção pública da Disney ao atrito com os exibidores se deu pouco após a viralização do vídeo de Lemoine. Em entrevista ao canal de TV americano CNBC, Bob Chapek, CEO do conglomerado, disse que “Mulan” era uma exceção, e que não marcaria uma nova norma para o estúdio.

    Ele ressaltou, contudo, que a empresa vai analisar a adesão e a recepção do público ao modelo, sinalizando que, num futuro, mais lançamentos nesse formato podem ocorrer.

    Ao CNBC, Kathryn Arnold, produtora e consultora do mercado cinematográfico nos EUA, afirmou que os próximos passos da Disney dependem de “Mulan”.

    “Vai ser uma combinação de fatores”, disse. “Da volta plena dos cinemas depois do fim da covid-19, da adesão a esse modelo de negócios e de diretores e produtores concordarem com uma nova forma de distribuição”, acrescentou.

    A receptividade do público foi polarizada. Para alguns, a taxa de US$ 30 (R$ 158 na cotação de 3 de setembro de 2020) para ver o filme antecipadamente representa um valor alto. Outros argumentaram que o preço é menor do que a compra de dois ingressos de cinema – isso sem contar outros custos, como deslocamento, estacionamento e gastos com bombonière.

    Por ser um movimento inédito, não se sabe ainda se os espectadores vão pagar a taxa, se vão aguardar até dezembro ou se vão partir para as versões piratas que certamente vão circular em sites de download.

    O lançamento nos cinemas da China

    A China é hoje um mercado chave para os grandes estúdios de Hollywood. O país asiático – cuja população ultrapassa 1,3 bilhão de pessoas – se tornou a galinha de ouro dos blockbusters, já que o público chinês é ávido por grandes produções hollywoodianas.

    “Vingadores: Ultimato” (2019), longa que marcou o ápice dos filmes da Marvel, arrecadou, mundialmente, US$ 2,7 bilhões e se tornou o longa com maior bilheteria em todos os tempos.

    Desse montante, US$ 629 milhões vieram dos cinemas chineses. O país ocupou a segunda posição dos países que mais viram “Ultimato”, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (US$ 858 milhões).

    Pela importância do mercado chinês e pelo perfil do filme, a Disney decidiu que vai lançar “Mulan” nos cinemas do país – que, ao contrário de muitos países ocidentais, já voltaram a funcionar. Uma data ainda não foi anunciada.

    Um filme pensado para o público chinês

    A versão original de “Mulan estreou em meio à chamada “Renascença Disney”, período que teve início em 1989 com “A pequena sereia” e se encerrou dez anos depois com “Tarzan”.

    Nas décadas seguintes à morte de Walt Disney, em 1966, o estúdio perdeu boa parte do renome que tinha quando seu criador era vivo e produziu uma série de filmes que não tiveram nem sucesso crítico, nem boa performance comercial.

    Durante a “Renascença Disney” que se seguiu, o estúdio explorou diversas culturas do mundo em seus filmes, como, por exemplo, o Oriente Médio em “Aladdin” (1992), a África em “O rei leão” (1994) e a Grécia Antiga em “Hércules” (1997).

    “Mulan” marcou o primeiro mergulho da Disney na cultura chinesa. O roteiro da animação foi inspirada em um poema épico datado do século 7, cuja autoria é desconhecida, e que conta a história de uma heroína que se disfarça de homem e toma o posto de seu pai – já debilitado – no serviço obrigatório do exército.

    A versão da Disney levou a ambientação da trama para as invasões do século 13, mas manteve os elementos narrativos centrais do poema. A iniciativa, porém, teve desempenho comercial morno e não empolgou a crítica. O longa arrecadou US$ 304 milhões nas bilheterias - apesar do valor ser similar ao de outras animações da mesma década, ele foi o segundo mais caro do período, tendo custado US$ 90 milhões, ficando atrás apenas de "O corcunda de Notre-Dame" (1996), que custou US$ 100 milhões.

    Desde 2010, a Disney passou a revisitar suas animações clássicas em versões live-action, feitas com atores de carne e osso.

    O cineasta Tim Burton inaugurou a tendência naquele ano, com “Alice no país das maravilhas”, estrelado por Mia Wasikowska e Johnny Depp. Depois dele, vieram releituras de títulos como “Mogli” (2016), “A Bela e a Fera” (2017), “Aladdin” (2019) e “O rei leão” (2019).

    Na versão live-action de “Mulan”, a Disney tomou uma série de precauções para que o filme seja bem recebido na China.

    A principal medida se deu na contratação da protagonista: Mulan é vivida por Liu Yifei, uma das jovens atrizes mais famosas da China. O longa marca o primeiro papel dela fora do cinema local.

    De acordo com o jornal Wall Street Journal, a Disney também manteve contato próximo com o governo chinês, para garantir que os elementos da trama estivessem alinhados com os valores da maior parte da população do país.

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