Por que escudos faciais não são proteção suficiente contra a covid-19

Experimentos feitos por pesquisadores americanos mostram que equipamentos deixam escapar partículas e só devem ser usados acompanhados de máscaras

    Escudos faciais e máscaras com válvula não servem para deter a dispersão de gotículas que podem carregar o novo coronavírus. É o que concluiu um estudo divulgado na terça-feira (1º) pela revista acadêmica Physics of Fluids, publicação do Instituto Americano de Física.

    O escudo facial ou viseira consiste em uma cobertura de acrílico – ou outro material semelhante – que fica presa à cabeça, próxima ao rosto. Já máscaras com válvula filtram o ar quando é inspirado, mas o deixam sair sem obstáculos na expiração.

    Autores do estudo, os pesquisadores Siddhartha Verma, Manhar Dhanak e John Frankenfield, da Universidade Atlântica da Flórida, nos EUA, testaram o que acontece quando alguém que usa esse tipo de proteção facial espirra ou tosse.

    No caso do escudo, o jato inicial é bloqueado, mas gotículas aerossolizadas escapam pela parte de baixo e conseguem se espalhar pelo ambiente. A máscara com válvula de expiração tampouco impede a liberação de gotículas nessas situações.

    Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que muitas pessoas têm trocado as máscaras de tecido ou cirúrgicas por esses outros tipos de proteção, principalmente em função do maior conforto que oferecem. Mas a mudança pode fazer com que os esforços de mitigação saiam pela culatra.

    Combinado a outras medidas preventivas, como o distanciamento social e a higienização frequente das mãos, o uso de máscara – desde que adotado da maneira correta – é recomendado como uma forma eficaz de combater a disseminação do vírus.

    O escudo pode ser utilizado como complemento para a proteção de uma máscara, mas idealmente não em substituição a ela. Segundo o estudo, máscaras que não tenham válvula de exalação também são preferíveis.

    Ainda assim, especialistas afirmam que em situações nas quais máscaras melhores não estão disponíveis, qualquer tipo é melhor do que não usar nenhuma proteção.

    A conscientização da população a respeito da importância do uso da máscara e da eficácia dos diferentes tipos ganhou importância ainda maior com os indícios científicos de que o novo coronavírus pode ser transmitido pelo ar. Segundo estudos, microgotículas de saliva em forma de aerossol são capazes de circular no ar de um ambiente por horas, levando à contaminação de pessoas que venham a seu encontro.

    Qual o grau de dispersão

    Para visualizar a disseminação de gotículas provocada por tosses ou espirros, os pesquisadores utilizaram a cabeça oca de um manequim e uma bomba manual para simular, com jatos de água destilada e glicerina, as gotículas expelidas pelo nariz e pela boca.

    Com o auxílio de um laser, acompanharam seu fluxo no tempo e no espaço em relação ao uso de diferentes tipos de proteção facial.

    Foto: Reprodução
    Foto de experimento em etapas. Quatro fotos que mostram o avanço das partículas vistas por uma luz verde
    Experimento realizado com máscara com escudo facial
    Foto: Reprodução
    Foto de experimento em etapas. Quatro fotos que mostram o avanço das partículas vistas por uma luz verde
    Experimento realizado com máscara com válvula

    Com o escudo, as partículas começam a se dispersar já no primeiro segundo após a “tosse” do manequim, e em cerca de dez segundos já haviam avançado aproximadamente um metro de distância para frente e para os lados.

    O resultado foi similar para o rosto do manequim coberto com uma máscara N95 com válvula. Um grande volume de gotículas saiu pela válvula e, embora o jato tenha sido direcionado para baixo – o que inicialmente reduz a dispersão para a frente – gotículas em forma de aerossol acabam se dispersando também por uma grande área, segundo o estudo, assim como no caso do escudo facial.

    A disseminação foi reduzida nos testes realizados com a N95 sem válvula e com duas marcas de máscaras cirúrgicas. Devido ao resultado, o estudo indica ser preferível usar máscaras de tecido ou cirúrgicas de alta qualidade em relação ao escudo facial e a máscaras com válvula de expiração.

    Os tipos mais efetivos de máscara

    Em um estudo anterior, os mesmos pesquisadores realizaram experimentos semelhantes para avaliar a efetividade das máscaras, conforme seu material e design para bloquear as gotículas que potencialmente carregam o Sars-Cov-2.

    Segundo esse trabalho publicado em junho, também pela Physics of Fluids, máscaras faciais mais frouxas ou coberturas no estilo de bandana têm uma capacidade mínima de bloquear partículas menores que são expelidas.

    Máscaras acolchoadas, feitas de múltiplas camadas de tecido (idealmente três, segundo a recomendação da Organização Mundial da Saúde) e bem ajustadas ao rosto, assim como as que têm forma de cone, se provaram as mais eficazes em reduzir a dispersão de gotículas.

    Como não usar máscaras

    • Não deixar o nariz e o queixo expostos. Ambos devem estar inteiramente cobertos pela máscara;
    • Não usar máscaras que fiquem largas no rosto, com vãos na parte superior, inferior ou nas laterais;
    • Não abaixar a máscara, deixando-a presa na altura do queixo. Melhor tirar totalmente quando necessário;
    • Não encostar no tecido ao colocar ou tirar. Segurar pelos elásticos;
    • Não deixá-la sobre a mesa ou outra superfície ao tirar. Colocar dentro de um saquinho para descartar ou lavar.

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